Apesar do ato eleitoral ser considerado como uma das maiores atividades realizadas em tempos de paz, ele envolve uma complexidade enorme, é um verdadeiro desafio logístico e tem um enorme peso Ambiental. Durante o período eleitoral, são realizados eventos de campanha, promovidos por partidos e candidatos, que chegam a investir milhões em propaganda e materiais promocionais, que no final são descartados. Mas os impactes Ambientais negativos manifestam-se também através da poluição visual, sonora, eletrónica e atmosférica, e do consumo excessivo, e muitas vezes desnecessário, de recursos naturais, além do dispêndio de energia inerente a todo o processo.

A Organização Intergovernamental (OIG) IDEA, que tem como missão apoiar a promoção da democracia sustentável em todo o mundo, salienta que os atos eleitorais e as campanhas dos partidos políticos, são atividades especialmente propícias ao contributo para as alterações climáticas. O relatório síntese do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) sublinha o peso destes eventos para a aceleração das ações climáticas. Este documento destaca que os padrões insustentáveis de consumo e produção, em épocas eleitorais, estão entre os principais responsáveis pelo aumento das emissões de gases com efeito de estufa, e aponta a necessária transformação setorial como essencial para reduzir as emissões poluentes e conter o aquecimento global. Como exemplo temos o caso da Malásia, que durante as eleições gerais de 2018, contabilizou cerca de 18.776 toneladas a mais de resíduos, num único mês após o evento. Este aumento significativo de resíduos foi, em grande parte, atribuído aos materiais de campanha, como faixas, cartazes, panfletos e artigos promocionais descartáveis.

Mas o que pode fazer a Comissão Nacional de Eleições (CNE) e os partidos políticos para reduzirem as emissões de carbono tanto nas suas campanhas diárias como durante os períodos eleitorais?

  1. Sensibilizar eleitores e candidatos para a importância da ação climática e para o papel que as eleições desempenham na definição de políticas ambientais é fundamental. Esta consciencialização incentiva os partidos políticos e os seus candidatos a colocarem a ação climática como uma prioridade na agenda eleitoral;
  2. A colaboração institucional entre a CNE e o Governo é necessária para identificar os riscos associados às alterações climáticas, defendendo soluções e desenvolvendo planos de contingência em resposta ao impacte ambiental negativo nos processos eleitorais;
  3. A integração de práticas sustentáveis e transparentes na atuação da CNE, incentivando os partidos políticos a fazerem o mesmo através da adoção de códigos de conduta que promovam campanhas ambientalmente sustentáveis, como políticas de aquisição ecológicas, definição de metas de redução de emissões e implementação de atividades eleitorais sustentáveis;
  4. A cooperação internacional é também indispensável, reconhecendo que as alterações climáticas não conhecem fronteiras;
  5. O envolvimento de partes interessadas, como o setor privado, a sociedade civil e as comunidades locais, é essencial para o desenvolvimento de políticas climáticas abrangentes e inclusivas;

Convém lembrar que, se para cada tonelada de papel produzida, forem necessárias aproximadamente 20 árvores e 100 mil litros de água, durante os períodos eleitorais, esse consumo vai atingir proporções alarmantes, ou seja, milhares de árvores serão abatidas e bilhões de litros de água serão gastos para a produção de materiais que, passados apenas alguns dias, acabarão por se transformar em “lixo”. Apesar de um dos impactes mais visíveis da poluição estar no acumular de papéis nas vias públicas onde, em muitos municípios, os serviços de limpeza urbana são insuficientes, o papel produzido e todos os recursos consumidos no dia das eleições devem também ser considerados, como um impacte acrescido no Ambiente. A poluição sonora é outro problema significativo, especialmente devido à circulação intensiva de carros de som, muitas vezes em volume excessivo. Estes veículos contribuem não só para o desconforto da população, mas também para o aquecimento global, devido ao consumo contínuo de combustível. E, infelizmente, os processos eleitorais não representam apenas o consumo excessivo de recursos, o consumo de energia, o aumento das emissões de CO2 e de poluição geral, mas também uma despesa financeira acrescida aos cofres do estado para colocar todo o processo em marcha.

É contraditório que os partidos promovam discursos ambientalistas e defendam medidas sustentáveis nos debates e programas políticos, mas demonstrem total indiferença durante o período de campanha eleitoral.

A reflexão que fica é: será que o país precisava realmente de mais um processo eleitoral, num país que nos últimos cinco anos, entre 2019 e 2025, realizou oito eleições de âmbito nacional e quatro de âmbito regional, todos com impactes Ambientais relevantes, dos quais nunca ouvimos falar.