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De um lado, é o padre Vieira, talvez porque a sua estátua não esteja num pedestal e seja mais fácil de alcançar; do outro lado, J. K. Rowling, “cancelada” pela sua crença na mulher biológica. É muito fácil indignarmo-nos, e achar que esta é a batalha final entre a civilização e a “loucura”. Também é muito fácil encolher os ombros e rir da ignorância dos activistas. Ou ser filosófico, e reflectir que não há iconoclastia mais severa do que a do tempo que, como no poema, levará o dono da Tabacaria, a tabuleta da loja, a rua, e a língua em que os versos estão escritos. Sim, podemos indignar-nos, rir ou fazer filosofia. Mas seriam apenas modos de ingenuidade. A revolução cultural em curso não é a irrupção de uma qualquer lava subterrânea de subversão. É mais um dos jogos apocalípticos através dos quais as oligarquias políticas ocidentais têm andado a disputar o poder.

Há uns meses, as manifestações eram por causa do “aquecimento global”. Há uns anos, eram contra o “capital financeiro”. Agora, são contra o “racismo”. Todas tiveram em comum duas coisas. Por um lado, assentaram no mesmo activismo de rua e de rede social da velha extrema-esquerda, como ficou agora à mostra na “zona autónoma” de Seattle (uma “comuna” à maneira parisiense do século XIX). Por outro lado, só tiveram a dimensão que tiveram porque foram apoiadas e ampliadas pelos media, pelas celebridades do espectáculo, e por uma grande parte da oligarquia política e empresarial, a começar por aqueles que gozam as suas reformas na ONU e em outras ONG. Os temas variaram, mas o método foi sempre o mesmo: denunciar a democracia, atacar a economia de mercado e lamentar a influência ocidental no mundo, como se tudo – democracia, mercado, influência ocidental – fossem simples mecanismos de discriminação racial, destruição ecológica, ou desigualdade social.

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