Na política, tal como na vida em geral, muitas vezes o que hoje é ponto assente, amanhã já não o é. Em todo o caso, se dessa imprevisibilidade fizéssemos depender as nossas opiniões, nunca tomaríamos posição sobre nada. Opinemos então tendo por base a informação de que dispomos hoje.

Ora, à data de hoje, sabemos que é certo que André Ventura é o candidato à Presidência da República apoiado pelo Chega, que é evidente que o PCP vai ter um candidato próprio (como quase sempre teve), e que é altamente provável que Marcelo Rebelo de Sousa avance com o apoio do PSD e do PS. A maior dúvida encontra-se no espaço entre o PS e o Bloco. É provável que Ana Gomes avance, sendo também possível que Marisa Matias se candidate. Podem avançar uma ou a outra ou mesmo as duas, mas em caso algum me parece que haverá um cenário em que nenhuma avance.

Se a Esquerda, como de costume, vai acabar por se ver significativamente representada nas várias candidaturas que surgirem, a conversa muda de tom à Direita.

O apoio (ainda que tácito) do PS ao atual Presidente da República funcionará como uma manta curta que não estica, uma manta que, se tapa a cabeça, destapa os pés, ou vice-versa. Obtendo o apoio do PS, Marcelo é puxado para o centrão e certamente perderá votos à Direita. A Direita que, se já se contorcia de dores perante a possibilidade de votar numa pessoa que tão bem conviveu durante 5 anos com o Executivo socialista, mais ainda se recusará a votar nessa pessoa sendo a mesma apoiada pelo PS. Aliás, a única vez em que a Direita e o PS apoiaram o mesmo candidato foi nas primeiras eleições presidenciais em Democracia, em 1976, quando Ramalho Eanes conseguiu a proeza de ser apoiado por partidos tão diferentes como o CDS e o PCTP/MRPP.

Há assim uma parte significativa do eleitorado que, recordando-se da canção celebrizada pelo ícone musical Ruth Marlene, olha para a esquerda e vê Marcelo e olha para a direita e vê Ventura.

É este espaço ocupado pela Direita democrática que, órfão de candidato, se deixará encantar pela Medusa da Direita que, de democrática e apologista do Estado de Direito, pouco tem.

Ora, há um partido que pode evitar que este eleitorado se transforme em pedra, tal como acontecia àqueles que olhavam para Medusa da mitologia grega. Esse partido é o CDS.

Na sua história o CDS quase sempre andou a reboque do PSD no que toca a eleições presidenciais. Em 9 eleições, apenas por 2 ocasiões o CDS apoiou um candidato filiado no partido.

Se em 1986, o CDS apoiou Freitas do Amaral que, contando também com o apoio do PSD, não ganhou as eleições por pouco (tendo até vencido a 1ª volta), já em 1991, o CDS promoveu a candidatura de Basílio Horta que, não sendo apoiado pelo PSD, não chegou aos 15%.

Curiosamente, em ambas as ocasiões, o adversário era Mário Soares e, de forma não menos curiosa, os candidatos então apoiados pelo CDS acabaram por migrar para o campo político socialista onde foram muito bem acolhidos (Freitas do Amaral veio a ser ministro dos Negócios Estrangeiros de um governo PS e Basílio Horta é hoje Presidente da Câmara Municipal de Sintra eleito pelos socialistas).

Apesar de ter sido pouco afortunada, é precisamente na candidatura de 1991 que o CDS deve basear a sua atuação, desta feita. Urge lançar uma candidatura que, resolvendo os anseios desta Direita desamparada, a impeça de contribuir para o sucesso de Ventura, sendo que como “sucesso” deve ler-se qualquer resultado que lhe permita ser o 2º mais votado ou ter mais de 10% dos votos.

O êxito de Ventura será sempre o nosso insucesso, enquanto país democrático, inclusivo, respeitador da diferença, defensor de direitos, liberdades e garantias a todos os cidadãos independentemente da sua origem.

Será o CDS capaz disso? À partida teria todas as condições para o fazer perante um PSD pouco interventivo e bastante propenso a acordos com o PS, deixando toda a Direita séria livre para quem a quiser apanhar.

Mas a realidade mostra coisa diferente. Mostra um CDS sem iniciativas legislativas oportunas e convincentes, um partido sem uma voz forte e carente de dinamismo, com um líder ausente da Assembleia da República (porque não foi eleito ainda antes de ser líder) que se vê forçado a delegar em Telmo Correia.

Um partido que apenas consegue aparecer nas notícias quando o seu Presidente simula um discurso dirigido aos concorrentes do Big Brother numa entrevista a uma plataforma de desinformação (segundo critérios do Media Lab do ISCTE-IUL), quando vocifera contra a realização das cerimónias do 25 de Abril no Parlamento, ou sempre que Nuno Melo tem epifanias no Twitter, como quando fez um absurdo alarido à volta do vídeo de Rui Tavares na telescola.

É pouco, para ser simpático.

O CDS terá de encarar estas eleições como uma oportunidade, a última. Uma candidatura no espaço deste partido poderia salvá-lo da mais profunda irrelevância para a qual parece correr com a passada de Usain Bolt, tendo ainda o efeito (até mais importante) de impedir a construção de uma plataforma de apoio significativo ao movimento crescente de extrema-direita em Portugal.

Veremos se o CDS terá unhas para tocar esta guitarra.