Há momentos na vida democrática de um país em que as eleições deixam de ser apenas um exercício regular de escolha e passam a funcionar como um teste estrutural ao próprio regime. Portugal vive hoje um desses momentos.
A presença de André Ventura na segunda volta das eleições presidenciais não é apenas um dado eleitoral relevante, é um sinal político profundo sobre o estado da democracia liberal portuguesa, das suas instituições e da sua capacidade de responder às expectativas dos cidadãos.
Este fenómeno não pode ser lido como um episódio isolado, nem explicado exclusivamente pelo carisma de um líder ou pela volatilidade do eleitorado. A ascensão do Chega resulta de um processo prolongado de erosão da confiança democrática, alimentado por um centro político que falhou em reformar, em exigir e em entregar resultados. Compreender este contexto é essencial para perceber o que realmente está em jogo nestas eleições, e porque a resposta ao populismo autoritário não pode ser nem a negação do problema, nem a repetição das fórmulas que o criaram.
André Ventura não é apenas um dos dois candidatos que passaram à segunda volta das eleições para a Presidência da República. Ele é o caudilho, o condottieri que lidera a tentativa de ascensão do Chega ao poder. E estas eleições presidenciais são, para Ventura, apenas mais um patamar, mais um degrau nesse plano de conquista do poder em Portugal.
É no contexto desse plano que deve ser analisada a escolha que os portugueses têm de fazer no dia 8 de outubro, porque o que está em causa é bastante mais profundo e estrutural, em termos políticos, do que a “mera” eleição de um Presidente da República para um mandato de cinco anos.
A ascensão do Chega não é um acidente da história nem uma simples importação de tendências internacionais. É, antes de mais, um produto interno. Resulta de décadas de falhanço institucional, de bloqueio reformista e de empobrecimento do debate político protagonizados pelos dois partidos que alternaram no poder desde a consolidação da democracia, o Partido Socialista e o Partido Social Democrata.
Quando o centro falha sistematicamente, o sistema abre espaço aos extremos, não por radicalização ideológica súbita, mas por exaustão democrática.
O Chega cresce onde a democracia liberal deixou de cumprir as suas promessas básicas: igualdade perante a lei, mobilidade social, serviços públicos funcionais, responsabilidade política e confiança nas instituições.
Cresce num país onde o Estado é simultaneamente omnipresente e ineficaz; onde se paga muito e se recebe pouco; onde a retórica da justiça social convive com a reprodução estrutural de privilégios e a manutenção generalizada da pobreza; e onde a política parece incapaz de se reformar a si própria.
O PS tem uma responsabilidade central neste processo. Ao longo de décadas, apresentou-se como o garante do Estado social, mas degradou os seus fundamentos institucionais. Expandiu o Estado sem o reformar, aumentou a despesa sem exigir resultados e normalizou a captura partidária da administração pública. Ao fazê-lo, minou a confiança dos cidadãos na ideia de solidariedade organizada.
Quando o Estado falha sistematicamente, a política social deixa de ser vista como proteção coletiva e passa a ser percebida como favoritismo, desperdício ou dependência. Esse ressentimento é o terreno fértil do populismo.
O PSD, por seu lado, falhou por abdicação. Nunca assumiu uma agenda reformista coerente capaz de corrigir os vícios estruturais do modelo. Oscilou entre a gestão prudente do status quo e reformas tímidas, sempre receoso de confrontar interesses instalados ou de explicar custos de transição. Ao abdicar de redefinir o desenho do Estado e a qualidade das instituições, deixou ao PS o monopólio da linguagem social e ao Chega o monopólio da revolta contra o sistema.
Deste duplo falhanço nasce o discurso populista: uma retórica que identifica problemas reais, mas oferece soluções falsas; que promete ordem sem Estado de Direito e sem Separação de Poderes, justiça sem instituições e liberdade sem pluralismo.
O Chega não propõe reformar a democracia liberal portuguesa, propõe substituí-la por uma democracia iliberal, musculada no discurso, frágil nas garantias, hostil às minorias e desconfiada da separação de poderes. É um populismo autoritário que se alimenta da falência moral e institucional do centro político.
Importa dizê-lo com clareza: o Chega não é apenas um partido “antissistema”. É um partido contra os fundamentos da democracia liberal: contra o constitucionalismo, contra o pluralismo, contra a limitação do poder. E só cresce porque PS e PSD falharam em demonstrar que a democracia liberal é capaz de se reformar, de produzir resultados e de exigir responsabilidade.
Perante este cenário, insistir nas mesmas fórmulas políticas não é moderação, é imprudência. A defesa da democracia liberal portuguesa exige hoje mais do que apelos morais ou cordões sanitários. Exige uma alternativa reformista credível, exigente e institucionalmente séria. Essa alternativa não é a social-democracia retórica que já falhou, nem o liberalismo económico indiferente às desigualdades. É o liberalismo social.
O liberalismo social afirma algo simples e profundamente subversivo no contexto português: a melhor defesa da democracia liberal é fazê-la funcionar. Isso implica um Estado social forte, mas rigorosamente avaliado; serviços públicos universais, mas sujeitos a escrutínio; proteção dos mais vulneráveis sem tolerância à fraude, ao desperdício ou à captura. Implica igualdade de oportunidades real, não proclamada. Implica responsabilidade individual, mas também responsabilidade do poder político.
Ao contrário do populismo autoritário, o liberalismo social não promete atalhos. Promete instituições que funcionam. Ao contrário da velha política, não desculpa a ineficiência em nome de boas intenções.
E ao contrário do discurso extremista, não instrumentaliza o medo nem o ressentimento: enfrenta-os com reformas concretas, transparência e exigência.
O verdadeiro combate ao Chega não se faz imitando a sua retórica nem demonizando os seus eleitores. Faz-se retirando-lhe o oxigénio político: um Estado falhado, uma democracia que não entrega resultados e um centro político acomodado. Sempre que a democracia liberal falha em proteger, promover e exigir, alguém aparecerá para a “salvar” destruindo-a.
A escolha que Portugal enfrenta não é entre esquerda e direita, nem entre mais ou menos Estado. É entre reforma ou degradação. Entre uma democracia liberal exigente, reformada e funcional, e um populismo autoritário que promete ordem à custa da liberdade. O liberalismo social não é apenas uma opção ideológica entre outras. No contexto português atual, é uma necessidade democrática.
Perante esta escolha, votar em André Ventura não é um gesto de protesto nem um impulso reformista: é um passo no sentido da degradação democrática. A reforma de que Portugal precisa — exigente, justa e eficaz — só é possível em democracia liberal, e por isso recusar o populismo autoritário é hoje uma responsabilidade cívica.