É claro que a Reforma Protestante não tem uma bandeira nacional porque a Reforma Protestante não é uma nação. Se compararmos a Reforma com a Roma que abandonou, mais facilmente o Catolicismo pede uma compreensão territorial da fé (o que também explica o fascínio que tem exercido nestas novas conversões de rapazes em busca de uma cultura Ocidental que se possa rematerializar). Mas, em conformidade com o que quero sugerir neste texto, podemos usar a expressão de a Reforma Protestante ter uma bandeira. E que bandeira é essa?
A bandeira nacional da Reforma Protestante é o retrato de Lutero e sua família. Não será uma imagem muito conhecida em Portugal. Vamos então por partes. Quase todos já teremos visto aquela gravura das mãos em oração—hoje aparece sobretudo em tatuagens. A referência original é de Albrecht Dürer, pintor alemão. No caso de Dürer, é discutível se ele aderiu completamente à Reforma, mesmo tendo em conta que muitas das suas ilustrações mostravam ênfases dela. Mas o assunto muda quando se fala de um colega seu, Lucas Cranach. Cranach não somente foi amigo próximo de Lutero, como se torna participante activo da Reforma. Se Lutero for os Velvet Underground, Cranach foi o seu Andy Warhol.
Sem Cranach não teria nascido a bandeira nacional da Reforma Protestante. Aí por volta da década de trinta do Século XVI, Lucas Cranach produz imagens de Lutero e da sua esposa, a ex-freira Catarina Von Bora. É a partir dessa dinâmica visual que depois se popularizará uma imagem que não apenas junta o improvável casal como toda a família. E é aí também que finalmente se concretizará esta verdadeira bandeira nacional da Reforma Protestante: Lutero à mesa toca uma guitarra arcaica, a sua esposa tem um dos filhos ao colo, os outros estão junto do pai aprendendo a colocar o credo em música, e um colega pastor assiste à cena (existem variações mas este é o núcleo).
O poder transformador desta imagem é grande. Se um dos ingredientes da Reforma Protestante foi a cautela visual (que, não por acaso, sempre foi mantida nas outras religiões abraâmicas do Judaísmo e Islamismo), outro foi reconhecer o sagrado no comum. A arte protestante, ao desconfiar da arte religiosa, torna arte o que até então não era. É um paradoxo interessante. Quando se acredita muito em fazer imagens do sagrado, o mais provável é a imagem ser escarrapachadamente sagrada. Quando se acredita menos em fazer imagens do sagrado, o banal pode ser tratado com o mesmo interesse do sagrado.
O Protestantismo, por desconfiar dos excessos do Domingo, valorizou a rotina dos restantes dias de semana. A Europa central (e especialmente a Holanda) encheu-se de pintores de frutas, de tarefas domésticas, de pequenos nadas. A Sagrada Família perdeu o monopólio do espanto dos artistas. Por isso mesmo, Lutero e a sua casa, tão sofrível como a nossa, tornou-se um incentivo para olhar a santidade de outro modo. A bandeira nacional da Reforma Protestante não seria uma heráldica complexa de significados religiosos. A bandeira nacional da Reforma Protestante seria a alegria confusa da família Lutero. A pessoa vê a imagem e consegue ouvir o barulho, a mistura de música e algazarra. Mais do que se ver, a imagem ouve-se e por isso ainda hoje os protestantes não sabem estar calados.
É complicado explicar isto em Portugal porque aqui a vida normal ainda está por ser entendida espiritualmente. O português até quando não acredita em Deus, acredita numa santidade medieval, fenómeno que divide a humanidade entre, de um lado, excepcionais ascetas místicos ou heróis políticos, e de outro, o povão. Como é que eu, peixe raro no meu próprio país, protestante no aquário católico, comemoro os 508 anos da Reforma do passado 31 de Outubro? Em família, de guitarra na mão, cantando histórias bíblicas com a minha mulher e miúdos, no meio da confusão normal dos nossos dias. É impressionante ou comovente, inspirador ou místico? Nada disso. A banalidade é o mais próximo que chegamos do milagre. Haja festa por isso.