As últimas eleições em Portugal trouxeram uma lufada de… exatamente o mesmo ar. A esquerda sofreu uma daquelas derrotas que só em Portugal se confundem com vitórias morais. Por estes dias, muito se fala sobre os resultados das últimas eleições legislativas. Uns falam da ascensão do Chega, outros da queda do PS, mas há um grupo que continua a merecer a nossa mais sentida contemplação: a esquerda que sobra – ou, melhor dizendo, que se vai evaporando com toda a elegância e parcimónia.
Vamos por partes.
O Bloco de Esquerda, fiel ao seu estilo de resistência numérica, garantiu a eleição de Mariana Mortágua. Um feito, sem dúvida, porque é sempre reconfortante ver um partido que em tempos sonhava com o governo a contentar-se agora com uma cadeira e meia no Parlamento. A líder mantém-se, porque o Bloco, tal como um convento medieval, acredita no voto de clausura e estabilidade espiritual: uma vez líder, sempre líder. A alternância? Que ideia mais neoliberal. Continua a provar que, por mais que o partido encolha, há sempre lugar para o mesmo rosto (pelo menos para um dos rostos gémeos) a discursar sobre revoluções adiadas.
Mariana Mortágua continua assim a carregar o estandarte de um partido que já teve 19 deputados, já negociou com governos e já pareceu uma alternativa. Hoje, é sobretudo uma nota de rodapé ruidosa que aparece de três em três anos nos debates para lembrar que o capitalismo é mau e que o mundo está prestes a ruir (mas por favor, em linguagem inclusiva).
Do lado do PAN, a história é ainda mais comovente. Inês Sousa Real foi reeleita, garantindo que a defesa dos animais continue a ser feita com aquele entusiasmo passivo-agressivo que já se tornou marca registada do partido. Tal como os gatos que o PAN adora proteger, o partido caiu sempre em pé – mesmo depois de perder toda a bancada parlamentar, de ser abandonado por figuras como André Silva, e de ter atravessado mais crises internas do que uma matilha de dálmatas com pulgas. Nada diz “renovação política” como alguém que lidera um partido de causas verdes com a vivacidade de um eucalipto em auto-combustão.
Mas a reeleição da líder permite manter a tradição de fazer muito barulho com pouco conteúdo. E assim, o PAN permanece firme na sua luta pelas causas fundamentais do país, como a obrigatoriedade de menus veganos no Parlamento, o fim das touradas, e o ocasional grito desesperado contra as alterações climáticas. Tudo com o dramatismo necessário de quem sabe que nunca será chamado a governar coisa nenhuma.
E agora, o momento mais poético desta ópera da esquerda: o Partido Comunista Português.
Ah, o PCP. O último bastião da luta operária, dos sindicatos à moda de 1975 e das resoluções políticas em que o imperialismo americano ainda é o principal vilão. O partido que em tempos era uma força disciplinada, respeitada, temida até – hoje elegeu apenas três deputados. Três. Uma carrinha de nove lugares chega para transportar toda a representação comunista do país, com espaço de sobra para uma mala térmica com tupperwares do Avante.
Jerónimo de Sousa saiu, entrou Paulo Raimundo, e tudo continuou exatamente igual. Porque a mudança é uma invenção burguesa, como a Netflix ou os QR codes. O resultado? Uma contínua marcha lenta para a irrelevância, enquanto os camaradas continuam a saudar “o povo” de um púlpito cada vez mais vazio.
O que une estas três forças? Uma notável resistência à renovação. Porque novas lideranças, ideias frescas, ou sequer uma reflexão profunda sobre a realidade política do país seriam perigosamente eficazes. Podiam atrair eleitores, provocar crescimento… e isso, convenhamos, seria péssimo para o país. Não queremos uma esquerda moderna, dinâmica ou com capacidade de disputar o poder. Queremos uma esquerda simpática, museológica, previsível. Uma esquerda que se mantenha ali, a ferver em lume brando, sem nunca ameaçar ferver a sério.
Enquanto a direita cresce, se fragmenta, se reinventa (às vezes para o bem, outras para o caos), a esquerda alternativa decidiu especializar-se numa arte muito portuguesa: a derrota confortável, com dignidade e sem sobressaltos.
A estabilidade, afinal, também pode ser sinónimo de irrelevância. A esquerda e extrema-esquerda são cada vez mais um museu político vivo, onde o discurso é reciclado e a esperança é algo que se entrega na compostagem. Para a esquerda deixo um slogan renovado: ai Costa, a vida Costa.