A decisão de esvaziar as celebrações formais do 25 de Abril, optando por uma fusão simbólica com o 1º de Maio sob o lema “São Bento em Família”, representa mais do que uma simples inflexão cerimonial, configurando uma adulteração deliberada da memória coletiva e um exercício de reconfiguração simbólica da história democrática portuguesa. A este gesto, revestido de uma aparente inocuidade familiar, subjaz um planeamento de instrumentalização política.
Se o luto nacional, motivado pelo falecimento do Papa Francisco, digno de respeito, poderia perfeitamente ter sido assinalado a 26 de Abril, a sua sobreposição à efeméride fundadora da democracia portuguesa, foi profundamente reveladora. Tal escolha, não tendo sido inocente, foi capaz de anular simbolicamente a expressão pública do povo e da sua memória coletiva, insinuando que a celebração da liberdade pode ser adiada ou, pior ainda, substituída.
Ao não se assinalar o 25 de Abril (e até mesmo o Dia do Trabalhador) com a pompa e circunstância habitual, o Presidente da República e o Governo prestaram um serviço a uma direita em permanente campanha, que parece ter dificuldades em lidar com a herança transformadora do processo revolucionário de 1974-1975 e das conquistas laborais. Sendo os símbolos instrumentos essenciais da luta política, ao esvaziá-los, neutraliza-se a sua capacidade mobilizadora.
Qualquer que seja a circunstância, jamais poderemos esvaziar a memória coletiva e deixar de nos mobilizar por Abril. A ideia de fundir as celebrações do Dia da Liberdade com o 1.º de Maio, por via de um dia da família no espaço do Palácio de São Bento, remete-nos para uma estética perigosamente próxima daquilo que outrora foram os rituais de valorização da família, sob uma falsa unidade nacional, a homogeneização da esfera pública e um discurso moralizante. Substitui-se a crítica e a intervenção cívica somente por entretenimento cuidadosamente curado. Substitui-se o povo na rua somente por espetadores passivos. A democracia representativa é esvaziada da sua vertente participativa.
Neste cenário, a presença de Tony Carreira — artista com forte apelo junto de uma faixa populacional específica, maioritariamente despolitizada — serviu um propósito claro: não o de evocar música de intervenção, mas o de atrair uma audiência emocionalmente predisposta e pouco propensa à crítica. Trata-se de uma manobra de marketing político com contornos de propaganda que desvirtuam a celebração de conquistas cujos valores são mais elevados. Luís Montenegro aproveitou uma colonização dos recursos públicos e dos símbolos nacionais numa lógica de autopromoção governativa, fazendo confundir o seu papel enquanto Primeiro-Ministro com aquele que tem enquanto líder da AD, cuja campanha apenas se inicia domingo. Quem esteve em São Bento, foi, de facto, um Primeiro-Ministro em campanha. E se de uma dessas ações se tratasse, dificilmente seria melhor, com Luís Montenegro entre o povo, a dançar e a aplaudir ao som de músicas românticas que nada dizem sobre a Liberdade e os Trabalhadores.
A ciência política ensina-nos que a democracia não é apenas um regime de regras e instituições, sendo igualmente uma cultura, uma memória e uma prática quotidiana de cidadania. Ao despolitizar e secundarizar as suas celebrações fundadoras, assim como desvirtuando os contextos cultural e sentimental próprios, mina-se a sua vitalidade no seio da comunidade. Numa época marcada por populismos e revisionismos históricos, esta tendência é não apenas irresponsável, mas perigosa. A defesa e evocação dos valores democráticos e da luta de classes devem estar acima de quaisquer pretensiosismos ou convicções pessoais.
Critico esta opção, não por uma questão de nostalgia, ideologia ou formalismo cerimonial. É uma questão de exigência de rigor democrático e de respeito pelas instituições. A liberdade e os direitos dos trabalhadores não se celebram com complacência nem com marketing político. Celebram-se com memória, com verdade e com a reafirmação intransigente dos valores fundadores da democracia. O povo não é figurante, mas autor da sua História. Uma História que merece respeito.