Os primeiros momentos da independência e da revolução cimentaram cumplicidades que a vida não apaga. Quando estou em Maputo vão acontecendo almoços ou jantares de uma turma do ciclo preparatório da segunda metade dos anos setenta, tempos de entrada na adolescência. Acontecendo a visita de um ou outro dos de cá, vamo-nos encontrando também em Portugal.

Eu e mais dois desses amigos de sempre, um originário de uma família assimilada do tempo colonial e outro a quem, na época, chamávamos ‘Sobrinho do Tio’ por ser sobrinho do então número dois da Frelimo, Marcelino dos Santos, há dias jantámos no ‘Buraco da Velha’, nome sintomático de um dos restaurantes que ajuda a reinventar o sentido da ‘portugalidade’ nestas paragens. Como o ‘Brás’ ou o ‘Tio Manel’, o restaurante situa-se na Matola, cidade satélite que cresce nos arredores de Maputo, capital a abarrotar de carros e betão. Os males de Maputo podem ser a sorte da Matola, ainda que repetindo os vícios.

Como habitual, da conversa à mesa ressaltaram episódios do quotidiano moçambicano. Numa das suas deslocações recentes, um dos convivas sugeriu ao seu inferior hierárquico – um motorista tido como humilde – que passassem a refeição juntos. O enredo foi distinto de um outro há dias descrito por uma amiga que vive em Maputo. Quando chegou de Portugal há um par de anos, uma sua primeira empregada doméstica de início preparava a refeição dos patrões e só depois outra e mais pobre refeição para ela. A patroa neófita recomendou que não se comportasse daquela maneira. Não queria que a empregada fosse injustamente tratada em sua casa. Deveriam todos comer o mesmo. Indiferente aos crescentes embaraços dos patrões, a hierarquia da vida doméstica foi sendo subvertida. A agora mais calejada patroa maputense disse: ‘Tirava primeiro o melhor bife do frigorífico para ela e para nós, os patrões, nada. Depois para resolver isso foi um problema…’

Voltemos ao motorista. Primeiro não queria entrar no restaurante. Depois queria sentar-se numa mesa à parte. O chefe, porém, fez questão de partilhar a mesa com ele e disse-lhe que poderia escolher da ementa o que quisesse. Optou por frango assado. ‘Isso comes todos os dias! Não! Hoje vais comer camarões!’ – impôs o chefe. Acabou por não ser tanto a refeição que degustaram, mas episódios da vida do subordinado.

Contou o motorista que a sua mulher trabalhava no hospital da cidade capital de província onde estavam e, na altura, incentivou a que ela estudasse em simultâneo. Pouco tempo passado, os comportamentos dela foram deixando de ser os habituais. Chegava mais tarde a casa que o costume, tinha sempre trabalhos da escola para fazer fora de casa aos sábados, deixou de pedir dinheiro para material escolar ou para pagar a inscrição na escola, aparecia com um ou outro vestido novo. Ele, marido, sentia-se também criticado para além do habitual. Desconfiado, tentou descobrir as razões. Ficou a saber que ela mantinha uma relação extraconjugal (um ‘caso’) com o seu superior hierárquico de nível provincial.

‘Frieza’ e ‘racionalidade’ foram os epítetos atribuídos pelo chefe ao seu motorista. Este procurou saber quem eram e onde viviam os pais do amante da sua mulher. Foi visitá-los e fez-se amigo do casal. Depois informou a mulher que conhecera há pouco tempo os pais do seu superior hierárquico e sugeriu que fossem ambos visitá-los na povoação próxima onde viviam. Ela reagiu exaltada: ‘Não temos nada que ir lá!’. Também terá ido explicar ao amante as atitudes crescentemente estranhas do marido. Aquele terá comentado: ‘Não é nada! Deixa estar!’

O marido foi confrontando a mulher com as suas atitudes recentes, mas sem abordar abertamente o que o perturbava. Acabou por ser a mulher a queixar-se do cônjuge. À maneira moçambicana, as famílias dela e dele reuniram-se para deliberar sobre o assunto. Questionada se o marido lhe batia, insultava ou maltratava a queixosa afirmou que não. O conselho familiar não via motivos para a separação e impôs a reconciliação do casal.

Numa das visitas seguintes à casa dos pais do superior hierárquico do hospital provincial, o marido disse-lhes que o seu filho andava a ‘brincar-mal’ (como se diz por aqui) na cidade. Continuando a não ser direto, recomendou que o aconselhassem a mudar os comportamentos que estavam a prejudicar outras famílias.

Depois sugeriu à mulher que convidasse o seu superior hierárquico para ir a sua casa para conviverem, uma vez que se conheciam. Ela recusou indignada, alegando que não havia motivo para tal. Decidido, foi ele mesmo ter com o amante da mulher. Convidou-o. O indivíduo começou por recusar. O marido disse-lhe que se persistisse na recusa iria falar com o administrador da província. Tinha uma queixa a apresentar contra ele.

No dia combinado, o convidado fez-se acompanhar de um amigo. Logo à porta de casa o anfitrião, na presença da mulher, deu ao convidado a possibilidade de escolha. Ou resolviam o assunto de forma violenta entre homens ou o amante teria de ficar com a sua mulher. O último afirmou não ter nada a ver com o assunto e que era casado. Confrontado com a inflexibilidade do anfitrião, abandonou a casa na companhia da amante para evitar uma desgraça. Antes de saírem, o marido disse à mulher que recolhesse os seus bens e que se fosse embora para sempre.

No dia seguinte vi a notícia de um marido que, na Beira, a segunda cidade mais importante de Moçambique, espancou a mulher até à morte com uma barra de ferro por tê-la surpreendido em casa em cenas íntimas com um curandeiro. O assassino confesso afirmou na televisão que se entregou às autoridades policiais por vontade própria.

É destas estórias que se faz o quotidiano de um país africano que acabou de celebrar quarenta anos de independência. O valor manifesto dos relatos diz muito. Mas o que eles mantêm latente significa bem mais. Quem são os opressores e os oprimidos no quotidiano que é o que habitualmente importa? A procura de respostas talvez dependa de nos libertarmos da cacimba permanente enfiada por dentro das nossas cabeças nestas décadas de estafadas alienações utópicas.

Investigador