Segundo a imprensa, Luís Montenegro, candidato à liderança do PSD, não fica nervoso quando alguém diz que ele é de “direita” e tem “propostas” para o país. Ainda bem. Mas vamos entender-nos: não é isso que é mais importante. Ao país e ao regime, o que faz falta neste momento não são políticos de quem se possa dizer, sem desmentido, que são de direita, ou que tenham muitas e variadas “propostas”. Nada disso, aliás, alguma vez faltou. “Propostas” é o que mais há em Portugal, e mesmo a “direita” está muito mais representada do que parece.

Dizer-se ou não se dizer de direita é, em si, mais ou menos irrelevante. Em política, ninguém deixa de ser de direita só porque quer. Desde a Assembleia Constituinte de 1975, que o CDS e o PSD ocupam os lugares à direita do presidente no parlamento. Desde então, que propõem e defendem aquilo que propõem e defendem as direitas nas democracias ocidentais. Que o CDS tenha dito que é do “centro” ou que o PSD ainda diga que é de “centro-esquerda” não deriva da sua posição e dos seus princípios, mas de uma estratégia. Ao contrário do que diz a lenda, essa estratégia não foi determinada simplesmente pela necessidade de sobreviver durante a fase de ascendência comunista da revolução de 1974-1975, nem no facto de a maioria da população estar à esquerda, porque não estava, como sugerem as sondagens de opinião dos anos 80, mas na ideia de chegar ao poder através de acordos com o Partido Socialista. Entendamo-nos: em Portugal, só para fazer jogos com o PS é que convém à direita não ser de direita, a fim de não melindrar a “consciência de esquerda” dos socialistas.

A questão foi sempre essa, como agora: querem o PSD e o CDS ser alternativa ao socialismo e mobilizar uma maioria para um governo diferente, ou acham que devem apenas aumentar o leque de parceiros de geringonça com que António Costa vai tentar manter-se no poder nos próximos anos? Tudo o que não for responder claramente a esta pergunta nunca será mais do que um conjunto de “frases rangentes donde sai um aroma”, como Eça de Queiroz descreveu as vacuidades oficiais do seu tempo numa carta a Pinheiro Chagas.

Estar à direita na política portuguesa, neste momento, é, em primeiro lugar, querer ser alternativa ao Partido Socialista, enquanto partido de governo da esquerda e eixo de uma política confusa e imobilista que já pôs metade dos eleitores a abster-se. Estar à direita é ser por uma outra relação entre os políticos e os cidadãos, fundada num mandato de governo claro. Para isso, não basta um mero apanhado de propostas avulsas, nem o sectarismo mesquinho com que Rui Rio tem invocado uma suposta pureza ideológica do PSD para excluir quem duvida da sua estratégia de submissão ao PS. A direita, enquanto base de uma alternativa ao socialismo em Portugal e à sua política oligárquica, tem de ser outra coisa. Tem de consistir numa visão lúcida do que, em democracia e na Europa, pode e deve ser a sociedade e a economia portuguesas, para garantir liberdade e prosperidade para todos. Tem, depois, de corresponder a um movimento amplo, de inclusão e de mobilização de várias correntes de opinião — sociais democratas, democrata cristãos, conservadores, liberais — fazendo da pluralidade uma fonte de dinamismo e de força.

Reparem: não é apenas questão de outras políticas públicas, como alguns referem. É mais do que isso: é questão de outra política, uma política que não consista, como a actual, em acordos de bastidores, numa democracia em que os eleitores votam e depois ficam à espera para saber o que a oligarquia decide fazer com os seus votos. Sim, é a democracia que está em causa.