No Portugal da década de 2020 arrisco-me a dizer que não será surpresa para ninguém que, à pergunta “qual é o interveniente político no ativo com maior presença mediática?”, haja uma concordante, senão unânime resposta.
Inicialmente, e para contextualizar o leitor quanto à minha tendência partidária ou potencial motivo por trás deste artigo de opinião, confesso que, enquanto consumidor ávido de política e semi-destro ideologicamente, não veria qualquer tipo de problema neste paradigma, não fosse a tremenda hipocrisia por parte dos próprios intervenientes mediáticos.
Não irei, primeiramente por respeito aos principais potenciadores do que concordam ser o inverno da democracia, mas também por considerar que o problema é transversal e universal salvo raras exceções, nomear qualquer estação televisiva ou órgão de comunicação português ao longo deste diagnóstico pessoal e independente, que em nada deverá espelhar a opinião de quem se não conforma com ela, seja a razão para isso qual for.
É então necessário aprofundar o estado dos media em Portugal e diagnosticar, em maior detalhe, as principais razões para esta profunda hipocrisia que me atrevo a apontar ainda no segundo parágrafo. Vamos a isso.
Antes de mais, é indubitavelmente inevitável que, tendo a comunicação social portuguesa encontrado um partido político que espelhe as mais polarizantes opiniões públicas e simplistas soluções para os complexos problemas que assolam este retângulo à beira-mar plantado, lhe dê o palco necessário para expor, explicar e justificar essas mesmas teses e opiniões num fórum sem contraditório, apesar de consideravelmente prejudicial ao bastião que procuram defender com unhas e dentes: a democracia.
Adicionalmente, é também indiscutível que, vendo-se forçado a competir com a rapidez e pouco apego à verdade dos novos media, o jornalismo português se veja forçado a sensacionalizar tópicos de outra forma aborrecidos e serenos como uma simples ordem de trabalhos da Assembleia da República ou os vetos e promulgações do Comandante Supremo das Forças Armadas.
Por último, e para acrescentar lenha à já ardente fogueira, a pessoalização de um partido representante de mais de um quinto dos votantes portugueses nas últimas eleições legislativas numa figura sebastiânica, com treino mediático e a capacidade de verbalizar de forma assertiva e frontal o que nem no mais íntimo os mesmos que representa ousariam proferir há uma década, ajuda à festa e promove incessantemente a cultura do vale-tudo por audiências que inevitavelmente culmina na rodagem de toda uma semana mediática em torno de uma figura que, lembro, nunca exerceu um cargo de governação em toda a sua carreira política.
Até aqui, tudo bem. Desde a década de 70 que o jornalismo português tem o direito, e o dever, de gerir como bem entender o seu trabalho mediático e de investigação. O problema surge quando os próprios promotores do que consideram ser o catalisador da morte do regime como o conhecemos vestem a capa de salvadores da pátria e se lamuriam em jeito de confusão em todas as noites eleitorais. De forma incrédula e mantendo-se sempre no ramo das possibilidades remotas que, por virtude do voto secreto, nunca serão confirmáveis, vão diagnosticando causas que em nada se poderão incluir a si próprios e aferindo responsabilidades a tudo o que mexe na política portuguesa menos a quem, por glória de mandar nas audiências e vã cobiça da entrevista dada a outro canal, inicia uma semana parlamentar com mais um escândalo em torno de uma figura que, como já se viu por várias vezes, beneficia da constante exposição mediática, ainda que tremendamente negativa. E o jornalismo vai caindo na esparrela da programação de Tupperware… Escândalo, leva a reação, que leva a comentário, que leva a reação.
Após uma expressão notoriamente treinada na viagem de carro para o estúdio assumindo que o país cuja constituição democrática se comprometeria a cumprir e fazer cumprir necessitava não de uma, mas de três figuras ditatoriais, segue-se toda uma semana de debates completamente desnecessários sobre uma frase que, ainda que seja dita por alguém que aparentemente nutre uma enorme simpatia por tais figuras, não deve, nem pode, ser levada a sério ao ponto de se tornar um escândalo nacional à volta do qual todo o ambiente político se vergue.
E isto não é um fenómeno de agora, muito menos meramente lusitano… Desde Le Pen pai na França a Salvini na Itália ou até mesmo a Bolsonaro no Brasil, a grande enciclopédia da política estrangeira está repleta de casos em que os media, na sua incessante demanda por proteger a democracia, acabaram por dar força ou mesmo contribuir para a eleição de figuras que, nitidamente, ou desprezavam, ou os desprezavam a eles. Trump é um caso claro. Em 2016, pouco antes da eleição que mudaria o paradigma presidencial nos Estados Unidos da América para sempre, Jeff Zucker, o então presidente da CNN, canal conhecido pelos republicanos na terra de Uncle Sam pela sua tendência esquerdista, afirmou ao Washington Post que um dos erros que a estação televisiva cometera que poderá, (e deverá), ter levado à então confirmação de Donald Trump como o candidato republicano que mais tarde assumiria funções como presidente, fora ter transmitido em direto e sem qualquer filtragem no conteúdo, uma quantidade tão grande de comícios do então outsider da política americana como transmitiu, comícios esses repletos de afirmações questionáveis ou muito próximas da inverdade.
Surge a adivinha… O que é que acontece quando um político carismático e profundamente treinado na arte da comunicação social que diz maioritariamente, para não dizer pura e exclusivamente, o que as pessoas querem ouvir, tem uma exposição mediática constante ao ponto de a maioria dos ciclos de notícias girarem sobre a sua figura?… Arrisco-me a dizer que em breve veremos.