Moçambique tem a sua cidade de bicicletas. O fenómeno, por si, justifica visitas a Quelimane. De caminho conhecem-se peculiaridades de uma cidade que, como outras, ajuda a refletir sobre o sentido da vida onde quer que habitemos. Nas ruas basta chamar por um “táxi” para que um pedalado de duas rodas transporte o singular passageiro a qualquer destino, protótipo de autoemprego numa economia ecológica de pequena escala.

A custo, a cidade reergue-se da passagem do tornado revolucionário pós-colonial e da consequente guerra civil. Desde 1992 os dias e os anos de paz vão passando sem que a degradada paisagem urbana consiga recalcar as heranças desses tempos difíceis. Ainda assim, as ruas e edifícios da cidade permitem descobrir sinais de beleza, dignidade e mesmo grandiosidade originais que vão resistindo ao tempo. O expoente são as ruínas da secular Catedral ‘Velha’. Mas a alma da empatia com Quelimane reside no trato fácil das pessoas.

Na busca do sentido da vida de todos os dias, fui visitar Icídua, um dos populosos bairros pobres. Lembra uma península ligada à ‘cidade de cimento’ por uma única estrada principal alcatroada que, a certo passo, se converte em terra batida. Adiante, atravessa um mangal despovoado (‘a terra sem ninguém’) para desembocar numa desgastada ponte metálica. Antes e depois de atravessado o pequeno curso de água, um animado mercado de rua faz de porta de entrada no bairro.

Numa das inúmeras habitações de pau-a-pique maticada abordei uma família. Pedi para conversar com o mais velho que estava sentado à porta de casa. Disse-me não saber ao certo a idade. Uma sua neta, expedita, informou que teria à volta de noventa anos. O senhor, para meu infortúnio, era de poucas falas. Talvez por causa da barreira da língua (falava apenas chuabo, a sua língua materna). Talvez por ter ficado pouco à vontade comigo e/ou com o semicírculo que a sua família e vizinhos fizeram à nossa volta.

Depressa descobri outra provável causa do ensimesmamento do interlocutor desejado: a neta intrometida de vinte e seis anos. Em poucos minutos tomou conta da conversa. Resignado, pedi que se aproximasse. Para ela, a vida em Icídua é muito difícil. Já suspeitava, mas não da habilidade dela para desviar a minha atenção do avô. Apesar do ritmo acelerado do discurso da neta, ainda tentei manter a empatia com o mais velho, dirigindo-lhe uma ou outra pergunta. Manteve-se, em geral, lacónico ou vago. Por seu lado, a sua descendente depressa transformou o que eu retratara como península numa ilha nascida a cada anoitecer, momento em que as pessoas do bairro deixam de poder atravessar em segurança a ponte e o mangal em direção à ‘cidade de cimento’ que dista aproximadamente dez minutos a pé.

No relato da senhora, os estudantes que frequentam o ensino noturno na ‘cidade de cimento’ têm de regressar a casa em grupos grandes. Sozinhos ou poucos não se atrevem. Se o seu filho adoecer ao cair da noite, por exemplo com malária, terá de esperar pelo amanhecer para levá-lo ao hospital e sabe que, quando atenderem a criança, vão acusá-la de irresponsabilidade por ter permitido que a doença se agravasse com o correr das horas. Mostrou que o chão da povoação junto ao rio e, portanto, do interior das casas é barrento. Num dos dias de dezembro passado acordaram assustados. Os bens da sala da sua casa tinham desaparecido durante a noite sem que a família ouvisse um ruído que fosse. Havia um buraco escavado debaixo da única porta para a rua, agora tapado de forma reforçada contra uma das estratégias usadas por pobres para empobrecerem outros pobres. Uma vez que a rede elétrica já chega a algumas casas, disse que o seu pai trabalha para que tenham televisão (vi o estilo rudimentar) e outro tipo de aparelhos e bens que a família tenta repor após o assalto.

Na última quinta-feira, um dos moradores de Icídua resistiu em sua casa a um assalto. Esfaqueou mortalmente um dos agressores e feriu outro numa mão. Esse vizinho anda desaparecido desde então. Um outro morador do bairro, na semana passada, necessitou de atravessar de madrugada ‘a terra sem ninguém’, o mangal, por ter de ir à ‘cidade de cimento’ fazer compras para as cerimónias de falecimento de um seu familiar. Foi agredido, arrancaram-lhe o dinheiro, mas ainda assim conseguiu gritar por socorro “com muita força”. Um grupo de madrugadores vendedores do mercado correu em seu auxílio. Salvou-se a bicicleta.

Acabou por opinar sobre os linchamentos: “Na Beira não há muita bandidagem porque na Beira quando pegam o ladrão, estão a queimar. Na hora. Quando o governo vê não há estória. Ninguém vai preso. Mas aqui, se você fizer isso vai deixar a criança a sofrer”. A ratificação da prática deixou poucas dúvidas.

A mulher também não descortina na pobreza justificações para o crime ou para os maus comportamentos quotidianos. Dizia que tais comportamentos ou o seu oposto (ajudar ou respeitar os outros) dependem apenas do “coração das pessoas”. Não encontra desculpas para o pobre não ajudar o pobre. Mas o que considera ser frequente no bairro são comportamentos que atingem a dignidade das pessoas. Os idosos deixaram de ser respeitados “vovôs” para passarem a desprezados “cotas”. Quem estiver caído na rua ou for pedinte pode não ser ajudado. Não faltam homens e rapazes que usam e abusam da bebida para insultarem os outros sem razão. Ainda os “(…) homens de agora não têm medo da família da mulher”. Quando entendem, vão viver com outra mulher ou repudiam a esposa, desresponsabilizando-se pelo sustento da família. A ‘Liga das Mulheres’ da cidade vai ajudando no que pode.

Retratos de Icídua numa conversa coloquial. Os factos podem ou não ser validados tal como descritos. No entanto, é inquestionável o sentido atribuído a um mundo por quem o vive todos os dias. Não sou apologista do empirismo (perceber o real sem preocupações teóricas ou metodológicas), mas não deixo de sugerir aos que vivem mergulhados em teorias – muito em particular em teorias defensoras dos ‘oprimidos’, dos ‘explorados’ ou dos ‘pobres’ – que as associem a experiências ou contactos vivenciais concretos com gente comum. Experimentem, por dias ou anos, deixar que os indivíduos aos quais impõem tais rótulos pensem e discursem por eles mesmos, de preferência nos contextos em que habitualmente vivem. Talvez percebam como transformar, a partir de dentro, um sistema no qual a pobreza, a violência, o individualismo ou a anomia social tendem invariavelmente a fechar-se sobre si mesmos.

Num certo sentido, a diferença entre um bairro pobre de Moçambique e um bairro pobre de Portugal é bem mais de grau do que de substância. Em qualquer dos casos, não vejo como não responsabilizar a arrogância nefelibata politicamente correta que está na génese de irreparáveis estragos provocados nas sociedades contemporâneas no último meio século. Piores são os que nunca entenderam, nem deixam entender, ‘A alegoria da caverna’, os que apontam apenas por vício contra aqueles que, melhor ou pior, procuram refletir debaixo da luz direta do sol. Basta ler alguns dos comentários a artigos como este. Os seus autores, e quem pensa como eles, nunca foram nem serão inocentes nas desgraças do mundo.

É também evidente que no âmago dos bloqueios sociais mais prementes estão atitudes e comportamentos quotidianos comuns, bem como que os contextos de pobreza funcionam acima de tudo em circuito fechado, pobres contra pobres, com meio século de provas dadas contra a fantasiosa tese regeneradora da ‘luta de classes’. É tempo de prestarmos muito mais atenção aos fundamentos da ordem moral das sociedades após décadas de demissão civilizacional e cobardia cívica de mentes voluntária e comodamente sequestradas por teorias materialistas relativistas que transformaram a pobreza ou as dificuldades económicas em escudos sacralizados que explicam, justificam ou legitimam todo o tipo de atitudes e comportamentos, muito em particular os mais nocivos, agressivos, ilegítimos, irresponsáveis, criminosos, que perturbam o quotidiano dos outros.

Continuemos, pois, entretidos com as maldades do capitalismo, dos banqueiros, dos imperialistas, da senhora Merkel, do Ocidente, dos ricos, do ‘Grande Capital’, ao mesmo tempo que acreditamos na semente milagrosa eternamente replantada, cuja nova vaga vai sendo semeada pela dupla Tsipras-Varoufakis. Icídua, os seus pobres e a sua violência endógena, frutos amadurecidos de utopias progressistas, mais não valem do que sombras projetadas nos muros das cavernas intelectuais a que doutamente nos deixamos acorrentar de cabeças imóveis. As Icíduas deste mundo jamais farão vacilar outras tantas futuras loucuras revolucionárias.

Investigador e professor