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Fact Check

Feministas em Espanha querem proibir homens de urinar em pé?

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O site Tá Feio partilhou um texto em que diz que está a ser criada uma proposta de lei para proibir homens de urinar em pé (multando quem o faça) e eliminar urinóis das casas de banho — o que é falso.

A frase

“Feministas querem proibir que os homens urinem de pé”

— Site "Tá Feio", 10 de março de 2018


O artigo já ultrapassou as 9 mil partilhas — só 3,1 mil foram feitas nas últimas 24 horas. O texto é do site Tá Feio e descreve que há “diversos grupos de feministas radicais“, em Espanha, que estão a criar uma proposta de lei pela “igualdade real entre sexos, géneros e identidades sexuais”, em que uma das medidas seria proibir os homens de urinar em pé. Mas nenhum grupo feminista espanhol anunciou tal proposta de lei, até ao momento. Aliás, os autores do texto não identificam sequer quem são estes “diversos grupos de feministas radicais” a que se referem e que estariam na origem desta proposta de lei.

O texto dá detalhes sobre o suposto documento que está a ser elaborado. Nomeadamente, que propõe uma multa para os homens que não urinem sentados — multa essa que poderia ir dos “2.500 até aos 3.800 dólares“. Ora, em Espanha não se utiliza o dólar, mas sim o euro. Os autores do texto escrevem também que, para tornar esta proibição possível, estes grupos propõem a “eliminação total dos urinóis das casas de banho masculinas” e que as “casas de banho públicas passem a ser mistas”.

O texto enumera ainda outras medidas da suposta proposta de lei: proibir pediatras e ginecologistas de anunciar o sexo dos bebés ou de se referir a eles como menino e menina; eliminar as cores rosa e azuis das roupas e objetos para bebés; ou proibir meninas de se mascararem de “rainhas, princesas ou qualquer figura aristocrata” e os meninos de cowboys ou polícia”.

Há dezenas de artigos do site Tá Feio que, não só estão escritos em tom humorístico, como têm mesmo a indicação, no início e no final dos textos, que se trata de um artigo satírico. Não é o caso deste. Além disso, a esmagadora maioria dos mais de 300 comentários feitos na publicação do Facebook são de utilizadores que parecem acreditar que se trata de uma proposta de lei verdadeira. É assim que o texto é várias vezes comentado e partilhado: como sendo verdadeiro.

A primeira vez que o artigo foi partilhado no Facebook foi a 10 de março de 2018. Desde então, tem vindo a ser partilhado diversas vezes. Uma das últimas vezes foi no dia 23 de junho.

O texto foi partilhado, por exemplo, por um utilizador no grupo de Facebook “Grupo de apoio ao juiz Carlos Alexandre”, que sugere que esta proposta de lei possa vir a ser elaborada também pelo PAN ou pelo Bloco de Esquerda. O utilizador em questão afirma mesmo que “em alguns círculos mais restritos do partido já há quem o exija para Portugal”, embora aqui não especifique a que partido se refere. Ainda assim, esta partilha mostra que o texto está a ser partilhado por vários utilizadores que acreditam tratar-se de uma proposta de lei verdadeira e tecem opiniões sobre ela.

Não houve qualquer meio de comunicação de Espanha a noticiar que uma proposta de lei como esta estaria a ser preparada. Aliás, esta informação só surge em alguns sites espanhóis pouco credíveis e que também eles não identificam quem são estes “diversos grupos de feministas radicais” que seriam os autores desta proposta de lei. Algumas das imagens que surgem nestes sites espanhóis a acompanhar os textos — como uma fotografia da estátua Manneken Pis — surgem também no artigo do site Tá Feio. Estes sites espanhóis citam o diploma sobre igualdade de género (verdadeiro e aprovado em 2016 pela Assembleia Municipal de Madrid) que seria alvo da alteração que os tais “grupos de feministas radicais” viriam propor — alteração essa que nunca aconteceu.

A única proposta que houve semelhante a esta, na Europa, foi apresentada numa autarquia local, na Suécia, pelo Partido da Esquerda (Vänsterpartie). De acordo com um artigo do The Huffington Post em 2012, os autores da proposta alegavam que seria mais higiénico e vantajoso para a saúde dos homens que urinassem de pé. A proposta foi apresentada em forma de moção e aplicava-se apenas às casas de banho dos edifícios daquela autarquia local (Sörmland).

Conclusão

O texto apresenta várias medidas de uma suposta proposta de lei que estaria a ser trabalhada por “diversos grupos de feministas radicais”, em Espanha — grupos que nem sequer são identificados pelos autores. É falso que exista uma proposta como esta a ser trabalhada até porque nenhum grupo feminista espanhol anunciou tal iniciativa, até ao momento. O site Tá Feito publica vários textos assumidamente satíricos, mas este é apresentado como sendo verdadeiro.

Segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook e com base na proliferação de partilhas — associados de reportes de abusos de vários utilizadores — nos últimos dias.

O Observador é signatário e entidade verificada pelo International Fact-Checking Network (IFCN)
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