Eutanásia

A vida é para viver

Autor
  • Rita Fontoura
143

Então afinal o que queremos? Uma sociedade sem idosos, sem deficientes e sem acamados? Será a nova forma de apuramento da raça? Que motivação estará por trás de tudo isto?

Antigamente, mas não há tanto tempo assim, identificava-se um certo grupo de pessoas como os anormais: eram os coxos, os cegos, os manetas, os mongolóides, etc. A evolução dos tempos trouxe um olhar diferente sobre estas pessoas e foi imposta, para garantir uma postura de respeito, uma nova linguagem. Passámos a ter o grupo dos deficientes: invisuais, pessoas com mobilidade condicionada, pessoas com trissomia 21. Pensávamos ter assim aperfeiçoado o nosso olhar sobre os outros. Acontece que quando se mudam palavras e não se mudam corações, a mudança é vã e foi o que aconteceu. Hoje todos aqueles que nasceram com alguma das deficiências que referi, se tivessem sido escrutinados numa ecografia, podiam ter sido eliminados antes de terem posto os olhos no mundo.

Também há muito tempo atrás se morria de velho ou de “um ar que lhe deu”. Então a ciência procurou saber mais sobre a velhice e até passou a chamar aos velhos idosos ou grupo da idade de ouro. Descobriram-se muitas causas de morte que passaram a ser atempadamente tratadas e com isto conquistou-se longevidade e qualidade de vida. Infelizmente talvez a motivação tenha sido a curiosidade própria dos investigadores, desassociada do desejo de amar o próximo. O que é certo é que agora que finalmente temos tantos tratamentos, que descobrimos forma de dar uma vida digna aos mais velhos, vem a sociedade propor uma “morte digna” para esses que beneficiam da longevidade que a ciência lhes proporcionou. Ora a morte é uma condição do nosso corpo, já a vida sim pode e deve ser digna.

Temos ainda aqueles casos que todos conhecemos de pessoas que na força da vida, por causa de um desastre, ficaram agarradas a uma cama ou a uma cadeira de rodas. Para esses também a ciência tem trazido grandes surpresas e muitos são os casos daqueles que já nada esperavam do seu corpo mas que afinal voltaram a andar. A avaliar pelo avanço galopante da ciência, já não podemos dizer que não será possível aquilo que hoje é até impensável. Portanto, para todos esses casos, já existem boas razões para ter esperança. Mais uma vez, quando chegamos ao patamar da esperança, vem a sociedade propor aos que antes desesperavam, que desistam, que escolham morrer antes de chegar a sua cura!

Então afinal o que queremos? Uma sociedade sem idosos, sem deficientes e sem acamados? Será a nova forma de apuramento da raça? Que motivação estará por trás de tudo isto?

Tudo o que fazemos seja na área científica, da indústria, da tecnologia, ou das ciências sociais deve ter um único propósito: o amor ao próximo. Se o que fazemos não promove a sociedade em que vivemos, então mais tarde ou mais cedo, voltar-se-á contra nós.

As recentes notícias sobre os projectos de lei favoráveis à Eutanásia são um exemplo do que acabo de explicar. Cada vez mais somos sedentos de viver, de bem-estar e de emoções. Por essa razão perdemos até um pouco o sentido de família porque a família dá trabalho e muitos optam por relações efémeras que não tragam consigo obrigações para a vida. E como responde o estado a toda a nossa eforia de viver? Com soluções para morrermos!

No programa prós e contras de dia 9 os que defendiam o direito a ser morto diziam que isso era a defesa da liberdade individual. No âmbito da vida, devemos garantir que somos livres para fazer escolhas na nossa vida e ainda assim não podemos fazer qualquer escolha. A sociedade tem regras de respeito uns pelos outros e de deveres uns para com os outros. Dizer às pessoas que em determinadas circunstâncias podem ser mortas por outras a seu pedido, não é garantir a sua liberdade mas sim condicioná-la. É colocar no prato da balança uma opção que condiciona quem possa pensar que é um fardo para os outros, é compactuar com o desespero do doente em vez de lhe transmitir uma mensagem de esperança. Se é certo que as pessoas em causa já têm uma sentença de morte, isso não as distingue das outras já que todos nós vamos morrer. A diferença é que para os “eutanasiáveis” a data provável da morte é conhecida e próxima. Então quando a data é conhecida e próxima já não há lugar à felicidade? Quem pode afirmar tal aberração

Não nos deixemos ir nesta conversa. A Vida é para Viver!

Nota: foi recentemente disponibilizado um site muito esclarecedor sobre este tema que a todos aconselho: Toda a Vida tem Dignidade.

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