Há uma hipocrisia sazonal que atinge o seu pico em cada 10 de Junho. É o dia em que o Portugal oficial, cinzento, burocrata e autoindulgente, veste o seu fato de domingo para celebrar Luís Vaz de Camões. Se o poeta ressuscitasse neste 10 de Junho de 2026 e caminhasse pelas ruas de Lisboa, a sua primeira reação não seria o orgulho patriótico de quem vê o seu nome gravado em monumentos, seria um profundo, familiar e devastador enfado.
O homem que escreveu “as armas e os barões assinalados” veria, com o mesmo olhar satírico com que desmistificou os Disparates na Índia, que o país trocou a audácia individual pela pasmaceira coletiva. Imagino Camões a tentar navegar pelo labirinto de uma qualquer repartição de finanças ou a assistir, na televisão, a um discurso solene sobre a “transição digital”, a “resiliência económica” a “justiça distributiva”, ou os habituais e recentes disparates socialistas entre outros afins.
Ele, que escreveu com amargura que A Verdade, o Amor e o Merecimento estavam em “mui baixo lugar” enquanto O Ouro e o Fingimento governavam o mundo, reconheceria imediatamente os novos figurões do regime. Os antigos cortesãos que o deixaram morrer na miséria, sem amparo, e a ver a pátria perder a independência para Castela devido à incompetência das elites, mudaram apenas de roupa: hoje usam gravatas partidárias e jargão tecnocrático, mas continuam a premiar o compadrio e a asfixiar o talento.
A maior e mais cruel ironia do dia, contudo, reside na celebração do “Dia das Comunidades”. O “Leviatã” estatal bate no peito com orgulho ao falar da diáspora, esquecendo-se de que a emigração moderna já não é uma escolha de expansão ou uma epopeia marítima: é uma fuga de sobrevivência. Camões compreenderia perfeitamente o jovem licenciado que hoje apanha um avião para Frankfurt ou Boston. O próprio foi um exilado, empurrado para longe por uma pátria madrasta que consome os seus filhos em impostos, asfixia-os em burocracia e alimenta-os com promessas vazias, para só lhes dar valor quando já estão mortos ou do outro lado do oceano.
A máquina do regime transformou o cidadão num número estatístico engaiolado, incapaz de voar ou de prosperar sem a vénia do Estado. Celebrar Camões num banquete oficial, pago pelo contribuinte, enquanto se mantém o país real na cepa torta, é de um cinismo sem nome. Camões nunca foi o poeta dos funcionários públicos do regime, foi o cronista da energia individual, do risco e do mérito, precisamente tudo aquilo que o Portugal contemporâneo castiga.
No final das cerimónias deste 10 de Junho, enquanto os políticos se atropelam por um lugar na fotografia e distribuem medalhas uns aos outros, Camões não ficaria para os digestivos. Levantar-se-ia pedia a conta em forma de um canto, ajustaria a pala no olho bom e retirar-se-ia em silêncio, sussurrando o seu veredicto intemporal, tão válido em 1580 como neste ano de 2026: esta continua a ser uma pátria “metida no gosto da cobiça e na rudeza de uma austera, apagada e vil tristeza”. E acrescentaria ainda:
Vedes o homem, outrora bicho humano, Preso no frio algoritmo do ecrã, Sangra por dentro o ferimento insano, Da ineficiência que cancela o amanhã.
P.S.: Salvaguarde-se, contudo, a indiscutível nobreza que resiste na data. O 10 de Junho vale por lembrar a nossa diáspora, por nos recordar de que Portugal é um ecossistema gigante que transborda em muito as fronteiras geográficas deste retângulo asfixiado. Somos, felizmente, muito mais do que aquilo que temos hoje plantado em território nacional. Celebrar a data é celebrar o sangue que teima em produzir e vencer pelo mundo fora, apesar do Estado que deixou para trás.