O retrato do casamento de Isaac Abrahmsz Massa e Beatrix van der Laan, pintado por Frans Hals está exposto no Rijksmuseum, em Amesterdão. Isaac era um comerciante rico numa República que não considerava o lucro um pecado ou sequer uma ofensa. Quis ser retratado juntamente com a sua mulher, com quem casou a 26 de Abril de 1622, porque a arte era uma forma de promoção pública, numa sociedade que, além do lucro, prezava a arte. Mas o que chama a atenção para esta obra não é só isso. O mais curioso é que no retrato feito por Hals, Isaac e Beatrix estão sentados num jardim, lado a lado em plena igualdade. Não há um senhor e a sua mulher. São simplesmente duas pessoas que se amam, sentadas num jardim a desfrutar a vida. Algo possível numa sociedade mercantil, mas verdadeiramente revolucionário no início do século XVII, quando Luís XIII governava a França e o nosso Filipe III acabara de subir ao trono.

Isaac Abrahmsz Massa e Beatrix van der Laan, pintados por Frans Hals, Rijksmuseum

O sucesso da república liberal dos Países Baixos vem bem resumida no último livro de Fareed Zakaria, ‘Ages of Revolution’, publicado em Portugal pela Gradiva, com tradução de Bruno Cardoso Reis. Um breve período de abertura económica, comercial, política e tolerância religiosa centrou naquele pequeno país europeu todo o género de cidadãos. Além dos nativos, filósofos, religiosos, cientistas, matemáticos, comerciantes e políticos oriundos de toda a Europa encontraram ali refúgio. O resultado foi um fervilhar de ideias e actividade mercantil que deu origem a uma inovação tecnológica e conduziu a uma prosperidade ímpar ao ponto de a qualidade de vida dos holandeses se tornar superior à de qualquer outro europeu.

Os Países Baixos acabaram por ser vítimas do seu sucesso. As transformações ocorridas deram origem a fracturas sociais que minaram e destruíram o espírito de abertura que sustentava o progresso até aí ocorrido. A desconfiança perante os avanços tecnológicos de outros estados, a que se juntaram medidas proteccionistas que encareceram os produtos estrangeiros tiveram como resultado uma estagnação que se manteve durante demasiado tempo.

São lições importantes agora que as transformações ocorridas nas últimas décadas põem em causa o edifício liberal que as sustentou, desta vez a um nível global. No fundo, trata-se do mesmo receio de outrora só que, desta vez, abarca todos os continentes e praticamente todos os estados. A incerteza perante o futuro está a levar à desconfiança e ao fecho de fronteiras. O resultado pode ser um ponto final no período de maior progresso na história da humanidade.

E não é só Trump. A China de Xi Jinping está a limitar o papel do mercado em favor de um estado ainda mais forte e controlador. A Rússia de Putin considera a conquista de outro estado como uma manifestação de força e não de fraqueza. Na União Europeia, a burocracia excessiva e a vontade em criar uma Europa verde e cosmopolita a partir de cima, por decreto, está a destruir a indústria e a impedir a inovação. Em Portugal, trocámos a desconfiança religiosa pela intolerância ideológica face ao lucro e discutimos acaloradamente tudo à excepção do óbvio: como tornar a nossa economia mais competitiva para que se paguem melhores salários?

Zakaria diz que precisamos recuperar valores e um sentido de comunidade adequado aos novos tempos. Timothy Snyder, em ‘On Freedom’, defende que os políticos se devem centrar nas pessoas, em resolver os seus problemas concretos e não fecharem os olhos à realidade. A arrogância mata. Destrói. A abertura à discussão e ao que é novo, e a tolerância perante a diferença, que passa por a perceber para a integrar, o espírito crítico, a inquirição, o querer perceber porquê, a humildade de reconhecer que não sabemos tudo, que nunca saberemos tudo, pois se isso acontecesse terminaria a inovação e o sentido de aqui estarmos, que é a única forma de ultrapassarmos os tempos confusos e estimulantes que vivemos.

Mas não basta desejar e esperar a chegada de alguém que faça um milagre. Se a força do mundo liberal está na envolvência de todos, é cada um de nós quem tem a responsabilidade de fazer a sua pequena parte. Há que exigir mudanças, há que fazer reformas, mas também há que ponderar as propostas, as alternativas, para que não  despertemos numa realidade pior que a actual. Nos Países Baixos do século XVII, um mercador apenas vendia um produto a quem o comprava. Spinoza tão só questionava. Hals limitou-se a pintar. Isaac e Beatrix somente pediram um retrato que os unisse para sempre.