Quando embarcou na Flotilha Global Sumud, a caminho de Gaza, Mariana Mortágua fez uma escolha. Abdicou de estar junto dos candidatos do Bloco de Esquerda às autárquicas para lutar pela causa palestiniana. A líder bloquista hierarquizou a luta e decidiu que, mais importante do que o partido ter uma timoneira nas lutas locais e inteirar-se dos problemas das populações, era ter a sua coordenadora ao leme de uma ação para alertar para a situação em Gaza.

Não vou discutir a questão palestiniana, a solução de dois Estados, o 7 de outubro, a fome no enclave, o terrorismo do Hamas ou os implacáveis bombardeamentos da força aérea israelita. Não é que não seja importante — nem que não sofra com o que ali se passa — é porque não tenho conhecimentos suficientes para isso. E quanto mais leio, mais dúvidas tenho sobre direitos históricos, Direito Internacional e fanatismo religioso — um perigoso cocktail neste conflito. Não faltam especialistas pelo espaço público com informações, teorias e dogmas sobre o assunto para que cada um possa escolher o lado que mais lhe aprouver.

Há, no entanto, uma questão que faz sentido abordar. Mariana Mortágua e o Bloco de Esquerda perderam ou ganharam com o mês que a líder passou em alto mar? A curto prazo, o Bloco vai perder, mas Mariana Mortágua pode vir a ganhar. E a médio-prazo o partido também, ainda que de forma tangencial — os votos de uma esquerda cada vez mais diminuída não esticam. É, cada vez mais, um campeonato dos pequeninos (Bloco, PCP e Livre juntos não passaram dos 8,97% nas legislativas).

O Bloco de Esquerda conseguiu afirmar-se como um partido de causas, da ecologia aos direitos LGBTQIA+, do feminismo ao anti-racismo. Algumas das grandes causas do BE, e que ajudaram a impulsionar o partido, foram entretanto resolvidas na sociedade portuguesa. Só para citar as duas das mais conhecidas, o casamento entre pessoas do mesmo sexo passou a ser legal em 2010 e o ‘sim’ venceu num referendo à legalização da Interrupção Voluntária da Gravidez em 2007, embora não vinculativo. Até a eutanásia, que não é propriamente uma questão de esquerda-direita, é uma das causas bem encaminhadas.

Num momento absurdamente autofágico, o Bloco de Esquerda conseguiu perder autoridade nos direitos das mulheres e nos direitos laborais de uma só vez ao destratar lactantes. É verdade que o partido quase tocou o céu (com 19 deputados e mais de meio milhão de votos), à boleia de António Costa, quando encenou uma moderação que levou a então líder Catarina Martins a falar em social-democracia. Mas o partido não só atingiu o teto, como bateu lá com a cabeça e ficou ferido e agachado. No meio disto viu ainda uma nova esquerda burguesa (ideologicamente mais sonsa, mas, para compensar, mais fresca, realista e europeísta) passar-lhe a perna.

O naufrágio foi tão grande que o Bloco de Esquerda só elegeria uma deputada, a própria Mariana Mortágua, e nem sequer chegou a 2% dos votos dos portugueses nas legislativas deste ano (ficou-se pelos 1,99%). Perante o resultado, o Bloco percebeu que também não era pela oposição à direita radical (o Chega, partido que, para o BE, “fascista”), nem pela habitação, que conseguiria cerrar fileiras ou ganhar votos. Havia, no entanto, uma causa que — embora não tivesse trazido sucesso eleitoral — seria capaz de agregar e mobilizar a esquerda: Gaza. Passou a ser a nova causa-das-causas. O novo nicho.

Antes de embarcar, Mariana Mortágua terá pesado, junto do seu núcleo de confiança (que inclui, naturalmente, Francisco Louçã), os custos e os benefícios para o Bloco de Esquerda de integrar a Flotilha. É certo que, contava que a viagem não demorasse tanto tempo, mas, desde o início que Mortágua, tal como os restantes membros da Flotilha, sabiam que dificilmente chegariam a Gaza. Achavam, porém, que, só pelas atenções que iriam captar, seria importante para a causa a viagem. Nesse particular, o objetivo foi atingido.

A líder do Bloco de Esquerda também sabia que a interceção das embarcações, detenção por parte de Telavive, as manifestações pela libertação e a consequente deportação seriam também uma oportunidade para voltar a ter atenção mediática e o apoio agregado, apaixonado e mobilizado de uma boa parte da esquerda. E aproveitou bem o momento. Basta ver o manuscrito que escreveu à mãe a apelar que avisasse o Bloco de Esquerda e que convocassem manifestações. Acabaria recebida na zona das chegadas em Lisboa, com honras de campeã olímpica, aplaudida por um mar de gente. Da sua gente. Que é também o potencial eleitorado.

Mariana Mortágua não deixa de ter uma elevada taxa de rejeição (59% de acordo com a Aximage), a juntar a pequenos detalhes, como a petição para o não regresso a Portugal — que é naturalmente um meme tão absurdo que não merece ser levado a sério, mas que foi assinado por mais de 60 mil pessoas. Mas quando se está nos 2%, a estratégia não passa por ganhar abrangência eleitoral, mas sim reforçar-se como partido de nicho para poder ir buscar alguns dos votos que fugiram para o Livre.

Mortágua, já sem a novidade dos tempos em que enfrentava um Ricardo Salgado ainda dono disto tudo, precisava de um gesto radical como tentar furar o cerco a Gaza para voltar a ser a protagonista de uma causa. Apesar de estar a ser uma má líder — e de o facto de estar ausente durante a campanha autárquica contribuir para isso — continua a ser a melhor líder que o Bloco de Esquerda pode ter neste momento. Os fundadores, bem como Catarina Martins, sofreram a erosão do desgaste do partido. Fabian Figueiredo — um dos rostos da decadência do Bloco nos últimos anos — nem abdicou do negócio que está a desenvolver para servir a causa pública e honrar o mandato a que se candidatou. Não resta muito mais a não ser Mariana Mortágua.

A esquerda reconhecer-lhe-á a coragem de seguir em alto mar (sujeita a drones mais ou menos amigáveis), ser detida por homens armados das Forças de Defesa de Israel e os dias que esteve detida. E, claro, com alguma incerteza. À partida Israel iria devolver (como devolveu) são e salvos os portugueses que seguiam no barco, mas na Guerra os cenários são sempre imprevisíveis. A direita tenderá a ridicularizar e apoucar tudo isso, mas com esses votos Mortágua nunca contaria.

Na mensagem que enviou à mãe, Mariana Mortágua dizia: “Ainda não fui parar à solitária”. Podia ser ironia ou um medo real, mas naturalmente que seria pouco provável Telavive sujeitar uma deputada portuguesa a semelhante tortura. Ironicamente, Mariana Mortágua estava muito mais solitária quando, no final de agosto, partiu de Barcelona em direção a Gaza. A Flotilha tirou-a dessa liderança mais solitária e deu-lhe um consenso entre bloquistas em torno da sua figura que há muito não se via. Resta saber se será suficiente para que depois de umas locais que vão confirmar a irrelevância autárquica do Bloco de Esquerda, nas próximas legislativas, deixe de estar solitária na Assembleia da República.