Exibida nos EUA entre 1971 e 1979, a série All in the Family (que em Portugal ganhou o nome de Uma Família às Direitas quando passou na RTP em 1986 e 1987) tinha vários personagens que ficaram para a história do pequeno ecrã. O mais famoso de todos foi, claro, Archie Bunker, o preconceituoso e irritante pai daquela família, interpretado por Carroll O’Connor. Mas o meu preferido era outro: o genro meio hippie e com sensibilidade social Michael Stivic, encarnado por Rob Reiner (que mais tarde viria a tornar-se realizador e que há quase dois meses foi assassinado, alegadamente pelo filho).
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Num episódio em que Gloria, a filha de Archie e Edith, diz ao marido que gostava de ter um filho, Michael hesita e revela que o mundo é um local complicado e que trazer uma criança ao planeta pode ser um ato irresponsável, perante todas as ameaças a que a humanidade está sujeita. Uma delas, diz, era a poluição. Há cinquenta anos, na televisão, um personagem mostrava-se preocupado com um tema que, sendo considerado marginal na altura, já merecia atenção — 1971, o ano de lançamento da série, é também o da fundação da Greenpeace. |
Meio século depois, o planeta não está melhor. E arrisco a dizer que haverá mais pessoas preocupadas com a responsabilidade de trazer um filho a este mundo. |
Em julho de 2023, este vídeo do ministro italiano do Ambiente e Segurança Energética tornou-se viral no país da bota. Na sequência dos fortes incêndios que assolavam Itália, Gilberto Pichetto Fratin respondia, em lágrimas, a uma mulher que reconhecia sofrer de eco-ansiedade. Depois de Giorgia Vasaperna lhe perguntar se ele não temia pelos filhos e pelos netos, o governante admitia: “Eu tenho uma responsabilidade perante todos vós.” E começou a soluçar antes de concluir: “Eu tenho uma responsabilidade perante os meus netos.” |
Não sendo oficialmente considerada uma doença (talvez um dia venha a figurar no famoso DSM-5, o manual de perturbações mentais da Associação Americana de Psiquiatria, reconhecido em todo o mundo), a eco-ansiedade é vista pelos profissionais como “uma resposta expectável às ameaças ecológicas que o mundo enfrenta e que a humanidade não consegue controlar“. |
Embora não se possa obviamente generalizar, os especialistas acreditam que esta sensação de pessimismo e receio de cenários catastróficos assola sobretudo as vítimas de eventos extremos traumatizantes, como cheias ou incêndios, ativistas climáticos ou profissionais que trabalham em áreas que analisam o fenómeno. |
O New York Times já escreveu sobre o tema. O Times já escreveu sobre o tema. O El País já escreveu sobre o tema. O El Mundo já escreveu sobre o tema. O Le Monde já escreveu sobre o tema. Arrisco que a maior parte dos grandes órgãos de comunicação social do mundo já se debruçaram sobre o tema e o Observador, naturalmente, não é exceção. Há cerca de um mês publicámos este explicador, mas já em abril de 2024 queríamos saber mais sobre o assunto (pode ver a entrevista aqui ou ouvi-la aqui) e em 2021 falávamos dos profissionais que estudam a eco-ansiedade. |
Ora, estando documentada, estudada, provada, porque continua então a eco-ansiedade a ser tão desvalorizada por parte de uma considerável fatia da população? Tem dúvidas? Faça um teste no seu grupo de amigos e colegas. Pergunte quantos já ouviram falar dela. E veja quantos a vão desdenhar, associando-a a “miúdos que têm a mania de cortar estradas”. |
É verdade que o debate, além de sociológico e médico, é também geracional. São os mais novos que, insatisfeitos com a inação das autoridades e responsáveis políticos, mais se têm rebelado, com o nome da sueca Greta Thunberg (que agora já tem 23 anos) a surgir à cabeça da Greve Climática Estudantil, o movimento que ganhou milhões de seguidores em todo o mundo e terá inspirado ações de protesto que, em alguns casos, poderão ter gerado mais anticorpos do que solidariedade. Sofrerá a sueca de eco-ansiedade? Sofrerão todos os adolescentes que marcharam nas ruas de dezenas de cidades de eco-ansiedade? |
E os seis jovens portugueses que em 202o apresentaram uma queixa no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos contra 32 países pela falta de medidas concretas no combate às alterações climáticas (o organismo não lhes deu razão), sofrerão de eco-ansiedade? E os ativistas que de vez em quando cortam estradas, pintam fachadas de edifícios ou atiram tinta para figuras públicas, sofrerão de eco-ansiedade? |
Fenómenos meteorológicos extremos, como o que assolou o centro do país na semana passada e que motiva os níveis de alerta que vivemos atualmente reforçam o medo — e a consciência de que a preocupação com as consequências das alterações climáticas pode ser mesmo paralisante e provocar outros problemas como depressão ou insónia. Claro que, perante o risco de perda de vidas humanas (e vamos já em oito vítimas mortais), talvez os desafios de saúde mental passem para segundo plano mas, dentro de alguns dias ou semanas, quando as condições de segurança básica para as populações estiverem garantidas, entrarão em campo com mais regularidade as equipas de psicólogos que ajudarão a lidar com todas as sequelas emocionais da tragédia. |
Talvez não seja esta a altura para falar com atenção de eco-ansiedade. Não enquanto se reparam telhados, se esticam lonas e se preparam sacos de areia para conter a subida do nível da água. Mas é capaz de estar mesmo na altura para o fenómeno deixar de ser desvalorizado. Há mesmo razões para alarme. |
Entretanto, estes foram os últimos trabalhos que publicámos no Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental: |