À primeira vista, percebo uma potencial reticência do leitor ao assimilar o título deste artigo, eu próprio também a tive a escrever… Mas ainda assim repito de forma veemente: sem um único voto estar contado aos treze dias do mês de Janeiro de dois mil e vinte e seis, afirmo que, seja o resultado da eleição do próximo domingo qual for, um dos candidatos já fez história nesta campanha, e o seu nome é João Cotrim de Figueiredo.
É, seguidamente, importante estabelecer de forma inequívoca os limites da afirmação suprarreferida, bem como o fim pretendido. De modo algum deverá este ensaio servir de apelo ao voto ou de declaração de interesses pró-liberais, uma vez que, quem conhece o autor, decerto não será levado a pensar, erroneamente, que pretende de forma alguma convencer quem quer que seja a votar num candidato com base em algo que, para o próprio, se revela um pouco irrisório na hora de eleger um representante nacional. Desta forma, declaro, desde já, que apesar de, pessoalmente, não ser movido por campanhas eleitoralistas ou jogadas de marketing regadas a slogans soundbitísticos, a partir de um certo ponto, torna-se impossível ignorar a cuidadosamente planeada estratégia da equipa de Cotrim e não aprofundar, ainda que nos confins de uma folha A4, algo que, por muito que custe à classe política entender, se irá tornar o “pão nosso de cada dia” das futuras eleições.
Para afunilar um pouco mais o cerne desta tese, torna-se necessário entender o contexto deste sufrágio. Numa década profundamente marcada por uma crescente degradação da forma como a grande maioria do povo português olha para a posição de comandante supremo das forças armadas devido a sucessivos escândalos e constantes situações de instabilidade política propiciadas pelo mesmo, torna-se, desde início, particularmente difícil definir um rumo para a campanha eleitoral, uma das grandes dificuldades já notoriamente experienciadas pela maioria dos candidatos a Belém. Verdadeiramente, analisando pela rama o que não deveria sê-lo feito, o que a campanha e pré-campanha de presidenciais de 26 têm vindo a apresentar até à sua última semana, mais patada, menos patada, pouco mais tem sido que o desfile habitual da consonância bacoca em que todas as candidaturas levam o não-abstencionista comum a suspirar: “Pronto, então vai o voto neste”.
Desde candidatos que, ainda que com um percurso político invejável, pecam pela pouca unanimidade que alcançam, ou deixam de alcançar, junto do seu eleitorado à partida mais fiel, a candidatos de fação ou de protesto que terão a sua candidatura condenada ao falhanço, ainda que apenas um mês mais tarde, torna-se, desta forma, difícil para um fã da política como quem escreve um artigo a dissecar uma campanha eleitoral pregar incessantemente a necessidade da democracia e da participação no sufrágio a peixes que, ainda que sintam que o sermão é importante, bem sabem que no resto do mar há mais conteúdo, ou, pelo menos, mais comida.
Nisto surge Cotrim. João Cotrim Figueiredo, a meu ver, surge como um oásis num deserto de abstencionistas que têm medo de, no fim da sua vida, não poder dizer com certeza que viveram melhor que os seus progenitores. Com uma campanha profundamente virada para o progresso e o não conformismo, por vezes em demasia, com o já tão espancado status quo, não se inibe de discutir fervorosamente com haters de Instagram, de combinar umas peladinhas com ex-jogadores da seleção nacional, ou até de discutir a estratégia geopolítica da NATO e as situações Gronelândia e Venezuela com Youtubers mais conhecidos por pranks mega crazy do que por divulgar e estudar a Constituição. E atenção, ironia à parte, não só não há mal nenhum nisso, como, eu diria, é extremamente importante fazê-lo. Nem só de pão vive o Homem. Acompanhe-se… Apesar de parecer uma inserção completamente sem nexo ou propósito, a analogia religiosa faz todo o sentido no contexto atual. Nem só de pão vive o Homem, assim como nem só de tertúlias ou de colóquios deve viver o político… Ou melhor, o povo. Para todo o debate em canal público pode, e deve, haver uma live no Instagram… Para todo o Alta Definição pode, e deve, haver um Bom Partido… Para toda a aparição no programa da manhã pode e deve haver uma stream com o Wuant… E para todo o velho do Restelo podem haver milhares de jovens à espera de alguém que fuja das quatro paredes de Belém e se coloque à sua frente, desprovido de manias ou vícios políticos e que lhes responda a perguntas tão simples como “Qual foi a última app de encontros que usaste?”.
Ainda assim, não há bela sem senão… E existe um risco associado a estas práticas: o medo do ridículo. Já é mais antiga que a república a velha anedota que garante que, uma vez que a única coisa que uma pessoa teme mais que a morte é a humilhação pública, seria mais fácil num funeral ser o cadáver dentro do caixão do que o orador da eulogia e, apesar da comparação mórbida, numa altura em que se vive a política do agora, e não do anteontem, um passo em falso ou uma piada mal interpretada pode, de facto, ser toda uma certidão de óbito de uma candidatura e, no fundo, de uma carreira política… Mas vale a pena. Os fins justificam os meios.
Em verdade vos digo: afastar previamente uma fatia do eleitorado com medo de ser ridicularizado por “querer parecer jovem” pode ser meio caminho andado para o radicalismo de toda uma faixa etária… Centenas, que se tornam milhares à espera de um Messias que acabam por aceitar sem tocar nas suas feridas nem analisar as suas vestes ou de falsos profetas que pretendem, a todo o custo, queimar toda a sociedade só para poderem reinar as cinzas.
E depois nem se dá a César o que é de César… Nem a Deus o que é de Deus.