A Quitéria, jovem de 18 anos que, por infelicidade, nasceu numa família católica e que, para maior desgraça, frequentou um colégio cristão, foi-se confessar ao Padre Zé.
Graças a Deus, teve sorte no confessor, porque o Padre António, o velho pároco, é um daqueles sacerdotes tradicionais que ainda reza, acredita no inferno, faz procissões e celebra novenas, enquanto o seu coadjutor, o jovem Padre Zé, está muito mais ‘focado’, como ele diz, na questão climática. Não foi por acaso que, no seu gabinete paroquial, substituiu a desbotada imagem de Santa Teresinha do Menino Jesus por um grande poster da jovem Greta Thunberg, a lacrimejante activista sueca que, na abertura da Cimeira da Acção Climática da ONU, recriminou os políticos que lhe roubaram os sonhos e a infância.
– Senhor Padre Zé, pode-me confessar?
– Com certeza, Quitéria. Quando foi a última vez que o fizeste?
– Acho que foi antes do Natal.
– Queres dizer antes do solstício do inverno, não é? Como sabes, Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, são designações cristãs autorreferenciais, que dividem os homens e ofendem os nossos irmãos muçulmanos, judeus, hindus, ateus e agnósticos. Por isso, o novo calendário litúrgico, em vez de utilizar denominações supremacistas e confessionais, usa as estações do ano, que são mais inclusivas, inter-religiosas e universais. E que pecados cometeste, desde então?
– Faltei alguns domingos à Missa …
– Mas foi por não quereres ir, ou por alguma outra razão?
– De facto, preferi ir passear com o meu namorado …
– Então fizeste bem, Quitéria, porque em comunhão com a natureza estamos com Deus e, se tivesses ido, sem querer, à Missa, serias uma hipócrita.
– Também não tenho ido visitar a minha avó ao lar da terceira idade, mas é porque não tenho tempo: todos os dias, antes e depois das aulas, vou passear o Zósimo.
– O Zósimo é o teu namorado?!
– Não, é o meu cachorro! Como vivemos num andar, todos os dias saio de manhã e à tarde com ele e, por isso, não posso ir ao lar, visitar a minha avó.
– Ah, muito bem! O irmão Zósimo – como o chamaria, pela certa, São Francisco de Assis! – bem precisa dessa tua companhia, enquanto a tua avó tem gente de sobra no lar. Afinal, o Zósimo é o teu amigo mais fiel. A propósito, como vai o namoro?
– Vai bem, mas no outro dia fomos longe de mais …
– Mas foi por amor?!
– Acho que sim, Senhor Padre, porque fizemos amor …
– Então, Quitéria, não há mal nenhum nisso! Não é verdade que Deus é amor?! E quando o Zósimo sai à rua e tem relações com uma cadela, achas que pecam?! Claro que não, porque é absolutamente natural! Não te esqueças de que o que é natural, é bom!
– Pois, Senhor Padre, mas ainda não estamos casados …
– Sim, mas o importante não é o papel, nem o compromisso, nem o registo, mas o amor. Os fariseus é que ligam muito aos formalismos, tu deves agir sempre por amor. Como diz a Bíblia, vai aonde te leva o coração!
– Às vezes, em casa, não obedeço aos meus pais, nem rego as plantas …
– Deves ter em conta que também as plantas têm alma, porque são seres vivos e, quando estás a cuidar delas, estás a construir um mundo melhor, mais ecológico e sustentável. Não te esqueças do principal ensinamento da catequese: não há planeta B!
– Tenho uma dúvida, Senhor Padre: comer carne é pecado?
– Ainda não, Quitéria, mas de certeza que, em breve, o será, como aliás já acontece, para os judeus e muçulmanos, com a carne de porco. Se a religião não servisse para nos obrigar a fazer uma alimentação saudável, para que serviria então?!
– Mas Jesus não aboliu essas proibições, declarando puros todos os alimentos?!
– Sim, mas, como ensina o catecismo, os três principais inimigos da alma são o mundo, o demónio e a carne. Além disso, a carne que comes é de algum animal, não é?! O homem, como sabes, é o principal predador: matando cruelmente os animais, provoca a ruptura dos ecossistemas. Só devíamos comer produtos vegetais, porque as plantas não são seres sensíveis.
– E devo entrar para as Conferências Vicentinas, que ajudam os mais necessitados, ou oferecer-me como voluntária na campanha de reflorestação ambiental?
– Olha, Jesus disse que pobres sempre os haverá e, por isso – digo eu – não adianta muito ajudá-los. Mas, sem árvores, lá se vai o pulmão do nosso planeta!
– Pois é! Aliás, a minha catequista ensinou-nos que, antes da Paixão, Jesus foi ao horto das oliveiras, para se despedir das árvores, pelas quais ia morrer!
– Por elas e por toda a natureza. Mais alguma coisa, Quitéria?
– Sim, Padre Zé, mas tenho muita vergonha de a dizer…
– Não te preocupes porque Deus perdoa todos os pecados, por graves que sejam. Não deves ter vergonha, mas confiar na misericórdia divina!
– Pois, Senhor Padre, eu sei, mas foi um pecado muito grave.
– Blasfemaste?! Fizeste algum sacrilégio?! Mataste alguém?!
– Não, Senhor Padre, foi muito pior do que tudo isso: fui a uma tourada!
– Oh desgraçada! Tens o diabo no corpo, rapariga! Como pudeste fazer uma coisa dessas?! Também gostavas que te espetassem bandarilhas no lombo?!
– Não foi por mal, Senhor Padre, fui com o meu namorado e os amigos dele …
– Pois, mas não deves voltar a esse espectáculo degradante, nem tu nem ele, se é que querem casar pela Igreja e baptizar os filhos! Que ele se drogue e embebede, bata nos pais e não faça nada de jeito ainda se admite, porque todos temos fraquezas e nem todos têm jeito para trabalhar, mas ir a uma tourada é inadmissível, ouviste? Prometes que nunca mais lá pões os pés, ou tenho de te negar a absolvição?
– Prometo, Senhor Padre.
– Bem. E que mais?
– Nem sempre separo o lixo …
– Cuidado, Quitéria, porque estás a brincar com o fogo! A excomunhão, que dantes era para quem abortasse, agora aplica-se a quem não recicla!! Na catequese não aprendeste que, quando Nosso Senhor fez o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, recolheu depois as sobras, para nos ensinar a reciclar?
– Não voltarei a fazê-lo, Senhor Padre: a partir de agora, só no ecoponto! Foi o propósito que fiz na preparação para o Crisma dos jovens da paróquia. Esse e também o de me preocupar mais com o meu corpo, porque o padre que pregou o retiro explicou que ninguém pode gostar dos outros, se não gostar primeiro de si próprio.
– Muito bem, Quitéria. Então, como penitência, vais acender uma velinha a Gaia, a mãe terra, abraçar três árvores e dar uma refeição vegan ao Zósimo.
– E não preciso de rezar nada?!
– Claro que não: que faz a oração pelo ambiente, sua tonta?! Achas que vais conseguir evitar as alterações climáticas com Missas, Pai-nossos e Avé-Marias?!
– Tem razão, Senhor Padre, o mundo não precisa de mais oração, mas de mais ecologia.
E assim se converteu a beata Quitéria numa santa ambientalista.
NOTA. Esta crónica não é contra a ecologia, que a Igreja promove por mandato divino, e a que o Papa Francisco dedicou a encíclica Laudato sí, mas contra a pretensão de a converter num dogmático panteísmo universal.