São conhecidas as oscilações de juízo, feitas de amor primeiro, e de ódio a seguir, de Fernando Pessoa sobre o «ditador das finanças» António Oliveira Salazar, a quem o poeta começou por chamar «o Prof. Salazar» e terminou a chamar «o Sr. Oliveira Salazar».  De meados dos anos vinte a 1935, ano da sua morte, Fernando Pessoa acompanhou de uma ponta a outra e com uma extrema atenção a aparição e o desempenho políticos do Dr. António Oliveira Salazar, primeiro como Ministro das Finanças, depois como Presidente do Conselho.

O parentesco da situação de Salazar naquela época com a situação de Centeno na nossa é por demais evidente. Daí que as perplexidades de Fernando Pessoa com o prestígio de Oliveira Salazar na opinião pública daquela época possam também ser as nossas perplexidades com o prestígio de Mário Centeno hoje.

De onde vinha o prestígio pessoal de Salazar segundo Fernando Pessoa? Estas são as suas palavras: «Salazar estabeleceu o seu prestígio de imediato ao tomar posse do cargo por um simples discurso, tão diferente dos habituais discursos políticos que o país aderiu a ele imediatamente. E o público é incompetente para apreciar uma coisa tão profundamente técnica como as suas reformas financeiras. Ouvi mais de um homem de negócios português lamentar-se da presente carga fiscal em Portugal; ouvi-o, minutos depois, elogiar entusiasticamente Salazar, ou seja, o homem que impôs essa carga fiscal. Isto é prestígio em toda a sua força e em todo o seu fulgurante absurdo».

Em 1932, quando finalmente a vontade do ministro das Finanças se torna na vontade de todo o governo concentrado na pessoa de um só homem, o autor de «Mensagem» sai-se com esta: «O mal, aqui, não é que o Sr. Oliveira Salazar seja ministro das Finanças, para o que concedo que esteja certo, mas ministro de tudo, o que é mais duvidoso».

E não é que poderíamos dizer exactamente o mesmo nos tempos que correm a respeito do Sr. Mário Centeno? O poeta assinalava tanto mais o prestígio granjeado por Salazar graças ao superavit obtido nesse ano quanto mais o comparava com o superavit conseguido por Afonso Costa em 1912: «De este prestígio resulta o contraste com Afonso Costa. Quando este, apresentou, em 1912, o seu superavit, foi recebido à gargalhada pelo público, e os próprios partidários tiveram que fazer esforços sobre si mesmos para ter fé na obra, como a tinham no homem.  Quando Salazar apresentou o superavit, todo o grande público imediatamente o aceitou».

O leitor que faça a experiência por si mesmo e que onde está o nome Salazar ponha agora o nome Centeno: «É o tipo do perfeito executor da ordem de quem tenha as primárias. É um tímido quando ousa, e um incerto quando afirma. Quando muito, na escala da governação poderia ser o mordomo do pais. Não é um estadista: é um arrumador. Para ele o país não se compõe de homens, mas de gavetas. Os problemas do trabalho e da miséria, como há ele de entendê-los, se os pretende resolver por fichas soltas e folhas móveis?”

Fernando Pessoa caracterizou este prestígio do Sr. Oliveira Salazar junto da opinião pública da época como «um prestígio intelectual, sem elemento emotivo». Hoje, deve igualmente ponderar-se se não será desta espécie de prestígio que goza o Sr. Mário Centeno, o homem que num golpe ousado transformou a demoníaca e impopular «austeridade» no evangelho das «contas certas». Tal como Salazar, segundo Pessoa, também Centeno, não possuindo desde o início tal prestígio, «deixou-se investir da aparência dele: é a sua Túnica de Nessus». E é com a sombra desta túnica que deveremos de ora em diante saber lidar, pois tal como em 1934 Pessoa dizia de Salazar: «Assistimos à cesarização de um contabilista», assim nós hoje podemos dizer de Centeno: «Assistimos à cesarização de um contabilista».

O leitor que faça a experiência por si mesmo e que onde está o nome Salazar ponha agora o nome Centeno: «É o tipo do perfeito executor da ordem de quem tenha as primárias. É um tímido quando ousa, e um incerto quando afirma. Quando muito, na escala da governação poderia ser o mordomo do pais. Não é um estadista: é um arrumador. Para ele o país não se compõe de homens, mas de gavetas. Os problemas do trabalho e da miséria, como há ele de entendê-los, se os pretende resolver por fichas soltas e folhas móveis? É sempre e em tudo um contabilista, mas só um contabilista. Quando vê que o país sofre, troca as rubricas e abre novas contas. Quando sente que o país se queixa, faz um estorno. A conta fica certa. O Prof. Salazar é um contabilista. A profissão é eminentemente necessária e digna. Não é, porém, profissão que tenha implícitas directivas. Um país tem que governar-se com contabilidade, não pode governar-se por contabilidade. Assistimos à cesarização de um contabilista».

Caro leitor, vamos agora direitos ao detonador da nossa analogia entre o prestígio do Sr. Oliveira Salazar outrora e o prestígio do Sr. Mário Centeno hoje. Entretanto, dê-se a César o que é de César, claro, e, evidentemente, dê-se a Deus o que é de Deus. Que raio se terá passado na cabeça do Sr. ministro das Finanças, Dr. Mário Centeno, para este, na discussão do Orçamento de Estado feita na passada quinta-feira no Parlamento, poder dizer com tamanha ligeireza, presunção e soberba aos deputados: «Não tentem ser pessoanos»? Que raio de coisa será um «pessoano» na cabeça do Sr. Ministro das Finanças e Presidente do Eurogrupo? E um «heterónimo», o que será um «heterónimo» de Fernando Pessoa na cabeça do Sr. ministro das Finanças? Alguém com uma personalidade dupla? Um tipo esquisito? Um indivíduo incoerente da raiz das unhas à ponta dos cabelos? Será isso? E que «heterónimo» terá entretanto agido na mente ternamente sádica do Dr. Mário Centeno quando o nosso grande contabilista, para desclassificar moralmente os portugueses que não se reviram no seu orçamento, os aconselhou a «não serem pessoanos»? Além de todo um contabilista, o Sr. Ministro das Finanças será também uma autoridade literária em Fernando Pessoa ao ponto de não temer usar aquelas palavras de modo irresponsavelmente iletrado e sumamente inadequado num momento de superior responsabilidade como é o da aprovação de um orçamento de estado?

Mais valera que o sapateiro se não pusesse a tocar rabecão. Mas então, por que carga de água deu o Sr. ministro das Finanças em soltar, em registo pateticamente alegre, estas palavras de desconsideração no Parlamento português: «Não tentem ser pessoanos. Não votem as medidas de despesa com o heterónimo gastador e as de receita com heterónimo aforrador. Da junção destes dois heterónimos só surgiria o endividado»?

Será o senhor ministro das Finanças reconhecido por algum «pessoano» como conhecedor da obra de Fernando Pessoa e dos «heterónimos» do escritor para se permitir usar tais termos com tanta ligeireza e irresponsabilidade? Com franqueza, não dá vistos nenhuns disso. O Sr. ministro das Finanças conhecerá ao menos um poema de cor de cada um daqueles «heterónimos» com nomes estranhos e indecoráveis que são mais do que as mães? Não me digam que Sr. ministro das Finanças conhece inclusivamente os 621 documentos daquela secção da arca do poeta chamada «Comércio & Indústria», ao ponto de já os ter lido e estudado, um a um? E que além, claro, de «O Banqueiro Anarquista», e de «O Livro do Desassossego», escrito por esse «ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa» chamado Bernardo Soares, conhece também os textos que Fernando Pessoa escreveu para a «Revista de Comércio e Publicidade», que incluem ensaios previsivelmente do gosto pessoal de um ministro das Finanças, como «A evolução do comércio», «Base para dois projectos de concentração industrial», «Os preceitos práticos em geral e os de Henry Ford em particular»?  E, já agora, como se dará o Sr. ministro das Finanças com aquele Fernando Pessoa a que os «pessoanos» que por aí andam chamam «ortónimo»? Enfim, estamos todos mortos por desvendar tais mistérios.

A esta hora já o leitor adivinhou a insinceridade e a inutilidade de todas estas perguntas.  Numa palavra, não é crível que o Sr. ministro das Finanças seja um real conhecedor de Fernando Pessoa, e menos razoável ainda que ele afecte tratos íntimos com a obra do escritor quando discute politicamente um orçamento. Mais valera que o sapateiro se não pusesse a tocar rabecão. Mas então, por que carga de água deu o Sr. ministro das Finanças em soltar, em registo pateticamente alegre, estas palavras de desconsideração no Parlamento português: «Não tentem ser pessoanos. Não votem as medidas de despesa com o heterónimo gastador e as de receita com heterónimo aforrador. Da junção destes dois heterónimos só surgiria o endividado»?

Dirigindo-se, com palavras infelizes, aos deputados da Nação como a seres intelectualmente inferiores, o acto do Sr. ministro das Finanças no Parlamento autoriza-nos agora a fazer uso das palavras empregues por Fernando Pessoa, ele mesmo, quando, em 1934, caracterizou as maneiras políticas do «Prof. Salazar» do seguinte modo: «Aproximou-se do povo e trouxe-lhe uma ternura de guarda-livros em férias, que sente que preferiria afinal estar no escritório». As semelhanças são indesmentíveis. Foi igualmente com esta condescendência, ao alcance apenas de um verdadeiro ditador das Finanças, que o Dr. Centeno se dirigiu a todos os portugueses que ousaram discordar do seu iluminado orçamento.

Mas Fernando Pessoa, que foi um contemporâneo de Salazar extremamente atento às palavras e aos actos do ministro das Finanças, primeiro, e do Presidente do Conselho, depois, descreveu com rigor a atmosfera de difusa suspeita que aos poucos se começara a instalar na opinião pública portuguesa sobre o Sr. Oliveira Salazar. Aquele homem que se encontrava à frente das pasta das Finanças, aparentemente avesso à chicana política da pátria, era, afinal, de uma habilidade insuperável e de uma astúcia tremenda no jogo dos ardis políticos: «No tempo em que Salazar fora Ministro das Finanças, e nada mais do que isso, houve algumas crises ministeriais e algumas mudanças ou recomposições de ministérios. Em todas essas mudanças Salazar intervinha decisivamente: era ele quem decidia – começava a perceber-se – do destino de um certo ministério, do destino de um certo ministro. No princípio acreditou-se, e talvez fosse verdade, que ele apenas defendia o seu lugar, a fim de manter, e era legítimo, a continuidade da sua obra, a qual, pela sua própria natureza, necessitava de continuidade e da sua permanência no ministério, para que essa continuidade fosse inteligentemente mantida. Notava-se, no entanto, que ainda que fosse por essas razões, Salazar punha demasiada astúcia, armadilhas bastante inesperadas, ardis sorrateiros e imprevistos nos arranjos pelos quais se desembaraçava de um certo ministro, favorecia a entrada de um outro. Armadilhas políticas? Perfeitamente. Mas tinha-se formado deste homem uma ideia, e era a que lhe era favorável, mediante a qual as armadilhas de baixa política e a diplomacia de antecâmara, não desempenhavam papel algum. Quando se respeita um homem, sobretudo pela simplicidade do seu carácter, não é fácil. Uma certa desconfiança começou a nascer; e os que apenas tinham tido por Salazar uma simpatia muito fria, perguntavam-se já se o homem que se mostrava tão hábil nos ardis da política, de que era suposto pouco saber, não os teria já secretamente usado nos orçamentos e nas contas onde se sentia como em sua própria casa».

Quem hoje se der ao trabalho de ler o discurso proferido por Oliveira Salazar no Quartel General de Lisboa em 9 de Junho de 1928, intitulado «Os prolemas nacionais e a ordem da sua solução», encontrará exactamente o mesmo discurso e o mesmo programa de governo que hoje Mário Centeno dirige aos portugueses: «Advoguei sempre uma política de administração, tão clara e tão simples como a pode fazer qualquer boa dona de casa – política comezinha e modesta que consiste em se gastar bem o que se possui e não se despender mais do que os próprios recursos».

O mistério do prestígio do Professor Salazar apareceu finalmente a Fernando Pessoa em toda a sua profunda incerteza e ambiguidade.  A «inteligência clara» e a «vontade firme» do «grande financeiro» Oliveira Salazar surgiam-lhe agora a uma nova luz: «A clareza da inteligência é necessária a um grande estadista? É-o também a um burlão. A firmeza de vontade é a condição de uma grande obra política? É-o também um crime longamente premeditado. A aptidão para o trabalho e o esforço é essencial a um homem de acção? Um traidor à pátria, se assídua e persistentemente a trai, é um bom homem de acção».

Poderão estas palavras querer dizer ou indicar algo de essencial a respeito do actual Ministro das Finanças, Dr. Mário Centeno? Não sabendo nós responder nem com um sim, nem com um não, podemos, ainda assim, arriscar alguma coisa e aparentar por uma última vez o Sr. Mário Centeno ao Sr. Oliveira Salazar.

Com efeito, quem hoje se der ao trabalho de ler o discurso proferido por Oliveira Salazar no Quartel General de Lisboa em 9 de Junho de 1928, intitulado «Os prolemas nacionais e a ordem da sua solução», encontrará exactamente o mesmo discurso e o mesmo programa de governo que hoje Mário Centeno dirige aos portugueses: «Advoguei sempre uma política de administração, tão clara e tão simples como a pode fazer qualquer boa dona de casa – política comezinha e modesta que consiste em se gastar bem o que se possui e não se despender mais do que os próprios recursos».

Com o decorrer do tempo, Salazar defendeu-se de todas as acusações que lhe fizeram dizendo que fazia uma «política da verdade» e que se limitava a comunicar ao povo a real situação do país, razão pela qual ele estava certo de que essa era a melhor maneira de habituar o povo à ideia de um sacrifício permanente, que seria tanto mais pesado quanto mais os portugueses tardassem em compreender a sua urgência e necessidade. Chamava-lhe «política de verdade, política de sacrifício, política nacional», que ele um dia formulou do seguinte modo: «Teremos de sofrer em vencimentos diminuídos, em aumentos de impostos, em carestia de vida. Sacrifícios e grandes temos nós já feito até hoje, e infelizmente perdidos para a nossa salvação: façamo-los agora com finalidade definida, integrados em plano de conjunto, e serão sacrifícios salutares. É a ascensão dolorosa de um calvário. Repito: é a ascensão dolorosa de um calvário. No cimo podem morrer os homens, mas redimem-se as pátrias!»

Mais ou menos o mesmo é o discurso pedagógico de Centeno hoje, no seu esforço de reeducação dos portugueses para um destino espinhoso e uma visão realista e modesta do futuro próximo. Também ele hoje, tal qual Salazar outrora, pode verberar com acrimónia o «vírus português da insatisfação» e «o nosso prazer de gastar, as nossas aspirações desmedidas, o secreto desejo dos serviços de furtar as despesas a uma fiscalização rigorosa».

Concluímos a nossa deambulação pela «cesarização de um contabilista» citando, uma derradeira vez, as palavras de Fernando Pessoa a respeito de Oliveira Salazar, e trocando, uma última vez, o nome Salazar pelo nome Centeno: «Mais valia publicar um decreto-lei que rezasse assim: Art. 1. Mário Centeno é Deus. Art. 2. Fica revogado tudo em contrário e nomeadamente a Bíblia».1