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Cada vídeo da série “Do Outro Lado”, que faz parte da secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental passa antes por uma sinopse com uma proposta que a jornalista Sofia Teixeira envia por e-mail. E, antes disso, começa por ser uma conversa com o psicólogo ou psiquiatra que é ouvido e que partilha o caso que mais o marcou. E, ainda antes desse patamar, há um contacto entre os dois, em que a Sofia explica ao que vai e pede uns minutos para conversarem. |
Quase três anos depois do lançamento do Mental – que arrancou em março de 2023 –, a Sofia já não precisa de grandes explicações sobre os vídeos que ela e o realizador Nuno Neves preparam com tanto cuidado, num fino equilíbrio entre a sensibilidade do profissional de saúde, a dignidade da história do doente e a capacidade de chegar a milhares de pessoas que se revêm na humanidade daqueles casos. Normalmente os médicos e os psicólogos já conhecem o Mental e a força destes vídeos. Ou porque algum paciente já falou deles, ou porque viram algum colega nas redes sociais ou no site do Observador. Ou porque já se cruzaram com casos muito semelhantes aos que trazemos todos os meses. |
“A história da mãe que lutou por tratamento para o filho, mas morreu antes de o ver recuperar” passou por todas estas etapas. E, quando chegou ao momento da sinopse que chega por e-mail — que depois foi aprovada, passando a Sofia para a fase seguinte de cruzar datas com o realizador e com o entrevistado –, teve imediatamente luz verde. Não restaram dúvidas, não foi preciso explicar nenhum ponto, não houve esclarecimentos que era preciso acautelar. Foi um daqueles casos que nos conquistou imediatamente. |
O resultado final confirmou as certezas. A forma como o psiquiatra Hugo Canas Simião relata o caso da mulher com depressão e insónia que tinha dificuldades em pagar contas e que tinha o filho menor a seu cuidado é arrebatadora. Numa casa onde a comida não era garantida e a água quente também não, a angústia daquela mãe por tentar que o filho (sobre o qual ela tinha dúvidas quanto ao sofrimento por que poderia passar por doença mental), tivesse acesso a uma avaliação psiquiátrica é tratada com uma elegância, sobriedade e um desfecho triste que marcou o médico. |
As dúvidas da mãe justificavam-se: a esquizofrenia do rapaz foi identificada e este, depois de internado, foi acompanhado, medicado, tratado. Três meses depois, porém, chegou outro diagnóstico. O da mãe: cancro do pulmão num estadio avançado. |
A mulher já não viveu para ver o filho medicado e compensado. A luta de anos chegava ao fim, mas sem uma das protagonistas da história. |
Vale a pena conhecer esta história (que pode ver aqui em vídeo ou ouvir aqui em podcast), que recorda, ainda que de forma indireta, um drama enorme que milhares de pessoas enfrentam em Portugal: a carga física e mental que recai sobre os cuidadores informais. |
Em outubro, o Instituto da Segurança Social dava conta que, dos mais de 18 mil cuidadores informais reconhecidos em Portugal (sabe-se que são muitos mais), menos de cinco por cento tem acesso a descanso regular previsto no plano de intervenção específico, um documento elaborado com técnicos da segurança social e dos serviços de saúde, que ajuda a delinear o apoio de que aquela pessoa precisa, nomeadamente em termos de formação, saúde ou apoio social e que os ajuda a ter acesso ao subsídio de apoio que o Estado concede. |
Lavam, tratam, acompanham, fazem companhia, alimentam, cozinham, mimam. São sobretudo mulheres (mais de 80%), com uma idade média de 57 anos, que cuidam do pai ou da mãe, de um filho, do marido ou da mulher. E que, como aquela doente do psiquiatra Hugo Canas Simião, tentam por todos os meios conseguir ajuda para aqueles de quem cuidam. Esta história ajuda a lembrar essa realidade tão comum em Portugal. |
Entretanto, estes foram os últimos trabalhos que publicámos no Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental: |