A nossa ignorância sobre a China é tão escandalosa quanto explicável. Escandalosa porque os portugueses chegaram à China em inícios do século XVI e ali permanecemos ainda hoje, por  vontade dos Chineses. Explicável, porque de todos os países da Europa que tiveram contactos com China, todos depois de nós e nem de longe num grau de intensidade e continuidade como o nosso, fomos o último – e apenas há menos de uma dezena de anos  – em que a universidade revelou algum (mal organizado) interesse pelo conhecimento da civilização e da história chinesas.

Quanto ao Ensino Superior e  e à investigação, refiro apenas que a França pode orgulhar-se de ter desenvolvido desde o início do século XIX, no Collège de France, o ensino da sinologia. E que um aluno do secundário inglês sabe muito mais sobre a  história da China do que um licenciado em História nas nossas Faculdades de Letras, que não sabe praticamente nada! Quando vivi em Macau nos anos 60, os manuais escolares ingleses foram-me muito úteis. E mesmo na Escola Portuguesa de Macau, excelente, aliás, só há meia dúzia de anos, por iniciativa de um pequeno grupo de notáveis professores de História, foram elaborados manuais sobre a História da China e de Macau. Manuais que a Fundação Jorge Álvares e a FCH da Universidade Nova disponibilizaram às nossas escolas numa aplicação digital.

Apenas mais um facto gritante. Em Portugal, só em 1999, repare-se, surgiu e funcionou, o primeiro mestrado de Estudos Chineses!

Um Mestrado decidido pela lucidez do último Governador de Macau, de cuja realização fui encarregado. Depois da tentativa, sem sucesso, junto das Faculdades das universidades de Lisboa mais vocacionadas para o efeito, foi por sugestão do meu Amigo Eduardo Marçal Grilo que encontrei na Universidade de Aveiro um grande Reitor que compreenderia a importância da  iniciativa, teria autonomia para a concretizar, sem se servir pessoalmente dela, e a capacidade de reunir os colaboradores perfeitos, o Professor Vilarinho  e o Pró-Reitor Jorge Alves.  Trabalhar com Júlio Pedrosa e esses outros amigos foi uma experiência inesquecível.  Um Mestrado de uma qualidade e exigência que o colocaram entres os melhores do Mundo. Os professores? Todos estrangeiros, uma chinesa, americanos, ingleses, franceses e até belgas (com excepção do português que regia a disciplina de História da Expansão Portuguesa). Porque portugueses não havia.

E como a sorte protege os audazes, um acaso providencial. Na viagem que o Professor Vilarinho fez aos EUA para encontrar professores, num dos centros de investigação que tínhamos seleccionado, na Universidade de Michigan, o Prof. Robert Dernberger, reputado como o grande especialista norte-americano em economia chinesa, tendo acabado de se jubilar e desejando desde há muito conhecer Portugal, se disponibilizou a vir com a mulher para Aveiro, durante dois anos, para dirigir o Mestrado.

O Mestrado funcionou durante três anos, lembram-se gratificadamente os que tiveram o benefício e o gosto de aprender nele.  Acabou, praticamente, quando Julio Pedrosa deixou de ser Reitor… São fugazes os Oásis que surgem no nosso meio universitário, duram o tempo dos que os criaram, quase sempre estrangeirados. Depois o deserto da Universidade seca tudo,  apagando-se, porventura deliberadamente, as experiências exemplares. Há três ou quatro anos, suponho, com o apoio e porventura por iniciativa do Instituto Confúcio, surgiu um novo Mestrado, mas sem a qualidade e a exigência do anterior. Significativa é a ignorância a que foi votado pela Universidade, o esquecimento dos que então o viabilizaram e ergueram.

Com a re-emergência da China surgiram finalmente e multiplicaram-se nos últimos anos os cursos de mandarim, que na Missão de Macau, desde o tempo do Governador Carlos Melancia, a persistente Alexandra Costa Gomes iniciara, garantindo-se  hoje a sua continuidade no Centro Científico e Cultural de Macau. Refira-se ainda a criação no ISCSP de uma disciplina de mandarim pelo saudoso Padre Joaquim Guerra, um dos dois últimos grandes Jesuítas portugueses do Oriente, com quem  tive a sorte de aprender.

Com Pedro Passos Coelho e Nuno Crato vi concretizado o que há muito tempo defendera, a oferta do ensino do mandarim nas escolas básicas e secundárias. Muitos anos antes, tentara, em vão, que fosse concretizada na Escola Portuguesa de Macau, no tempo daquele governador Carlos Melancia (como ele bem terá desejado), essa oferta aos alunos portugueses, no meio ideal para essa iniciação.

Com o último governador foi oferecida a possibilidade aos quadros portugueses da administração pública, em horas do período de trabalho, de aprenderem o cantonense e aos chineses, o português. Facilidade que só seria aproveitada praticamente pelos chineses.

Nem um membro do nosso corpo diplomático fala ainda hoje chinês. O inverso é esmagadoramente diferente desde há muitos anos.

E apesar de eu encontrar, desde alguns anos, em universidades cursos de política e história moderna da China, deparo frequentemente nos professores com o desconhecimento do mais básico da civilização e do viver da China. Há sete grandes línguas na China, diferentes entre si, algumas tanto como o português e o inglês, por exemplo. Mas há só uma escrita, que para ser usada pelos falantes daquele mosaico humano e de línguas não podia ser fonética.  Sistema de escrita que está na génese daquela civilização e é uma das forças cósmicas centrípetas a mantê-la unida.

Miséria da Universidade que continuamos a ter, causa das causas que se manifesta nas várias áreas e registos da vida portuguesa. Universidade que não é, como devia ser, ponta de lança do conhecimento, do progresso do País.