É normal que os líderes políticos não gostem de dar más notícias às populações e que evitem adoptar medidas que, de alguma forma, lhes causem algum tipo de sofrimento ou desconforto ou, no mínimo, sejam impopulares.

É normal, da mesma forma que os pais não gostam de contrariar ou castigar os filhos, os professores não gostam de dar negativas aos alunos e os gestores não gostam de tomar medidas que vão ter impacto negativo na vida dos trabalhadores.

Mas é da vida que todas essas contrariedades têm que ser encaradas, com maior ou menor frequência.

A Europa enfrenta, neste momento, o enorme desconforto de ter que acorrer a uma área central da função dos Estados que, durante décadas, deixou em grande parte entregue aos Estados Unidos: a Defesa.

E a Defesa é cara, muito cara. É cara pelos investimentos que exige – investigação, tecnologia, fabrico ou aquisição de equipamento e armamento – e pela despesa corrente que obriga a mobilizar – manter exércitos aptos e equipamentos operacionais e em regime de prontidão.

Esta é uma conversa difícil de ter, olhos nos olhos, com populações que vivem, apesar de tudo, numa das regiões mais prósperas e mais seguras do globo por uma entidade que nasceu nos escombros da Segunda Guerra precisamente para tentar garantir uma paz duradoura entre os seus membros.

Como “vender” aos cidadãos a necessidade de encaminhar milhares de milhões de euros de euros para uma área que os especialistas dizem ser vital para evitar que, daqui a uns tempos, o russo passe a ser a nossa língua oficial?

A Comissão Europeia já avançou com algumas ideias sobre o assunto. Havendo amplo consenso sobre a necessidade de fazer essas despesas, discute-se de onde virá o dinheiro para as pagar. E nesta matéria há duas ideias: primeiro, a União Europeia contrai dívida no montante global de 150 mil milhões de euros que depois empresta aos Estados-membros para que estes façam investimentos em Defesa; depois, a União Europeia incentiva e coordena o aumento dos gastos em Defesa dos Estados membros num montante equivalente a 1,5% do PIB, o que deverá somar 650 mil milhões de euros no espaço de quatro anos.

O primeiro ponto que nunca devemos esquecer é que o dinheiro dos Estados e da União Europeia só tem uma origem: impostos pagos por cidadãos, agora ou no futuro.

A primeira linha de financiamento levará a um aumento das responsabilidades dos Estados que terão que ser pagas mais tarde – são os tais impostos pagos no futuro.

A segunda linha obriga a um aumento da despesa anual dos Estados – são os impostos pagos agora ou no futuro, se isso levar a um défice que é financiado por dívida.

Por outro lado, todos conhecemos os constrangimentos orçamentais que também fazem parte da vida e as regras europeias para não deixar derrapar os défices – as abençoadas regras que, finalmente, nos vão mantendo na ordem.

Para tentar disfarçar a dureza desta aritmética, a Comissão Europeia está a preparar uma alteração das regras orçamentais que deixe de fora das regras europeias pelo menos uma parte da despesa feita em Defesa.

Um exemplo básico: um país que aumente a despesa anual em Defesa em 2% do PIB e faça, por isso, o défice subir de 3% para 5%, estará na mesma a cumprir o tecto dos 3% apesar de apresentar um défice real de 5%.

Não nos iludamos com estes truques orçamentais de simples registo de operações. Os 2% do PIB deste exercício teórico (em Portugal, neste momento, equivalem a 5.600 milhões de euros) são despesa feita que tem de ser paga com impostos.

Por muitas voltas que queiramos dar, numa lógica de política orçamental um euro gasto em Defesa tem o mesmo peso que um euro gasto em qualquer outra área: tem que ser financiado por impostos, agora ou no futuro.

A ilusão do “não conta para o défice” em nada altera a responsabilidade e o impacto tributário que estas despesas terão.

Da mesma forma que o meu sistema cardiovascular não melhora se eu for ao médico argumentar que uma parte do queijo da Serra que comi ontem não conta para o colesterol e que ele deve fazer o devido desconto nas análises que me mandou fazer.

É melhor ficarmos com a realidade: vamos ter que pagar mais impostos para pagar a Defesa se queremos manter o nível de despesa nas outras áreas fundamentais asseguradas pelos Estados, nomeadamente as políticas sociais. Que não haja coragem para dar esta má notícia aos cidadãos, isso já é outra história.