Neste país relativamente monótono e previsível, não terá havido nos últimos tempos um momento tão marcante (e preocupante) para o futuro da política nacional como aquele que teve lugar nos Açores, na sequência das eleições legislativas regionais.

Tendo em vista a formação do Governo Regional dos Açores com apoio maioritário na Assembleia, o PSD chegou a acordo com o CDS, o PPM, a Iniciativa Liberal e o Chega.

É precisamente o acordo com este último, que suscita a maior das perplexidades. Os termos do acordo são já si sui generis, tendo em consideração que o PSD aceita a proposta do Chega para acabar com a “subsidiodependência” no arquipélago, uma das regiões mais pobres do país, numa altura em que, mais do que nunca, milhares de portugueses precisam de apoio do Estado para sobreviverem. O PSD evidencia, assim, um distúrbio de personalidade confrangedor, já que na Assembleia da República clama por mais apoios e na Assembleia Legislativa Regional clamará por menos.

No entanto, mais do que os termos do acordo em si, o que é especialmente censurável é a disponibilidade do PSD para esta espécie de joint venture com o Chega, cujo líder disse, em Agosto, e cito, “por muito que nos ofereçam lugares ou lugarinhos, a força do Chega será sempre a força de denunciar o que está mal. Por isso aqui fica a resposta: Rui Rio, não obrigado, não queremos nem aceitamos” e acrescentou :“Então o CDS tem de levar a mesma resposta que damos ao PSD: não obrigado e não queremos, fiquem com a vossa insignificância!”

Diz, quem defende este acordo, que o PS fez o mesmo com os partidos à sua esquerda em 2015, quando, tendo também perdido as eleições, formou Governo com o apoio parlamentar do Bloco de Esquerda e do PCP, partidos de “extrema-esquerda”.

Quem recorre a esta argumentação incorre em vários erros.

Desde logo, cabe recordar que, quando tal aconteceu, a narrativa de PSD e CDS foi a de que o PS havia incumprido o costume, segundo o qual governa quem ganha as eleições. A cassete do queixume durou meses – importa lembrar, para os mais esquecidos – e só terminou com a saída dos líderes de ambos os partidos. Se na altura era mau formar Governo sem ter sido o partido mais votado, agora já é bom?

Por outro lado, clarifique-se: o problema, aqui, não é o facto de ter sido o segundo partido mais votado nos Açores a tentar formar Governo. Nada há a obstar a essa solução. O problema são mesmo as companhias.

E sobre as companhias, desmistifique-se mais um erro daqueles que invocam o sucedido em 2015 para justificar a solução agora adotada. Lá por se sentarem em pontas opostas do Parlamento, PCP/Bloco não são o espelho do Chega.

Pese embora a sua matriz ideológica, PCP e Bloco são hoje partidos completamente integrados no sistema, que não põem em causa direitos, liberdades e garantias e, aliás, em diversas ocasiões participaram de forma ativa na construção daquele que é hoje o quadro normativo vigente em Portugal.

Para dar alguns exemplos: PSD e PCP (entre outros) aprovaram a Constituição da República Portuguesa, a criação da CPLP, a adesão de Portugal à Convenção Europeia dos Direitos Humanos e à Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial e, ainda (ironia das ironias), o Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, entre outros diplomas que hoje regulam a nossa sociedade.

É, aliás, curioso que, em 2001, quando era Presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Rio atribuiu um pelouro ao candidato comunista de então. Suponho que a radicalização do PCP apenas começou depois.

Por sua vez, o Bloco tem tido voz ativa na eliminação da discriminação racial e baseada na orientação sexual e no género.

Comparar estes partidos com um partido anti-sistema, oportunista, populista, conflituoso, de extrema-direita, xenófobo, racista (sempre conforme o que lhe for mais conveniente em função das circunstâncias), entre outros epítetos que o caro leitor encontrará na secção de coisas ruins da sua enciclopédia, é manifestamente descabido.

Ora, a verdade é que os Açores funcionarão como uma espécie de tubo de ensaio para aquilo que há-de vir a nível nacional. É hoje claro, que em futuras eleições legislativas, caso o PSD precise do Chega para formar Governo, a ele recorrerá e às suas vontades se sujeitará. É esta a caixa de Rio, que tal como Pandora não resistiu ao ensejo de a abrir e de libertar no mundo os males que ela continha. Diz quem sabe, que ao menos Pandora não fora motivada por ambição política desmedida.

Não deixa de ser extraordinário que o PSD tome esta decisão, logo o partido que não hesita em lançar mão a Sá Carneiro quando lhe convém afirmar-se social-democrata. Sá Carneiro, que em 1974, em entrevista ao DN, quando questionado sobre a posição do então PPD face a partidos da direita que viessem a ganhar representatividade, disse que “se por partido da direita entende o que congrega as forças reacionárias que hostilizam os princípios democráticos, não será sequer possível o seu reconhecimento”.

Além de não ter aprendido nada com a história, o PSD ignorou também os exemplos do estrangeiro, como o da nossa vizinha Espanha, na qual o PP, que outrora dera a mão ao VOX, o enxotou como um cão com pulgas na votação da moção de censura proposta por este último. Talvez fosse boa ideia convidar Pablo Casado para dar aulas na Universidade de Verão do partido.

Mais do que dar um tiro no próprio pé, o PSD conseguiu pôr tudo em causa no que toca ao xadrez político-partidário com uma especial perversidade: passou a estar implícito, que votar num dos partidos com o qual os portugueses contam para a alternância de poder é estender o tapete vermelho à extrema-direita.

A verdade, é que “amanhã” os portugueses serão confrontados com uma de duas hipóteses: ou o PS se vai eternizando no poder sem maioria absoluta, ou o PSD vai para o Governo com apoio (ou até, quem sabe, participação) do Chega.

Pior seria difícil.