Inexplicavelmente, a pátria decidiu preocupar-se com a deputada do Livre. Primeiro a medo, com muitas bandeirinhas de consideração pela senhora. Depois, cada vez mais à vontade, com uma incompreensão crescente: como é que uma pessoa com dificuldades de fala pode dar voz às ideias e propostas de um partido, ainda para mais numa instituição – o parlamento – destinada a debates e à respectiva ginástica verbal? É como se o problema, não tendo ocorrido ao partido que escolheu a candidata nem aos eleitores que votaram nela, devesse agora ser da Assembleia da República, quando não de todos nós.

Desculpem eu achar tudo isto de uma ingenuidade comovedora. Que uma deputada não consiga discursar nem debater, é um problema dessa deputada, do seu partido e dos seus eleitores, mas não é um problema do parlamento, e muito menos nosso. Ou antes: é um problema que os outros deputados já resolveram da melhor maneira, que é fazerem uma pausa nos seus habituais apartes e cochichos, e ficarem todos muito calados, em sentido, a olhar fixamente em frente, enquanto a deputada gasta os minutos da sua intervenção.

A questão da deputada do Livre é outra: porque é que a sua incapacidade de falar e discutir não é um problema para ela, nem para o seu partido, nem para os seus eleitores? E a razão porque essa incapacidade de falar e discutir não é um problema, é porque a deputada, o partido que a elegeu e os seus eleitores não estão minimamente interessados em falar nem em discutir.

O objectivo da eleição de Joacine Katar Moreira não foi fazer entrar uma voz (como se costuma dizer) na Assembleia da República, mas um símbolo. A candidata do Livre foi proposta aos eleitores, não como uma oradora eloquente nem como uma legisladora competente, mas simplesmente como mulher e como negra. E a esse respeito, nunca valeu a pena explicar que há e já tinha havido outras deputadas negras em Portugal. O Livre precisava de dar aos seus eleitores a sensação de que iam fazer história, mesmo que à custa da história.

Votar na candidata do Livre, mulher e negra, era a oportunidade de o eleitor se lavar dos pecados de uma sociedade racista e patriarcal. Foi assim que tanta gente, em tanto lado, dizendo até discordar do posicionamento do Livre, fez questão no entanto de fazer em público votos piedosos para que a sua candidata fosse eleita. A dificuldade de fala da candidata era, a esse respeito, irrelevante, quando não mais uma ocasião para o eleitor demonstrar rectidão, escolhendo uma pessoa com deficiência física. O voto no Livre foi o equivalente de uma penitência religiosa.

Ou seja, a deputada do Livre, independentemente das suas capacidades e ideias, foi eleita como um símbolo. Está na assembleia como um monumento, a lembrar as virtudes dos que votaram nela, e os crimes dos que não votaram. Desse ponto de vista, Joacine Katar Moreira é o membro mais eloquente do parlamento. Nenhum outro deputado se faz compreender tão bem, nenhum outro comunica tão claramente. Basta olhar para ela, e está tudo dito e percebido.

O Livre apostou tudo na mística e no ritual do politicamente correcto. Por isso, é um partido que não precisa de dizer nem de propor nada. Chega-lhe mostrar  a pele da sua deputada ou as saias do seu assessor. É significativo que a mais conhecida iniciativa atribuída a Joacine Katar Moreira seja falsa (a substituição da bandeira “colonialista”): como acontece a qualquer símbolo, a deputada pode ser investida, por amigos e inimigos, dos mais variados significados. Para que servirá, se a moda pega, um parlamento cheio de símbolos, como estátuas num parque, é outra questão.