Já não seria surpresa para muita gente que, sendo o candidato apoiado pelo CHEGA muitas vezes o reflexo idêntico do próprio partido em matéria de resultados eleitorais, a frase “André Ventura será candidato na segunda volta das eleições presidenciais” caísse como uma quase verdade absoluta nas esferas politicamente interessadas. Com uma campanha puramente igual a si próprio, excetuando alguns momentos, que confesso não ter testemunhado, de aparente sanidade política e cordialidade democrática a que o candidato em questão não nos habituou, André Ventura sai perto das vinte horas e trinta minutos do dia dezoito de janeiro da igreja de S. Nicolau como um Júlio César das direitas que, lembre-se, nuns meros sete anos de protagonismo partidário, consegue categoricamente afirmar “Veni, Vidi, Vici”. Desta forma, apesar de, por ser um fiel apreciador da democracia e decência política me custar dizê-lo, que se faça jus ao homem pois conseguiu o há uma década profundamente impensável: romper de vez o bipartidarismo herdado de Abril não uma, mas duas vezes.
E é aqui que está, na minha opinião, a verdadeira questão da noite eleitoral: como reagem, ou devem reagir, os proponentes desta habilitação de herdeiros que, a bem dizer, serão mais que dois partidos?
Comece-se pelo mais fácil, o apoiante do futuro concorrente ao trono de Belém, o Partido Socialista. Apesar das grotescas sapatadas que António José Seguro sofreu no duro caminho que trilhou até ao fatídico três de junho do passado ano de dois mil e vinte e cinco, o candidato socialista sem gaveta conseguiu, a bem dizer, convencer, ainda que de forma leve, o grosso modo do núcleo duro do PS a dizer que, se não fosse muito incomodativo, o apoiaria na corrida a Belém. Estando este apoio aceite, sem amarras, não será de estranhar o mais cético dos socialistas que, inequivocamente, o PS apoie Seguro nesta segunda volta, levando consigo os demais canhotos políticos que compõem a atual conjuntura parlamentar e política da sociedade.
Fale-se agora do visado do artigo, o partido do segundo concorrente a Belém. Sendo esta instituição portadora de uns meros sete anos de vida e ainda não se tendo conseguido desprender, talvez propositadamente, de forma alguma, do seu eterno “eu vou a todas”, também não será difícil de engolir um eventual apoio a André Ventura na segunda volta e, mais que isso, uma retumbante repulsa a todos aqueles que, sendo considerados pelo partido como próximos da sua área política, evitem bajular o seu eterno imperador ao ponto de lhe declarar numa tímida carta de amor o endossar de toda uma fatia do bolo de votos incessantemente analisado na noite eleitoral.
Sobra o atual partido do governo que, apesar de com base nas últimas declarações não parecer, é também um herdeiro do regime de abril. Uma vez que exerce cargos relevantes para todo o país político e não político, decerto me será perdoado que, antes de partir para uma conclusão mais direta, faça uma breve epopeia descritiva das interações deste partido com aqueles que se dizem os verdadeiros líderes da direita e futuros recandidatos a Belém. Durante o seu período de coexistência, são facilmente lembradas as cenas de pancadaria verbal a que protagonizaram André Ventura e Luís Montenegro. Desde frases como “É impossível governar com o Chega”, a “comporta-se como um catavento” ou até a “têm um pendor destrutivo, virado para falar mal de tudo, está sempre contra tudo e não tem vocação para exercer funções de Governo (…) não tem maturidade nem decência”. Justiça lhe seja feita, apesar de alguns tiros ao lado que o atual presidente do PSD herdou do seu antecessor no que toca a comunicação intra direitas, na minha opinião, Montenegro nunca lidou da forma errada com o partido CHEGA. Como, para hipotético mal de João Miguel Tavares, convivo bem com a teoria das linhas vermelhas, acredito que, assim como o primeiro-ministro fez durante o seu mandato, a verdadeira chave para combater o populismo e a retórica profundamente demagógica da extrema-direita portuguesa é reduzi-los à sua própria contradição e expor a sua constante estratégia de metralhadora de assuntos que, ainda que em conversas de café funcione, não deve espelhar um país que se diz democrático.
Desta forma, recebi com particular espanto a versão sofisticada deste “só sei que nada sei” do atual líder da governação, pois pensava que um político que, para o próprio, “convive mal com a verdade”, nunca estivesse no mesmo patamar que um político cujo único pecado que tem de expurgar é o crime de ser socialista, sendo esse crime o ultraje demoníaco que, aparentemente, uma franja do eleitorado pensa que é. Efetivamente, ao se abster de proferir uma preferência entre um candidato a quem já teve de dizer, em plena Assembleia da República, que a ditadura não combate a corrupção, mas sim é ela própria a corrupção, e um candidato a quem, apesar de diferir do seu espaço político preferencial, nunca foi conotada sequer uma réstia de autoritarismo, o primeiro-ministro está, a todo o custo, a tentar agradar a gregos e a troianos, sem se preocupar com o desagrado que poderá estar a causar àqueles para quem não vale tudo.
Apesar de, à partida, já estar farto de ser citado em discussões que em nada o vangloriam, seria talvez importante lembrar uma frase de Francisco Sá Carneiro e adaptá-la à situação atual… Se a política sem risco é uma chatice e sem ética é uma vergonha… O que é sem valores?