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Esta é a primeira newsletter do Observador totalmente dedicada à dor. Esperemos que goste e que este tema de saúde o leve a partilhar estas linhas. Nos próximos meses enviaremos outras newsletters. |
Nem sempre compreendida e visível ao olhar dos outros, a dor é um tema unânime: é universal, todos nos recordamos dos momentos em que sentimos as piores dores — como nos condicionou o dia a dia — e o que fizemos para melhorar. É sobre isto que falamos na nova secção do Observador, lançada a 17 de outubro, dedicada exclusivamente a temas relacionados com a dor e respetivo acompanhamento clínico e impacto na sociedade. Em Portugal, um em cada três adultos sofre de dor crónica. |
Nesta nova secção, damos voz a doentes, mas também a médicos e outros profissionais de saúde. Como é o caso de Carina Raposo, enfermeira e protagonista da rubrica “O que eu aprendi com a dor dos outros”, assinada pela jornalista Sofia Teixeira, com fotos do fotojornalista Igor Martins. “Alguns doentes, quando chegam, têm a expectativa de que lhes vamos tirar a dor. Isso é um mito que, com cuidado, temos de desmontar e que implica humildade profissional”, diz. Com a ressalva de que os enfermeiros a trabalhar nesta área não se posicionam “como uma espécie de super-heróis que curam os doentes, porque a dor crónica não se cura, como acontece com uma pneumonia”. |
A dor não é igual de pessoa para pessoa e pode envolver várias especialidades, ou seja, ser tratada por médicos de diferentes áreas. Foi por isso que convidámos Cláudia Armada, médica anestesista, para o primeiro episódio do podcast Conversas sobre Dor. A também coordenadora da Clínica da Dor do IPO de Lisboa fala-nos que a dor oncológica pode advir do próprio tumor ou dos vários tratamentos. Mas que pode até “ser mais fácil de tratar” com as armas terapêuticas disponíveis hoje, quando comparadas com o que existia há uns anos. A conversa pode ser ouvida aqui. |
Mariana Carvalho tem 27 anos e sempre lidou com a dor. Foi atleta de alta competição em ginástica de trampolins durante muitos anos e habituou-se a lidar com lesões recorrentes. Mas o que sente agora é diferente. O diagnóstico de artrite reumatoide aos 20 anos trouxe-lhe uma realidade que desconhecia, que relata na crónica que escreveu para esta secção: “A dor rouba-nos tempo: algumas atividades tornam-se morosas — antes demoravam um minuto e agora dez. A dor é cansativa: cansa-nos o corpo, cansa-nos a mente. Tolda-nos o raciocínio e traz as emoções à tona, deixa que nos dominem. A dor suga-nos a energia, porque quase inevitavelmente perturba-nos o sono, impedindo o descanso, a ‘regeneração’, a limpeza do organismo”. |
A fisioterapeuta e investigadora foi uma das convidadas da Rádio Observador no dia de lançamento deste projeto para relatar a sua experiência e falar da página que criou para a partilha de testemunhos e a sensibilização das pessoas para as doenças reumáticas. Chama-se @brigadadoreumatico e está disponível no Instagram. A jovem inspirou-se num diagnóstico que lhe mudou os dias para encontrar várias respostas, e ainda, ajudar os outros numa espécie de linguagem partilhada entre doentes, cuidadores, amigos e familiares. |
Com ela, nesta entrevista de rádio, esteve o presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED), parceira desta iniciativa (juntamente com a SIP-Portugal) e o editor de inovação Paulo Farinha. Para ver aqui. |
E quando se é cuidador, de que forma é que a dor é vivenciada? Joaquim Brites é presidente da Associação Portuguesa de Neuromusculares e tem um filho com uma doença rara. Foi sobre esse desafio diário que escreveu a crónica “Cuidar de um filho com uma doença rara é assistir ao sofrimento em silêncio” onde descreveu o que sentem muitos outros cuidadores e pais. “Ser cuidador é viver entre o pragmatismo e a emoção. É antecipar o futuro, planear as adaptações da casa, os horários e rever todos os planos já idealizados. É aprender sobre genética, legislação, fisioterapia, nutrição. É estar presente, mesmo quando o outro, tenta esconder a dor. É lutar para que ele continue a trabalhar, a criar, a sonhar — apesar das limitações físicas e da exaustão invisível.” |
Todas as dores devem ser valorizadas. Nenhuma é mais importante do que outra e a forma como cada um a vive é individual. Certamente já ouviu frases como “Eu até sou muito resistente à dor” ou “Tenho pouca tolerância à dor” no seu grupo de amigos ou familiares. Pode não haver uma única resposta, mas cada pessoa lida com este sintoma – que se transforma em doença quando passa a dor crónica – de forma única e intransmissível. E ainda que não seja conhecida cura para a cronicidade da dor, existem vários tratamentos disponíveis. |
O estudo Chronic Pain Care – Prevalence and Characteristics of Chronic Pain Among Patients in Portuguese Primary Care Units, liderado pelo médico fisiatra Filipe Antunes, e publicado em 2021, conclui que “a alta prevalência de dor crónica em Portugal é um problema de saúde pública” e afeta 33,6% dos pacientes que frequentam os centros de saúde de Portugal Continental. |
Um estudo anterior, liderado por Luís Azevedo, investigador do CINTESIS, em 2012, intitulado Epidemiology of chronic pain: a population-based nationwide study on its prevalence, characteristics and associated disability in Portugal, conclui que 85% do total de inquiridos apresentavam dor recorrente ou contínua, 68% reportaram dor moderada a grave e 35% referiram incapacidade significativa. E 49% dos participantes afirmaram que a dor crónica interfere com a sua atividade profissional. Estes números deixam perceber que a dor é apenas o início de uma caminhada que pode ser exigente e interferir com a qualidade de vida em várias dimensões. Por isso é tão importante falar sobre isto. |
Recorde-se que o DOR é o quarto grande projeto do Observador dedicado à saúde e ciência, depois do MENTES BRILHANTES, sobre investigação científica de excelência feita em Portugal, do MENTAL, sobre saúde mental, e do ARTERIAL, sobre doenças cérebro-cardiovasculares. |