Pensar sobre a possibilidade da morte devia ser uma tarefa diária — uma espécie de ritual que antecede a toma da vitamina C e a carícia na barriga do gato. Mais do que gritar Carpe Diem na biografia da rede social, parece-me fundamental olhar para a caveira na cabeceira, porque é a partir dessa noção que continuamos. Lembro-me de uma frase de Maria Velho da Costa: “A infância é um país mágico donde somos todos expatriados pela percepção da morte” (Myra, Assírio & Alvim) Significa que é quando damos por ela que começamos verdadeiramente. Depois, não seremos nunca mais os mesmos, nem poderíamos.
Mas será que a consciência da morte nos faz aproveitar em dobro? Há uma passagem de Clarice Lispector que contraria a ideia: “Defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos, gastando pouco da sua vida para esta não acabar.” (A Hora da Estrela, Relógio D’Água). É comum surgir em nós uma sensação de que estamos a aproveitar em demasia. Nesse momento, beliscamo-nos e imaginamos a morte a sinalizar-nos, atribuindo-lhe até a capacidade de pensar: “este tipo está a viver muito, deixa-me ir buscá-lo”.
Impõe-se uma pergunta, talvez a maior de todas: como viver? A resposta pode estar no centro: não enveredar por um viver de mais ou de menos, mas sermos capazes de fazer escolhas fortes. Dizer que não com frequência, por exemplo.
— Vais ao casamento do meu primo?
— Não posso. Vou morrer.
— Já validaste as facturas?
— Não posso. Vou morrer.
— Pode responder a um inquérito de satisfação?
— Não posso. Vou morrer.
— Tem tempo para ouvir a palavra de Deus?
— Não posso. Vou morrer.
Todos os dias, há centenas de perguntas que faço à caveira: prefiro o casamento do primo ou sentar-me a ler Musil? Prefiro o vídeo de um orangotango a beber leite com chocolate ou os filmes do Bergman?
Há algum tempo, descobri uma espécie de caveira do universo digital, um site chamado worldometers.info, onde podemos encontrar estatísticas mundiais em tempo real. Uma das métricas é a de mortes diárias e funciona como uma espécie de cronómetro bizarro que aumenta rapidamente. Mais acima, vemos os nascimentos. As duas métricas parecem competir em alta velocidade, embora haja uma diferença clara: o número de pessoas que nascem é superior. Infelizmente, isso não nos diz nada sobre a qualidade da travessia.
À hora a que escrevo, morreram já quase 150 mil pessoas. Abro a página, religiosamente, sabendo que chegará o tempo de também eu estar ali a contribuir para aquela contagem infinita. Serei mais um, é evidente, e tu também. A caveira é, por isso, a primeira toma da manhã e a refeição mais importante do dia. Encosto-lhe o ouvido e ouço “lembra-te que és mortal”, o tal memento mori forjado em Roma. É um mimimi, um nhanhanha, que atravessou séculos e se instalou por dentro, como um chip. Se não fosse esta voz, talvez não me levantasse da cama, não beberia a vitamina efervescente, não deslizaria as minhas mãos sobre o pêlo do gato, não sairia do quarto, não tomaria banho, não comeria, não pegaria na lapiseira e certamente não escreveria este texto.