No próximo dia 25 de Abril ouviremos, alto e em bom som, o grito de liberdade que ecoa na música de Zeca Afonso. Grândola é canção de revolta mas, ao mesmo tempo, sinónimo de esperança. A vila morena entrou nos nossos corações como um hino oficioso da nação e, por isso mesmo, o meu amor à pátria e aos três princípios da democracia — Liberdade, Igualdade e Fraternidade –, levam-me a repudiar absolutamente a decisão do parlamento português.

O país está parado há um mês. Há dezenas de milhares de novos desempregados e famílias que vivem momentos de desespero e angústia com a incerteza do presente e o medo do amanhã. A inevitável recessão económica é só mais um dos factores que nos aterroriza enquanto sociedade. Temos vivido assolados pelo receio, deprimidos pelo confinamento e assustados com o que ai vem. Os portugueses não conseguem sentir que haja motivos para celebrar, principalmente quando os deputados festejam a liberdade enquanto nós assistimos à farra na clausura das nossas casas.

Abril não trouxe a liberdade, ela já existia. Era, no entanto, um exclusivo de uma pequeníssima minoria. Abril generalizou-a. Democratizou a liberdade por nos trazer igualdade e, se não há a primeira sem a segunda, a segunda não existe quando só uma elite pode celebrar um bem comum.

Não questionarei sequer o critério de escolha, que parece totalmente arbitrário e ideológico, das comemorações que podemos fazer. O vírus não tem partido nem escolhe raças ou credos. Ataca indiscriminada e implacavelmente quem vai a Fátima a 13 de Maio assim como os trabalhadores que assinalam o Dia Internacional do Trabalhador. Demonstra a mesma falta de compaixão pelos que celebram o 25 de Abril que por aqueles que comemoram o Dia de Portugal, mas por ser um erro qualquer ajuntamento nesta altura, é matéria sobre a qual nem vale a pena debruçarmo-nos.

Não deixará de ser cómico, apesar de embaraçoso, ver o tradicional desfile de vaidades a discorrer sobre a liberdade, numa altura em que, e bem, há portugueses a serem detidos por saírem de casa. Só num país de tontos é que aceitamos que, do alto do seu trono dourado, o Presidente da Assembleia de República incentive e defenda uma violação da nossa jovem democracia, ainda para mais, alegando que o faz em nome dela.

O meu humilde contributo para esta data é o de sugestão na elaboração da ementa. Um Porco à Orwell seria o prato indicado para celebrar o 25 de Abril no parlamento já que isto não é assinalar a democracia. É ter os pais e os guardiões dela, a ir à sua casa mostrar ao povo que, ela pariu alguns filhos, mas tem muitíssimos enteados.