Miguel Macedo dispensava apresentações. Era conhecido e reconhecido por todos. Não houve quem não tenha ficado chocado com a notícia da sua morte, súbita, prematura e injusta.
A dimensão política e humana do Miguel Macedo foi, uma vez mais, evidenciada pelas reações ao seu desaparecimento. Independentemente do espetro político em que se inserem, todos os que o conheceram vieram publicamente tecer os maiores elogios à sua personalidade como príncipe da política, como homem afável, íntegro, leal e convicto das suas ideias. Alguém que sabia construir pontes e que amava o seu País, acima de tudo.
Os elogios e homenagens que lhe têm vindo a ser prestadas são mais do que merecidos. Mas há momentos em que as palavras não chegam para transmitir a grandeza do Miguel Macedo.
Foi com um choque profundo que soube da sua partida. Pensei imediatamente na sua família. O Miguel amava tanto a sua família. Mais do que político, mais do que uma figura pública, o Miguel era um marido e um pai profundamente dedicado.
Conheci-o há cerca de 30 anos. Ficámos amigos com uma enorme facilidade, apesar de, na altura, falarmos pouco. Eu era juíza, ele político. Mas havia um grande respeito mútuo. “Sempre com as devidas distâncias”, como ele fazia questão de salientar.
Quando, em 2011, o Miguel me chamou para uma reunião no Ministério da Administração Interna, já sabia ao que ia: receber um convite para liderar a Inspeção-Geral da Administração Interna. E também já tinha a resposta preparada. Seria um “não” redondo.
Nesse dia, conversámos durante quase cinco horas. Falámos de tudo. Do País, da crise que estávamos a viver, da necessidade de concretizarmos projetos estruturais, da urgência de salvar e resolver o que para ele era o mais importante: as forças e os serviços de segurança, as suas instalações e equipamentos, os bombeiros, a proteção civil. Porque, apesar do momento crítico que o País atravessava, o Miguel tinha uma profunda convicção de que havia muitos problemas que tinham de ser resolvidos, independentemente da conjuntura em que nos encontrávamos.
O Miguel era um verdadeiro homem de Estado: para ele o Ministério da Administração Interna é um Ministério de Soberania, essencial para o bem-estar dos portugueses e crucial para a segurança do Estado.
Teimosa como sempre fui, mantive o meu “não” ao convite. Expliquei que estava com vários processos importantes em mãos no Tribunal da Relação de Lisboa e que era aquilo que eu sabia fazer. Não aceitou o meu “não” e respondeu de uma forma que me deixou praticamente sem margem de manobra. “O que quero que faças também são processos. Para o bem e para o mal. Preciso de alguém na IGAI que seja totalmente independente. Um magistrado. Tudo precisa de ser fiscalizado e conto contigo para essa Missão”, disse-me, dando-me, literalmente, cinco minutos para decidir.
Apesar de ter entrado no Ministério determinada a dizer “não”, aceitei o seu convite. Não pelas cinco horas em que o Miguel falou, mas pela sua entrega à causa! Ele queria transformar tudo o que pudesse, e fazia-o de uma forma apaixonada e com um entusiamo que tornava uma recusa praticamente impossível.
Foi assim que parti para uma nova fase da minha vida, ciente que o meu contributo podia fazer a diferença. O Miguel tinha esse dom: a capacidade de transmitir uma enorme segurança, ao mesmo tempo que se mostrava permanentemente presente e apoiava tudo o que fazíamos.
Foram anos em que tudo aconteceu! Tivemos um convívio diário. E tivemos discussões diárias! Mas o seu pensamento era eloquente. Vencia-nos, não pelo cansaço, mas pelos argumentos que apresentava, sempre com uma convicção apaixonada.
A equipa que montou no Ministério da Administração Interna era incrível. E lembro-me bem das decisões do político. Ou como o Miguel costumava dizer: “Isto já está decidido politicamente. Agora vocês resolvam!” Recordo-me sempre do seu discurso direto. O timbre da sua voz ainda ecoa na minha cabeça. As suas certezas. A força com que defendia o seu pensamento.
Tenho ouvido e lido todas as palavras quem têm sido ditas e escritas sobre o Miguel Macedo: todos são unânimes em afirmar o grande político, o homem íntegro, o homem de convicções, o homem que amava o seu País.
Mas o Miguel era também um grande amigo e um grande conselheiro. Disse-me tantas vezes, “aguenta, desde que estejas a trabalhar e as pessoas sintam que também estás a transformar as suas vidas, não ouças os que mal dizem”.
Quando assumi o cargo de Ministra da Administração Interna, rejubilou com a aprovação do aumento dos suplementos das Forças de Segurança. “O maior aumento de sempre, desde o 25 de abril!”, dizia-me, entusiasmado.
Fomos falando este tempo todo. Falei com ele a semana passada: tinha chegado de Washington, onde tinha ido visitar a filha. Estava tão feliz! Começava lentamente a delinear projetos, apesar da imensa mágoa que o tinha afastado por cinco longos anos da vida pública.
Mas, mais uma vez a vida atraiçoou-o. Fica a sua querida Família. Ficam os amigos. Temos o privilégio de o Miguel ter partilhado connosco o seu pensamento. Nunca saberemos cumpri-lo como o Miguel: o homem, o político, defensor das causas públicas, marido e pai adorado, apaixonado pelo País.
Nesta despedida, quero que saibas, Miguel: estamos todos empenhados em cumprir o teu legado! Mas não conseguimos deixar de sentir que a saudade chegou cedo demais.