Há uns dias tentei explicar sucintamente na SIC Notícias por que é que o conservadorismo político está em crise. Não se tratava uma selecção do conservadorismo como uma espécie de maçã podre dos recursos espirituais tradicionais do Ocidente. É minha opinião desde há algum tempo que a fase de desorientação generalizada que vivemos nas nossas sociedades se deve não secundariamente ao colapso dos grandes recursos intelectuais que construíram as democracias ocidentais no século XX. Depois do esvaziamento do cristianismo como religião organizadora da sociedade, fenómeno que começou, primeiro lentamente no final do século XIX, e depois aceleradamente no pós-Segunda Guerra Mundial, uma a uma as grandes matrizes ideológicas foram também elas caindo. Começando com o socialismo, que, mesmo na sua versão democrática, viu a sua enorme dependência intelectual do marxismo ser-lhe fatal com a falência intelectual deste ainda nos anos 70, seguiram-se-lhe o liberalismo e finalmente o conservadorismo.
A crise do conservadorismo é mais facilmente reconhecível quando percebemos a profunda reconfiguração da direita política, incluindo de todo o espaço que explícita ou implicitamente se revê numa interpretação conservadora da sociedade – ou que pelo menos o fez até há não muito tempo. A formulação política que tantos sucessos eleitorais obteve para o conservadorismo, aquela que sintetizava de um modo particular o conservadorismo nos valores sociais e pessoais e políticas económicas genericamente liberais, ou mais rigorosamente, pró-mercado e pró-globalização, protagonizada quase como um mito por Reagan nos EUA e Thatcher no Reino Unido, parece ser agora um arcaísmo distante. Desde a chamada “Revolução de Reagan” que as relações entre o conservadorismo e o liberalismo não se hostilizavam tanto no plano da acção política.
Mas não se trata apenas de a direita política em cada vez mais países avançar contra os valores liberais. Mais sintomaticamente a direita encontra a sua força actual em princípios que colidem frontalmente com os do conservadorismo político tal como tem sido interpretado desde tempos imemoriais. O culto da personalidade do chefe, por exemplo, é um caso flagrante. O apelo ao ressentimento social seria outro. E até uma convocação da desordem espelhada numa crítica radical das instituições aparece entre os gritos de mobilização da direita que professa resultados políticos próximos dos de uma sociedade governada pelo conservadorismo.
É preciso reconhecer que o conservadorismo entrou há muito num estado de vulnerabilidade intelectual que o deixou espiritualmente comatoso. Talvez só por si a saída do cristianismo das identidades políticas o deixasse nessa condição. Fosse como fosse, no plano intelectual o conservadorismo foi progressivamente despolitizando-se para se tornar numa estética e numa pose sem conteúdo governativo digno desse nome. As mudanças históricas e as novas encruzilhadas das sociedades ocidentais parecem ter condenado o conservadorismo tanto na sua síntese liberal, como no que sobreviveu da época anterior a essa síntese dos anos 70, à sepultura, com a mesma utilidade política de um cadáver embalsamado. Às tentativas mais ou menos desesperadas, mais ou menos bem-intencionadas, de imprimir algum sentido às transformações que estamos a viver, e que a direita pós-conservadora agora vai propondo, contrapõe-se o rigor mortis dos conservadorismos passados – liberais ou tradicionalistas.
Neste momento de crise despontam toda a espécie de bizarrias, como é próprio dos períodos em que o chão familiar some-se debaixo dos nossos pés. Não devemos subestimar os seus perigos, mesmo quando lhes concedemos o pathos da inevitabilidade. A estabilização da política nas democracias ocidentais e a recuperação da sua razoabilidade passa também pela reabilitação intelectual do conservadorismo. Mas isso não se faz com um estalar de dedos. É de um esforço colossal de imaginação política que o conservadorismo precisa, e não da simples repetição de divisas exauridas.