Trump entrou na Casa Branca e, nesse mesmo dia, assinou uma ordem executiva em que ordenava a saída dos EUA da OMS. É verdade que os americanos têm razões de queixa. Mas a solução não é bater com a porta. Três exemplos vão permitir-nos ilustrar o argumento.
No século XIV, sob o impacto dos movimentos migratórios e comerciais causados pelo império mongol de Genghis Khan, a peste chegou à Europa. Em apenas dois anos, a partir de 1346, seguindo as rotas das caravanas que da China se dirigiam para a Crimeia e descendo depois para os portos do Mediterrâneo, espalhou-se por todo o continente. A mortandade que se seguiu (um terço da população europeia) valeu-lhe o nome de Peste Negra, como ficou conhecida.
No século XIX, a cólera chegou da Índia. A partir de 1821, forças expedicionárias britânicas transportaram a bactéria responsável pela doença a partir do golfo de Bengala: para sudoeste, para a Indonésia, a China e o Japão; e para oeste, para a região do Iraque. Do Iraque passou para África, a sul, e para o Irão, Síria, Turquia e Rússia, a norte. O transporte marítimo pelo Báltico e pelo Mar do Norte foi responsável pela invasão da Inglaterra e da Irlanda, de onde as vagas de emigrantes levaram o bacilo para a América do Norte e depois para sul, em direção ao México, onde chegou em 1833. No espaço de 10 anos, quando a maioria da navegação ainda era feita à vela e não havia aviões, a epidemia globalizou-se.
Não vale a pena afastarmos o problema dizendo que faltavam nesses tempos a ciência e os meios para travar a pandemia. Na segunda metade do século XIX já se conheciam os mecanismos do contágio, o papel das águas e dos esgotos foi elucidado, fizeram-se conferências internacionais e regulamentos portuários, e ainda assim os surtos continuaram. Mais perto de nós, houve casos de Ébola fora de África em 2014 e as pandemias de gripe A e Covid espalharam-se apesar de todas as medidas tomadas. Num mundo global, os esforços sanitários têm de ser globais. Nenhum país consegue fechar fronteiras para as epidemias. Se não vierem com os imigrantes, virão com os turistas, se não for com os turistas será com as mercadorias, ou os navios, a água do mar, os ventos.
A varíola também surgiu há muito tempo (10 mil anos), entre as primeiras comunidades agrícolas. Há evidências da doença em múmias egípcias com 3 mil anos e descrições da doença na Índia e na China poucos séculos depois. Os exércitos romanos, os árabes ou os cruzados regressados da Palestina trouxeram o vírus para a Europa. Não é fácil determinar calendários e percursos com rigor mas as vias possíveis foram muitas. A expansão europeia levou a doença para o Novo Mundo. Na América do Norte, a varíola chegou com os primeiros colonos e depois com o tráfico de escravos provenientes da África Ocidental.
A vacina foi descoberta por um médico inglês, Edward Jenner, em 1798. Em finais dos anos 1940, a doença estava praticamente erradicada na Europa e na América do Norte e, a partir de 1960, também na América do Sul. Depois, entre 17 de dezembro de 1961 e 11 de janeiro de 1962, cinco paquistaneses entraram no Reino Unido através do aeroporto de Londres. Todos traziam um certificado internacional de vacinação válido mas isso não os impediu de desenvolver varíola poucos dias depois (a doença tem um período de incubação até duas semanas). Houve mais episódios.[1] Tornou-se evidente que tentar controlar a doença com certificados de vacinação era ineficaz.
O problema estava em que o número de casos em África, na Índia e na China continuava a ser significativo. O risco de ocorrerem surtos a partir de casos importados era directamente proporcional ao volume do tráfego internacional. As epidemias não reconhecem limites “arbitrários” como fronteiras políticas. Esta assimetria entre a Europa e as Américas, de um lado, e a África e a Ásia, do outro, significava também ter de continuar a vacinar em países onde a doença não existia, o que era, só por si, um desperdício terrível: só a despesa necessária para proteger a população dos Estados Unidos durante uma geração era superior ao custo de erradicar todos os focos de varíola existentes no mundo.[2]
As contas eram fáceis de fazer. A campanha de vacinação massiva de 1957 na Bolívia custara 5 cêntimos de dólar per capita, ou 175 mil dólares para toda a população de 3.5 milhões de pessoas. O programa de erradicação em vinte países da África Central e Ocidental, a partir de 1966, que envolveu 120 milhões de pessoas, custou aos Estados Unidos 15 milhões de dólares. Nessa época, só em programas internos de contenção da varíola, os mesmos EUA gastavam 140 milhões de dólares por ano.[3] Os EUA e a Europa financiaram o arranque de um programa de vacinação à escala global. No total, o programa terá custado 300 milhões de dólares, dos quais dois terços foram suportados pelos países onde a doença era endémica.[4] A varíola foi considerada erradicada pela OMS em maio de 1980.
Há certamente muitas coisas para criticar na OMS. Mas a solução não é bater com a porta. Se os EUA ou qualquer outro país estão insatisfeitos com as posições da organização ou entendem que a sua influência não corresponde à importância do seu contributo (financeiro e não só), podem e devem discutir essas questões. Mas a não cooperação internacional é certamente pior do que ficar e negociar.
[1] O primeiro caso foi descrito por Bradley em 1963, no Journal of the Royal Society of Medicine.Houve mais oito surtos num curto espaço de tempo, com 63 casos registados e 18 mortes. Um outro surto foi descrito no mesmo jornal, em 2004.
[2] Frederiksen, “Strategy and tactics for smallpox eradication”. Public Health Reports. 1962.
[3] Axnick e Lane. “Costs associated with the protection of the United States against smallpox”. OMS. 1972. (acedido em 02.01.2021)
[4] OMS. “Smallpox eradication programme (SEP) 1966-1980”. Sem data.