Desde que o governo nos pôs a andar de cara tapada, penso irresistivelmente nas minhas leituras infantis em que um herói libertador se escondia dos «maus» atrás de uma máscara que anunciava a todos nós que estávamos perante o salvador da pátria, a saber, Zorro! Quando eu era criança, uma máscara à maneira de Zorro fazia de mim um herói potencial… Hoje, faz-me senti o olhar do vírus pousado sobre mim e dá-me mais medo do que outra coisa… Isto para resumir a impressão de quem não estava totalmente despreparado para este género de cena: vale mais andar a esconder-se atrás de uma máscara à Zorro ou obrigar a China a acabar com os seus caprichosos hábitos alimentares afrodisíacos uma vez por todas? Vale mais esperar por pandemias anunciadas e ter fé em deus-nosso-senhor ou tomar medidas recomendadas há muitos anos. Para já, medidas contra os incêndios… dos quais a fraca memória deste governo já se esqueceu!

Entretanto, enquanto os políticos profissionais se preocupam em garantir a reeleição do presidente da República, conforme o 1.º ministro propôs inesperadamente em público, anunciando a seguir que não haveria congresso do PS para pôr tal ideia em causa, a massa da população portuguesa, assim como a francesa, declaram-se claramente contra os riscos do «desconfinamento». Na realidade, as pessoas têm «mais medo sanitário do que medo económico», ao contrário do que crê a «esquerda», que apenas pretende responsabilizar o «capitalismo neo-liberal»… A verdade é que não é impossível que as vítimas da pandemia venham a cobrar a decisão do governo se a evolução não for aquela em que este apostou sem bases!

São esses riscos que estão a aparecer ao cabo de poucos dias com a multiplicação de «novos casos» na Região da Grande Lisboa. Basta fazer as contas. A cidade de Lisboa, que tem mais do dobro dos habitantes do Porto, começou por ter metade dos «casos» e hoje tem quase o dobro, ou seja, a mesma percentagem relativamente à população. Entretanto, é bom saber que a capital e mais dois concelhos limítrofes tinham ontem 4.176 casos entre os dez primeiros do país; mais três concelhos entre os 10 seguintes e três nos 10 seguintes; ao todo, entre os primeiros 30 concelhos mais afectados, a Grande Lisboa tinha praticamente 7.000 casos em 30.000, ou seja, menos de 25% do país. Quanto ao Grande Porto, igualmente entre os 30 primeiros concelhos do país, tinha 16 e um total superior a 11.624 casos, ou seja, quase 40%. Além daqueles dois grupos, há ainda entre os 30 primeiros 4 situados entre Ovar e Coimbra.

Ora, não é por acaso sanitário que tal sucede, como noutros países aliás, mas sim por razões geo-demo-sócio-económicas nunca atendidas pelo governo nem tão pouco pela DGS. Naqueles 30 concelhos a norte do Tejo, com a excepção de Almada, estão pois concentrados quase 20.000 casos, isto é, mais de 2/3 de todos os casos do país! A pandemia não é, pois, um risco que ataca as pessoas desigualmente da sua localização, nomeadamente a densidade populacional, nem da sua estrutura demográfica nem da situação sócio-económica.

Assim como o vírus foi importado de Itália para o Grande Porto por motivos bem conhecidos, que talvez devessem ter sido logo confinados, acabou por contaminar a Grande Lisboa com os seus 2,5 milhões de habitantes, onde agora o vírus parece irromper com redobrada intensidade marcada por dois factos demográficos muito mal controlados. O primeiro é a idade cruzada com o sexo – basta dizer que perto de 50% dos óbitos devidos ao Covid-19 são senhoras com mais de 80 anos – e o segundo é, como os jornais não resistiram a chamar a atenção, o facto de Lisboa e arredores concentrarem a maior parte da população de origem africana e/ou brasileira, a qual seria menos resistente ao vírus do que os europeus…

Para fechar: com uma pandemia que está muito longe de ter sido ultrapassada e com eleições de vários tamanhos e feitios a resolver, o chefe do governo e do PS tem mais assuntos na agenda não menos preocupantes. O mais decisivo, politicamente falando, é provavelmente a declaração de nova falência em que o país se encontra perante uma quebra do PIB que pode ir até 10% ou mais e o dinheiro que o 1.º ministro espera – sem grande certeza – que a União Europeia lhe dê sem aumentar a enorme dívida que o país já tem… Se o dinheiro grátis da UE poderia salvar António Costa, a evolução da epidemia não será menos relevante. Conforme um e outra, saberemos durante quanto tempo durará o governo. Dado que não há oposição, até é possível que dure mais algum tempo para merecido castigo dos nossos pecados…