A relação entre os dois blocos banhados pelo Atlântico está em divórcio e, como todos já percebemos, é em litígio. Existe espaço para recuar?
Um quarto sobre o valor do aço e do alumínio é o valor das tarifas alfandegárias que Trump aplica sobre estes produtos importados da União Europeia (UE). Para retaliar, o Velho Continente faz um “vice-versa”. Estamos em ambiente de guerrilha comercial e as tarifas que Von Der Leyen prevê impor aos Estados Unidos da América (EUA), depois de ouvidos os Estados-membros, incluem diversos produtos de origem agrícola. Os produtos transacionados entre estes dois blocos chegarão, assim, ao consumidor final com um valor que tem na base um agravamento substancial.
O perigo é, uma vez mais, o aumento de preços em bens essenciais como carne, peixe, leite e ovos, dado que na lista de matérias-primas a taxar deve estar o milho, uma das que, juntamente com a soja, constitui o grupo dos principais produtos importados pelas empresas portuguesas de alimentação animal aos EUA.
De acordo com as simulações da IACA – Associação Portuguesa dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais, num cenário extremo de tarifas ao milho e à soja, os custos adicionais em Portugal para os alimentos compostos para animais poderão situar-se nos 145,8 milhões de euros, montante que se repercutirá sobre toda a cadeia de valor até chegar às prateleiras dos supermercados. Por outro lado, o efeito dissuasor das tarifas relativamente às compras aos EUA têm um efeito motivador da compra noutras origens, comprometendo, desde logo e entre outros aspetos, a implementação da legislação sobre as cadeias livres de desflorestação (EUDR), uma vez que a origem norte-americana, à partida com menor risco de desflorestação, poderá deixar de ser economicamente viável.
Regressamos assim à questão central: dada a histórica relação transatlântica (que julgávamos duradoura) e as custas do processo, não será mais indicado insistir num período de negociação com vista à reconciliação? Recorda-se que a solução não é inédita: em 2018 o acordo Trump/Junker sobre produtos de soja permitiu um aumento substancial das exportações desta matéria-prima norte-americana para a UE, o que originou mais-valias económicas a ambos os “cônjuges em litígio” e à UE o início do caminho da produção alimentar com matérias-primas mais amigas do ambiente.
Não consideramos que a Europa se deva atemorizar perante investidas sem sentido. Contudo, quando é a “pensão de alimentos” que está em causa, a negociação é sempre uma via a privilegiar. Caso contrário, as consequências recaem, inevitavelmente, em cima dos dependentes, os que nada fizeram para o escalar do conflito, ou seja, todos nós! Ainda vamos a tempo de evitar retaliações, pelo menos, nos produtos alimentares? É que está em causa a segurança alimentar. Ninguém vai sair ileso.