A propósito da parábola do filho pródigo (Lc 15, 11-32), já aqui se fez notar que este texto parece expressar uma mentalidade vincadamente anti-feminina. Só São Lucas transcreve esta parábola, que apenas conhece protagonistas masculinos, pois não é referida nenhuma mulher. No entanto, o pai seria, ou teria sido, casado e os filhos teriam mãe e, eventualmente, irmãs, tias e primas.
Qual a razão desta omissão de qualquer intervenção, presença ou menção feminina?! Não será a mesma discriminatória e, nesse sentido, humilhante para as mulheres?! Tal ausência não reflectirá uma mentalidade machista, como se as mulheres não contassem e, por isso, não devessem ser referidas?! Não expressará menosprezo pela condição feminina, como se só a presença masculina fosse relevante?!
Pois bem, paradoxalmente, o que poderia parecer uma inaceitável manifestação de machismo é, como se verá, uma magnífica exaltação do génio feminino.
Que diz a parábola da reacção paterna ao ver, no horizonte, o filho rebelde? Que, “quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos” (Lc 15, 20). Não é preciso ser psicólogo para afirmar que nenhum homem procederia assim, por muito que quisesse ao filho regressado a casa, são e salvo. Ao vê-lo naquela triste situação, sentiria compaixão, mas seria muito improvável que corresse desenfreadamente até ele, pois uma tal atitude parece pôr em causa a gravidade paterna. Talvez o abraçasse e até beijasse, como é normal entre pais e filhos, mas não seria razoável que fosse ao extremo, quase caricato, de “lançar-se-lhe ao pescoço”, e muito menos de o cobrir de beijos! Tal comportamento desdiz do estatuto de pai ofendido e contradiz o que é próprio da conduta masculina que, não sendo menos afectiva, tende a manifestar-se de forma mais contida.
Note-se que Maria Madalena, quando descobre que está a falar com Cristo ressuscitado, trata-o com a deferência devida ao Senhor – “exclamou em hebraico: ‘Rabbuni!’, que quer dizer ‘Mestre!’” (Jo 20, 16) – o que prova a inexistência de uma relação íntima entre ambos, mas com tal entusiasmo que Jesus lhe disse: “Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: ‘Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus’.” (Jo 20, 17).
O afecto feminino tende a manifestar-se de uma forma que, como é óbvio, não é a de um pai. Mesmo depois dessa primeira reacção paterna que, por ser inesperada, poderia ser mais emotiva, o modo de o pai se comportar também não condiz com o estereótipo masculino. Com efeito, logo após a efusiva saudação, o pai, tal como uma boa mãe, providenciou para que o filho fosse vestido, calçado e alimentado (Lc 15, 22).
Há já uns anos, um jovem físico contou-me que tinha sido com grande entusiasmo que contara a seus pais uma investigação que estava a fazer. Mas, aos poucos minutos, a mãe interrompeu-o, para lhe perguntar: ‘Não queres um copo de leite?!’ Percebeu então que a mãe, afinal, não estava a ouvir a sua explicação, mas, como é muito próprio das mães, a pensar no que poderia fazer por ele.
De facto, é muito maternal a atitude do pai do pródigo, quando faz questão de que ao filho regressado seja dada “a melhor túnica” – as mães sabem quais são as melhores roupas dos filhos, mas os pais, em geral, não estão a par desses pormenores – e “sandálias para os pés”. Até se acrescenta um pormenor muito feminino: “um anel para o dedo” (Lc 15, 22). E, como é próprio das donas de casa, dá indicações concretas para o banquete: é o “vitelo gordo” (Lc 15, 23) e não outro, que deveria ser servido. Ante a recusa do filho mais velho, um pai qualquer não se daria ao trabalho de o convencer, nem de o ir buscar; mas uma mãe sim, porque a festa exige a presença de todos os filhos, sem excepção.
Talvez exegetas ao serviço da ideologia woke concluíssem que este pai é transgénero, ou então que a distinção entre as identidades masculina e feminina é meramente cultural. Nada mais errado, porque a resposta verdadeira é a que afirma a absoluta transcendência divina, bem como a natural e evidente diversidade e complementaridade dos sexos. Com efeito, “Deus transcende a distinção humana dos sexos. Não é homem nem mulher: é Deus. Transcende também a paternidade e a maternidade humanas (Sl 27, 10), sem deixar de ser de ambas a origem e a medida (Ef 3, 14-15; Is 49, 15): ninguém é pai como Deus” (Catecismo da Igreja Católica, nº 239).
Se há atitudes preferencialmente femininas no comportamento do pai do pródigo, o acto de perdoar expressa poder – o chefe de Estado é o supremo magistrado da nação – e, portanto, no âmbito familiar, é tradicionalmente patriarcal, ou seja, da competência paterna, até porque era o pai que o filho menor tinha ofendido, pedindo a sua parte da herança. Deus, que é o verdadeiro protagonista desta parábola, é pai, porque é o pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e nosso pai (Jo 20, 17; Lc 11, 2). Deus, “não é homem nem mulher”, mas é mais adequadamente representado numa figura masculina, porque ser pai, humanamente, implica ser homem. E, como ser padre é ser pai, faz sentido que o sacerdote – que é outro Cristo e o próprio Cristo – seja masculino, do mesmo modo como, para representar Romeu, se escolhe um actor e, para o papel de Julieta, uma actriz.
Mas, se à representação bíblica de Deus convém a condição masculina, não apenas nesta parábola, mas em todas em que é aludido (Mt 13, 52; Mt 20, 1-16; Mc 12, 1-12; Mt 21, 28-32; Mt 22, 1-14; etc.), porquê as atitudes femininas do seu comportamento, tão patentes no modo como acolhe o filho pródigo?! Se a figura central deste episódio é tão materna, porque não é esta a parábola da mãe compassiva, em vez do pai misericordioso?! De facto, há mulheres que são protagonistas de parábolas evangélicas, como as dez virgens prudentes (Mt 25, 1-13), a dona de casa que acha a moeda perdida (Lc 15, 8-10) e a mulher que põe fermento na massa (Mt 13, 33).
Pois bem, se a protagonista principal da parábola fosse uma mulher, não simbolizaria Deus. Porquê? Porque Deus é pai e nenhuma mulher o pode ser. Se assim fosse, o amor feminino não seria expressão do amor de Deus, mas apenas humano e, portanto, inferior ao amor paterno, que é divino no afecto do Pai pelo seu Filho unigénito, Jesus Cristo (Lc 9, 35), e por todos os seus filhos adoptivos (1Jo 3,1). Mas se o Pai, que é Deus, manifesta, em simultâneo, um amor que é paterno e materno, ambos têm a mesma dignidade, e os dois são, por igual, participação do amor de Deus. Deste jeito, a parábola aparentemente machista é, afinal, uma exaltação do amor feminino, que não é menos divino do que o masculino!
O amor de Deus inclui e transcende o amor paterno e materno, sem se limitar a uma única dessas modalidades do amor humano: “pode a mulher esquecer a criança que amamenta e não ter compaixão do fruto das suas entranhas? Pois, ainda que ela o esquecesse, eu não te esqueceria.” (Is 49, 15). Por isso também, no “Regresso do filho pródigo”, do Hermitage, em São Petersburgo, Rembrandt, paradoxalmente, representou o pai com uma mão masculina e outra feminina.
Explica o Catecismo da Igreja Católica: “Ao designar Deus com o nome de ‘Pai’, a linguagem de fé indica principalmente dois aspectos: que Deus é a origem primeira de tudo e a autoridade transcendente, e, ao mesmo tempo, que é bondade e solicitude amorosa para com todos os seus filhos. Esta ternura paternal de Deus também pode ser expressa pela imagem da maternidade (Is 66, 13; Sl 131, 2), que indica melhor a imanência de Deus, a intimidade entre Deus e a sua criatura. A linguagem da fé vai, assim, alimentar-se da experiência humana dos progenitores, que são, de certo modo, os primeiros representantes de Deus para o homem” (nº 239). Só a união da mulher com o homem é conjugal, porque apta para a geração e educação da prole. É esse amor masculino e feminino que é imagem e semelhança do amor de Deus que, embora transcendente, é simultaneamente paterno e materno.
Se Deus é pai, e não mãe, a Igreja, como o Papa Francisco gosta de recordar, é feminina, porque é a mãe misericordiosa que acolhe todos os pecadores que aceitam o seu maternal convite à conversão.