Tulius Detritus, o personagem do Asterix e a Zaragata, que se especializou em semear a discórdia, com provocações, insinuações, alimentando desconfianças mútuas, sempre em proveito próprio e conseguindo fazê-lo mesmo quando estava agrilhoado. Graham Allison transformou-o em teoria académica ao torcer a vara à Armadilha de Tucídides, profetizando em 2017 que os EUA e a China estariam destinados para a Guerra por causa dela, e que muito se falou dela quando Trump visitou a China em Maio deste ano.

Desta vez Chatham House, o grande farol da política externa britânica, voltou a organizar painéis sobre o tema com títulos como “China a Ascender, América em Declínio?”

Enquanto a Chatham House debatia a inevitabilidade do conflito sino-americano, Xi Jinping estava na Casa Branca a dizer precisamente o oposto:

“The Thucydides Trap can be overcome.”

A Armadilha de Tucídides pode ser superada. Uma declaração pública de um líder chinês na residência oficial do Presidente americano, perante o mundo. Tulius Detritus, agrilhoado no seu painel da Chatham House, não deve ter gostado.

Mas vejamos a cronologia paciente do chinês.

Em Setembro de 2015, em Seattle, Xi disse pela primeira vez: “There is no such thing as the so-called Thucydides Trap in the world. But should major countries time and again make the mistakes of strategic miscalculation, they might create such traps for themselves.” Em Outubro de 2023, com Chuck Schumer, repetiu que a Armadilha não era inevitável. Em Maio de 2026, em Pequim, com Trump ao lado, perguntou se podiam superá-la juntos. E agora, em Setembro de 2026, na Casa Branca: pode ser superada.

Onze anos de desmontagem da narrativa de Allison, típica da paciência do chinês, de pergunta aberta a afirmação definitiva. Xi conhece a Pérsia. Simplesmente não a nomeia.

Allison leu Tucídides como se a Pérsia não existisse. A Guerra do Peloponeso não foi causada pela rivalidade entre Atenas e Esparta, mas alimentada pelo Império Persa, que financiou alternadamente ambos os lados, fomentando a desconfiança mútua e garantindo que nenhuma potência grega ficasse forte o suficiente para os ameaçar. O que Tucídides realmente documenta não é uma lei cósmica da geopolítica mas a arte imperial de pôr os outros a lutar em seu proveito.

A narrativa do hipotético conflito sino-americano serve a mesma função. Manter Washington e Pequim em tensão permanente, convencidos de que o adversário é existencial, é o mecanismo perfeito para que terceiros continuem a arbitrar, a mediar e a lucrar com a desconfiança.

A Armadilha de Tucídides não é uma descrição da realidade mas um instrumento para a fabricar. E Chatham House, que organizou o seu painel enquanto Xi desarmava a teoria a duzentos metros do Capitólio, é o Tulius Detritus institucional do século XXI.

O que aconteceu em Washington esta semana foi o capítulo final desta história, talvez a mais elegante atualização do Tratado de Tordesilhas desde 1494.

A narrativa europeia classificou a cimeira de Maio em Pequim como um fracasso. Concessões unilaterais. Sinal de declínio americano. Agora classifica a visita de Xi à Casa Branca como Trump a “favorecer um ditador”. Os senadores republicanos e democratas uniram-se no mesmo coro. O Expresso, o Guardian, o Le Monde, afinadinhos no mesmo obituário. Os que ficaram com essa impressão estão apenas a olhar para o guião seguido pela narrativa do desejo.

Não entenderam o que estava a acontecer em Maio. Não entenderam o que aconteceu esta semana.

E há uma razão para isso: estão a ler o mapa errado, desenhado por outros, em Londres e em Washington, há cinquenta anos.

O Mapa de Henry Kissinger. Foi ele que abriu a China em 1971, enquanto era Conselheiro de Segurança Nacional de Nixon e que admitiu, num discurso na própria Chatham House em 1982, que mantinha o Foreign Office britânico mais informado do que o seu próprio Departamento de Estado. A arquitetura do conflito sino-americano foi desenhada por quem servia dois senhores em simultâneo.

Agora Marco Rubio tem o mesmo duplo portfolio de Kissinger: Secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional, o único na história americana a deter os dois cargos simultaneamente desde o próprio Kissinger.

Mas ao contrário do mestre, Rubio declarou na conferência de imprensa da ONU esta semana: “Os Estados Unidos agirão sempre no interesse nacional do nosso país, nunca no interesse da ordem internacional.” O homem que tem o portfolio de Kissinger está a desmontar o que Kissinger construiu.

Os resultados concretos de Maio em Pequim não foram apenas soja e Boeings, a narrativa dos perdulários que não perceberam nada. Foram frotas chinesas de petroleiros rumo ao Texas, ao Louisiana e ao Alasca. Chips da Nvidia. Teslas sem restrições da BYD em território chinês. Respeito pelas patentes e propriedade intelectual. E a desnuclearização na agenda direta entre Washington e Pequim pela primeira vez na história.

Em Nova Iorque esta semana, Trump foi mais longe. O Tratado da Gronelândia assinado na ONU abre a porta ao Golden Dome e mantém forças hostis fora do Atlântico Norte para sempre. O Shield of America, agora com a Colômbia e o Peru, consolida o Hemisfério Ocidental como esfera de influência americana de facto. E o Board of Peace apresentou pela primeira vez uma arquitetura real para Gaza, reconstruída pelos próprios habitantes de Gaza, com segurança garantida por tropas muçulmanas do Kosovo, Marrocos e Cazaquistão, sem mandatos de potências externas. O fim do modelo de conflito gerido de fora.

Trump definiu o Hemisfério Ocidental com a mesma clareza com que D. João II e os Reis Católicos traçaram a linha em Tordesilhas: América do Norte, América Central, América do Sul, Gronelândia, Canal do Panamá: Esfera de influência americana.

Em 1494, Portugal era uma das potências que traçava a linha. Estávamos na sala, éramos protagonistas, o mundo dividia-se a nosso favor. Em 2026, a Europa é o território que ficou do lado de fora da linha. Não punido, não invadido, simplesmente irrelevante para a conversa que está a acontecer.

Daí que as Lajes, os interesses Atlânticos de Portugal e o elogio de Marco Rubio – que fez questão de cumprimentar o nosso ministro Paulo Rangel enquanto se posicionava no seu lugar na assembleia geral das Nações Unidas para escutar o discurso de Donald Trump -, devem ser aproveitados como pão para a boca, velando pelos nossos interesses que divergem dos da União Europeia. Afinal de contas as ilhas do Corvo e das Flores, colocadas na plataforma continental americana, situa Portugal também no Hemisfério Ocidental.

O Novo Tratado de Tordesilhas não tem data nem pergaminho. Teve uma cimeira em Pequim em Maio, uma semana na ONU em Setembro, e uma visita de Estado à Casa Branca que ficará nos livros de história. O CORE 5, a constelação das grandes potências que está a delinear uma ordem alternativa às instituições do pós-guerra, não é especulação. A forma realista de fazer política que Trump está a protagonizar, o Trumpolitics, está a construir-se diante dos nossos olhos, tijolo a tijolo, cimeira a cimeira.

A OMC, o FMI, a NATO, a ONU foram instrumentos poderosos de uma ordem que está a ser substituída. Não por revolução mas por obsolescência. Quando as maiores potências do mundo constroem entendimentos diretos que dispensam mediações, as instituições não desaparecem de um dia para o outro, mas deixam de ser o centro de gravidade e passam a descartáveis.

Xi Jinping disse que o mundo atravessa transformações que não eram vistas num século. Tem razão. E disse também, desta vez sem margem para dúvida, que a Armadilha de Tucídides pode ser superada. A Chatham House ainda está a debater se a América está em declínio. Allison ainda espera que alguém leia o seu livro.

Os dois líderes decidiram não cair na armadilha que lhes foi preparada. Assinaram o seu Tordesilhas sem pergaminhos e sem Papa para os abençoar, apenas com a geometria fria dos interesses soberanos.

E a Europa continua fiel a uma narrativa de ilusão.

Coitados. Não perceberam nada.