Ultrapassada a primeira metade da maratona de debates presidenciais, será justo dizer que não têm sido tão maus como seria de temer, nem tão bons como seria de desejar. Nas eleições presidenciais mais imprevisíveis e mais definidoras dos últimos 40 anos, e apesar de alguns bons desempenhos pontuais, o friso de candidatos tem provado ser exatamente aquilo que se perspetivava: o menos interessante em muitos anos. E talvez isso justifique a grande indefinição que existe a pouco mais de um mês das eleições.

Luís Marques Mendes e André Ventura, por razões muito diferentes e longe de estarem a ser brilhantes, têm sido os mais competentes nos debates. Mendes bateu-se bem com Ventura, foi muito sólido com António José Seguro e venceu por larga margem João Cotrim Figueiredo — e precisava disso mesmo para consolidar as suas hipóteses de agregar o eleitorado da AD. Falta-lhe Henrique Gouveia e Melo, mas, atendendo às falhas gritantes do almirante neste tipo de registo, não será um adversário muito exigente. Não deslumbra, não apaixona, mas não se desfaz como um castelo de cartas.

André Ventura tem estado igual a si próprio. Goste-se ou não, esgotada ou não a cassete, foi esta a fórmula que lhe deu 60 deputados nas últimas eleições legislativas. As sondagens oscilam, os números variam, os sinais são contraditórios, mas há um elemento que se vai mantendo constante: os adeptos de Ventura são os mais fiéis. Ora, se conseguir que os adeptos ponham o cachecol e vistam a camisola no dia de jogo, é bem possível que tenha um resultado próximo dos 22,76% dos votos que teve nas últimas legislativas. Seria um resultadão e é nisso que Ventura está apostado. Quem espera ver algo de muito diferente pode desistir da ideia.

Depois, tem existido uma espécie de segunda divisão. Henrique Gouveia e Melo tem oscilado entre o mau e o suficiente, demasiado preso às cábulas que leva para cada debate e às frases (supostamente) de efeito que o staff achou fazerem sentido. À partida para esta pré-campanha, ninguém sabia exatamente o que pensava o almirante. A meio desta pré-campanha, continuam todos na mesma, incluindo, muito provavelmente, o próprio almirante. Há quem diga que as performances televisivas não contam para nada e quem louve a falta de artificialidade de Gouveia e Melo. É um argumento à medida, como era a farda que lhe deu toda a popularidade. É ver se aguenta o teste das urnas.

João Cotrim Figueiredo tinha um sonho: fazer uma campanha pela positiva, com ambição, pelas ideias, com as pessoas; está a fazer uma campanha contra as sondagens, contra as televisões, contra os adversários, de queixume e de queixinhas. Na derradeira hipótese de confrontar o homem que o sistema supostamente está a privilegiar e a proteger — Luís Marques Mendes — fez uma fraca figura. A espaços, tem protagonizado bons momentos. Mas, no essencial, tem tido muitas dificuldades em aguentar o hype que criou.

Existe ainda António José Seguro, cuja luz parece cada vez menos brilhante. O antigo líder socialista parece um flautista de hamelin a quem foi dito que só podia tocar muito baixinho. Sabe para onde tem de ir, sabe o que tem de fazer (segurar o centro e arrastar a esquerda pelo voto útil), mas parece incapaz de despertar qualquer sentimento de pertença à sua candidatura. Onde tem sobrado razão, tem faltado emoção. E é muito difícil mobilizar alguém sem vender, pelo menos, um bocadinho de esperança. Talvez Seguro, ele próprio, já a tenha perdido.

Por fim, existem os outros três candidatos. Catarina Martins, que galvaniza congressos do Bloco mas não chegou aos 5% nos últimos dois atos eleitorais a que se apresentou a votos e parece correr alegremente pelo mesmo caminho; António Filipe, agora no papel de líder da resistência comunista contra o imperialismo norte-americano, a opressão de Bruxelas e o neo-liberalismo luso; e, finalmente, Jorge Pinto, figura que o Livre inventou à pressa para poder brincar às presidenciais.

Os três estão a fazer exatamente aquilo a que se propuseram: a tratar da vidinha dos respetivos partidos, a ajustar contas com o PS e a debater à vez com aquele que juram combater com todas as forças — André Ventura. Só ainda não perceberam (ou fingem que não perceberam) que o estão a ajudar, agregando ainda mais os eleitores do Chega e esmagando a única hipótese de haver um homem vagamente de esquerda na segunda volta — António José Seguro. Talvez seja isso que pretendam: ajudar a insuflar ainda mais Ventura para justificar a respetiva utilidade política. Afinal, se deu tão bons resultados no passado, o melhor mesmo é insistir.