Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

A minha vizinha toca piano quase todos os dias. Ela mora ao meu lado. Há muitos dias em que os vidros de sua casa estão corridos e é por essa abertura que a música sai para o exterior. Vai ao encontro de todos, dos vizinhos, como eu, e das pessoas que, por sorte e circunstância, andam na rua. Não sei se a música se ouve tão bem quando as janelas estão fechadas, mas é natural que não. A música é forte, existem poucos fenómenos que apresentam a sua força, mas uma janela fechada é sempre uma barreira, um obstáculo. Primeiro do que ser uma forma de arte, a música é um evento físico. Nós seguimos o mesmo padrão, também a nossa humanidade é, antes de tudo o resto, uma ocorrência da natureza; só mais tarde é que assume contornos milagrosos e criativos.

No momento em que os meus ouvidos identificam as notas de piano vindas do exterior, a mente apodera-se do corpo e, sem dar conta, abro a janela da divisão da casa em que me encontro. Não dou por nada. De repente, sempre de repente, a janela está aberta e os sons coloridos criados por aquele instrumento forasteiro dançam em redor dos meus sentidos.

Entre as janelas de minha casa e a vizinha, aqui artista de piano, existe um grande jardim. Durante o período em que ela carrega delicadamente nas teclas brancas e pretas do instrumento, este jardim, verde, castanho e amarelo, torna-se na sala de espetáculos mais bonita do mundo. Os pássaros que por aqui escolhem passar a sua existência e os outros seres, que habitam as árvores e arbustos deste espaço e de jardins próximos, participam no festival e cantam. Eles não têm noção de que integram uma autêntica demonstração de piano livre. Os bichos simplesmente vivem as suas existências animais, revelando a sua presença através de sons frágeis, escritos na pauta por Deus.

Deverei chegar ao fim da minha vida sem compreender por que razão é tão libertador escutar o canto dos pássaros. Reconheço que há coisas que não temos de perceber. Na verdade, os pássaros estão apenas a comunicar entre si, a estabelecer contacto com o seu mundo, da mesma forma que nós falamos uns com os outros, apresentamos e discutimos ideias. Também sei que, até ao último dia da minha vida, irei continuar a ouvi-los cantar. Espero nunca vir a perder uma oportunidade de os escutar, porque é nesses instantes que percebo que os pássaros são reais e que a realidade que os envolve existe, ainda que não os consigamos entender propriamente. Fomos todos colocados no mesmo mundo, mas não sabemos como comunicar entre nós.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Normalmente, quando os pássaros se fazem ouvir, o céu está azul e as árvores apresentam tons verdes mais intensos do que é costume. A luz está por todo o lado, iluminando tudo e todos, as ruas e as pessoas, que, munidas agora com o espírito poético da primavera, se deixam levar pela corrente de ar e revelam mais verdades, olham o sol de frente, olhos nos olhos, mas com os olhos fechados. À superfície da pele, sentem uma sensação quente – é ele, o sol –, que apenas é interrompida, ou por uma aragem mais fresca, ou por uma nuvem solitária, que se perdeu do inverno.

A música é um acontecimento único. Ninguém conhece igual. É uma propriedade que, nos momentos em que se revela, nos exatos períodos de tempo em que se faz ouvir, não pode ser controlada por nada nem por ninguém. Nem Deus, que a terá criado, a consegue controlar. A música é um império cujo arsenal não tem fim, os seus recursos são ilimitados.

Desde o começo dos tempos que os homens, as mulheres e as crianças têm procurado evidências de magia, mas, até aos dias de hoje, ninguém teve sucesso. Ainda assim, não é certo que a magia não exista. Ninguém é verdadeiramente capaz de desfazer essa interrogação. Desde que me lembro que me interesso pelo tema e aposto nesta busca misteriosa. Hoje sei que a magia existe, claro que existe, existe desde sempre, existe em toda a parte. A magia existe e manifesta-se através de notas musicais. Acredito em magia, pois acredito na música que escuto nos contextos mais diferentes. As composições, melodias, letras e batidas musicais pegam nos nossos sentidos e reconstroem-nos, enchem-nos de tinta e nós ganhamos novas formas e cores. No decurso deste processo, não há nada que possamos fazer para travá-lo ou abrandá-lo. Sempre que está a ser reproduzida, a música é a força mais poderosa e irreverente do mundo. A nossa mente não tem como competir com ela, apenas tem de a seguir.

A música raramente anuncia a sua chegada. Surge apenas e deixa-se ficar pelo tempo que pretende. Tudo aquilo que nós podemos fazer é abrir as janelas e facilitar a sua entrada nas nossas vidas.