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Tenho sempre uma enorme resistência em falar da pandemia. Primeiro, pela óbvia razão que, modéstia de lado, sei bastante da física dos processos multiplicativos, mas não do processo multiplicativo que é a transmissão deste vírus em concreto que, podendo ir pelo ar condicionado é uma “física” e, não podendo, é outra completamente diferente. Segundo, porque há uma guerra a ser travada que temos de aceitar que existe e, com ela, um estado de exceção num país que já de si é democrático apenas em alguns dias da semana. Se fosse uma guerra com Espanha, não daríamos uma espingarda a todo o maluco que a quisesse. Numa guerra com um vírus não aceitamos a opinião de qualquer maluco que se tornou bioquímico em duas semanas, incluindo este que vos escreve.

À semelhança de boa parte dos meus concidadãos e colegas, fiquei chocado – não ficaria bem usar a palavra adequada – com o facto indesmentível que passado quase um ano das primeiras notícias sobre a vaga de infeções na Europa, a resposta das autoridades portuguesas fosse exatamente a mesma que teve em março de 2020. O que significaria que, quem tem a decisão administrativa final sobre as ações a tomar aprendeu zero num ano. E se não sabíamos nada no início, significa que nada sabemos agora. Ora esta é uma injustiça que não posso, em consciência, aceitar porque acredito que, por muito incompetente ou incapaz que um detentor de um cargo público possa ser, ele acreditará, no seu íntimo, que estará a fazer o melhor para o país. Isto significa que este ano terá sido tão mau para ele como para o resto dos Portugueses. A verdade, no entanto, é que para quem não aprende, todas as vagas são a primeira. O problema que coloco à reflexão é o seguinte: “Afinal, quem é que não aprendeu?”.

Toda esta situação remete-me para o episódio da construção da primeira bomba atómica nos EUA que, por curiosidade, se baseia num processo físico semelhante à propagação deste vírus. Como se deve imaginar, o conhecimento na altura da reação nuclear por fissão do átomo era ainda um pouco ténue, apesar de teoricamente estar razoavelmente avançado na Alemanha, em Inglaterra e também nos EUA, embora por um caminho diferente. Tal significa que o estágio do conhecimento existente era muito baixo quando comparado com o habitual desenvolvimento de uma arma. Se calhar, não fosse o caso de a Alemanha estar tão avançada na Física da altura (e ainda hoje) e nunca os EUA se teriam metido naquela aventura. A verdade é que, tal como nos aconteceu agora com a Covid, face às circunstâncias, a coisa deixou de ser opcional e teve mesmo que se fazer.

O projeto de desenvolvimento, talvez ainda hoje o maior de toda a história, consistia – para não ter de entrar em grandes detalhes – em partir de uma peça bastante sólida de teoria, desenvolver experiências que o demonstrassem e, no fim, tirar dali um “produto”, isto é, uma coisa que não precisasse que fosse Enrico Fermi em pessoa a deitá-la no Japão. O presidente dos EUA designou o general Leslie Groves para gerir todo o projeto. Este, sabendo como cientistas e militares se dão tão bem, encontrou um gestor da parte científica do projeto – J. Robert Oppenheimer – para não ter de lidar com as mentes complicadas de tantos e tão ilustres físicos, os mais dotados de todos os que estavam fora da Alemanha. Uma vez resolvida a parte científica numa das muitas equipas, foi preciso “montar” o produto. Isto para dizer que com tantas e tão boas cabeças de volta do problema, seria uma questão de tempo até chegar à solução científica. Bem mais complicado seria transformar essa solução científica numa solução de engenharia e isto nunca se conseguiria fazer se não fosse feito por cabeças que soubessem gerir todo o problema, desde a base científica até à produtização final. Para fazer a bomba, o fundamental era conseguir quantidades de plutónio numa escala inimaginável na altura. E nesta fase, Groves sabendo das suas próprias limitações, e da impossibilidade de chegar a algum lado com umas centenas de cientistas a opinar ao mesmo tempo, foi buscar uma empresa que já tinha feito um produto desde o zero científico ao produto final. A empresa era a E.I. Du Pont de Nemours & Co (hoje DuPont) e o produto era o nylon. O resto da história já sabem como acaba.

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A moral que quero retirar daqui, é que para que o conhecimento resulte nalguma coisa, tem de ser gerido e liderado por quem o saiba fazer. Quando olhamos para a forma como nós, Portugueses, temos encarado a guerra da Covid, não há forma de criticar cada uma das vertentes do combate. Os médicos/autoridades de saúde já muito aprenderam, quer na organização das equipas, quer na forma de lidar com os pacientes em termos terapêuticos. Os bioquímicos já resolveram o problema da vacina e dos testes e até, pelo meio, desenvolveram novas formas de aceitação de novas vacinas que não existiam antes. E os epidemiologistas já sabem o que é a unidade atómica do contágio, aquilo que podemos associar à passagem do vírus de uma pessoa para outra: dois metros a mais de 15 minutos. Deixem-me acrescentar que, embora fosse muito melhor não termos precisado disto, qualquer um destes passos é absolutamente notável no tempo em que foi feito.

Mas a nossa perceção é que não há qualquer ligação entre estes feitos científicos notáveis e o seu resultado em termos de medidas administrativas. Se houvesse, as medidas de janeiro de 2021 não seriam iguais àquelas que foram tomadas 320 dias antes. Posso estar a ser injusto, admito, mas a realidade é esta. Aquilo que passa é que continuam a coexistir “cientistas de exponenciais” em reuniões com decisores políticos, e que vêm para a televisão dar previsões mirabolantes do andamento dos contágios, e medidas que continuam a ser, aparentemente, direcionadas pelo vento, revelando que, se há peça que falta nisto tudo, é uma E.I. Du Pont de Nemours & Co.

Repare-se, que já no lançamento da defunta app, a “unidade atómica” de contágio era referida: “Menos de dois metros por mais de 15 minutos”. Um contacto que dá origem a um contágio é estar com alguém a menos de dois metros por mais de 15 minutos e essa é a nossa unidade. Por outras palavras, no instante em que escrevo, existiram no mundo 108.687.660 pessoas que estiveram “a menos de dois metros por mais de 15 minutos” com alguém infetado.

Alguém, alguma vez, em todo o texto legal produzido de regulamentação da DGS, de decretos presidenciais ou do Governo, leu “menos de dois metros por mais de 15 minutos”? Quantas pessoas, daquelas que me estão a ler, no seu dia a dia têm a preocupação de nunca estar “a menos de dois metros por mais de 15 minutos”?  O facto é que não há nenhuma medida suportada nesta “unidade atómica”. Isto é aquilo que, de acordo com os cientistas credíveis do mundo inteiro, constitui o necessário para um contágio, mas, curiosamente, não há um único decreto que refira isto. E esta é a única descoberta científica que, de facto, poderia ser implementada pelo poder político. As escolas não foram fechadas por estarem “a menos de dois metros por mais de 15 minutos”. A abertura ou fecho do que quer que seja, não são baseados nesta unidade. Fecham-se praias e perseguem-se surfistas, tenistas e golfistas quando nada, absolutamente nada nestas atividades provoca esse contacto. Noutras palavras, o principal resultado científico que poderia contribuir para a tomada de medidas é completamente ignorado. E, no entanto, as maiores figuras do Estado envolvem-se em reuniões periódicas com cientistas, recebem comunicações sobre as quais não têm conhecimento para avaliar criticamente – nem lhes é pedido que tenham. Mas nunca saíram de lá a dizer que precisamos de evitar que as pessoas se mantenham “a menos de dois metros por mais de 15 minutos”. Não é preciso mais “ciência” daquela que sai dali, basta que se comece a implementar, a fazer a engenharia, daquela que já tínhamos e que é sólida.

Mais, um processo de engenharia é um processo de aplicação de conhecimento científico, mas há, principalmente, um processo de assimilação de erros. É passar da ignorância inicial e aplicar ciência dentro dos limites práticos do possível. Ainda que “a menos de dois metros por mais de 15 minutos” possa não estar inteiramente certo, a sua alteração é simples se estivermos focados em implementar a solução. Claro que se só estivermos preocupados em fazer durar a situação, não! Mas não acredito que seja o caso.

Se tudo funciona bem, mas o resultado é mau, então falta alguma coisa. E o que falta é alguém(s) que faça a gestão de um projeto de engenharia que implemente o conhecimento científico, e não políticos que vão para reuniões com cientistas a darem-lhes “ciência” nova todos os dias que nunca conseguirão interpretar. Contratem uma empresa que o saiba fazer, sai mais barato de certeza do que ter autarcas gestores de esgotos e arruamentos, com cursos de contabilista, a fazer leis de xerife do faroeste e a perseguir crianças de prancha de surf por mais um ano. Até porque a bomba atómica deve estar quase a rebentar e, nessa altura, vai ser muito mais difícil.