1 Há muito que a política portuguesa é um relambório de escândalos. Foi assim com os governos anteriores e nada indica que vá acabar. Não há ideias, nem reformas, há dissimilação, mentiras, desfaçatez e desonestidades. Ninguém tem hoje no nosso país confiança na classe política que temos.

Quem for hoje para a política arrisca-se a juntar-se a indesejáveis, a frequentar maus ambientes e a ter de colaborar com eles quando não a ter de os defender. Nunca o nível chegou tão baixo. A consequência disto é adulteração da linguagem política e a desvalorização do debate democrático das ideias. Não se vê o fim desta situação.

A linguagem política não alinha hoje argumentos válidos e convincentes para justificar decisões. Não é retórica. É apenas vã oratória. Visa só garantir a sobrevivência dos dirigentes no meio do pântano em que vivem. Faz lembrar o velho conselho de Maquiavel; o príncipe pode e deve usar da dissimulação para enganar o povo e manter o poder. Para isso a oratória da maioria dos actuais políticos portugueses tem por objectivo deturpar os significados, empobrecer e corromper a linguagem e, portanto, impedir-nos de pensar.

Não quero com isto dizer que não seja próprio do homem saber falar a propósito do assunto que lhe é colocado, como diziam os clássicos, mas isto não significa que possa mentir. A mentira tem a perna curta.

2 Quem não tem argumentos convincentes tem de viver do palavreado que já traz preparado de casa ou seja, da oratória que transmite pela palavra e pelos seus recursos. Palavras, palavras, palavras, nada mais que palavras…disse Hamlet a Polónio, pai de Ofélia, na peça de Shakespeare. É por isso que o primeiro-ministro, já enlameado por sua própria culpa, dizia que não queria o país «na lama» e que era «responsável» pela «estabilidade» que ele e só ele prejudicou. Que desfaçatez. A diferença é que Hamlet fingia loucura e Montenegro dissimulava, para não dizer outra coisa.

Os sucessivos governos vivem assim da palavra. Na falta de razões servem-se da palavra para através dela construir a realidade que lhes convém, zombando da nossa inteligência, que desprezam. A palavra serve-lhes de arma de arremesso para contornar a realidade. O que não admira; é que não têm argumentos. Não existe consequentemente retórica discursiva, apenas oratória. Não procuram argumentar, limitam-se a passar mensagens. Não fomentam a discussão, baseada na troca de argumentos, limitam-se a repetir palavras ou seja, «comunicam». Chamam agora a isto «comunicação» política e há até «especialistas» nesta ciência oculta e intrujona.

3 A retórica argumentativa é própria da democracia política. Nas ditaduras como as criadas por Castro e Chávez não há retórica porque a verdade é apenas uma, não sujeita a debate e imposta a partir de cima. Vive do líder ou do partido tal como na monarquia absoluta a palavra do Rei era certa e justa porque encarnava o corpo místico de Cristo e a explicação, para os mais duvidosos, estava sempre na Bíblia e no magistério moral da Igreja. Não havia troca de argumentos pois só havia certezas e estas dispensavam argumentar. Nós, os portugueses, temos a obrigação de saber o que isso foi. O pior está em que ainda hoje muitos de nós continuam dispostos a acreditar na verdade revelada e interpretada pela palavra de quem pode e nos quer transmitir certezas. Conta-se com a tradicional subserviência ao poder dos portugueses.

A palavra hoje está ao dispor de quem a manipula e vive da dissimulação e da mentira. Querem que engulamos a mentira que o peso da palavra escolhida proporciona. Enchem-nos assim de poluição verbal.

Só a democracia convive com a verdade. Os regimes baseados na mentira servem-se da palavra para construir à sua maneira  a realidade ou seja, partem da palavra e não da realidade pelo que a distorcem de modo a caber na palavra. Daí que vendam mistificações. Lembram-se do que era o discurso intrujão da 5.ª divisão do EMGFA a seguir ao 25 de Abril? Enjeitam a retórica, apostam na oratória. A oratória é a sua melhor amiga. A mentira não serve a democracia. Mata-a. Mina qualquer relação de confiança. Sem ela o eleitor anda desorientado e tende a radicalizar-se.

4 Nas democracias políticas só há opiniões. Tudo é questionável, excepto a verdade. A retórica consiste justamente na articulação dos melhores argumentos para convencer um auditório que é hoje cada vez mais instruído e heterogéneo. Só assim se convence. «Vencereis mas não convencereis», disse em 12/10/1936 o reitor Miguel de Unamuno numa sala cheia de falangistas ao líder franquista Millán-Astray que acabava de entrar vitorioso em Salamanca.

Mas convencer não é a preocupação dos discursos e intervenções oficiais dos líderes políticos que temos. O objectivo é confortar o público que já têm à mão. Os discursos são para os seus e não para o público em geral. Os seus são os militantes e os dependentes e pouco mais. Não convencem ninguém nem podem convencer porque não argumentam. Esta realidade é hoje transversal a toda a política. De Montenegro a Jean-Luc Mélenchon tudo são exemplos acabados de um discurso circular destinado aos seus apoiantes que só a eles adere e que procura apenas reconfortá-los nas ideias e certezas que já trazem de casa e nas expectativas que acalentam. A actual maioria faz exactamente isso e a esquerda e a extrema-esquerda portuguesa também. A oratória é circular; o facto, seja ele qual for, é visto na perspectiva da ideia prévia e desta deduz-se já a conclusão. Está feito. Embeleza-se esta com umas metáforas escolhidas de teor emotivo de modo a suscitar a adesão. Apoio garantido. Os ouvintes sentem-se em casa. A linguagem assim usada não se destina a libertar o entendimento e a suscitar o debate. Pelo contrário, visa impedir o raciocínio crítico e radicalizar a convicção que já lá estava.

E quem disser o contrário? É «fascista», evidentemente ou, como se diz também agora, «radical». Está na cara. Estes termos pejorativos são um instrumento da oratória. Não dizem nada sobre a verdade, só a deturpam.