Vivemos num mundo de necessidades múltiplas, onde infelizmente os recursos são limitados. Isto implica que cada um de nós, individual ou coletivamente, seja obrigado a fazer escolhas. No entanto, em discussões sobre a sustentabilidade do sistema de Saúde, muitos (mas mesmo muitos!) insistem que “as pessoas não são números”, que “a vida tem de ser salva, custe o que custar”, ou ainda que “a saúde não tem preço”. Apesar de serem proclamações nobres, estes são argumentos dogmáticos facilmente refutados pela realidade.

Todos os dias calculamos o preço da vida humana, mesmo que inconscientemente. Este pode ser definido de forma explícita, por exemplo quando um juiz decide o valor de uma indemnização num acidente (em função de certo grau de incapacidade), ou quando um polícia aceita uma subsídio de risco para exercer as suas funções (devido à maior probabilidade de dano físico). Pode ainda ser determinado indiretamente, quando adotamos “comportamentos de risco”: ao fumar um cigarro, ao ter uma alimentação pouco saudável, ou ao exceder limites de velocidade. Nestes exemplos “trocamos” unidades de prazer presente (utilidade, como lhe chamam os economistas) por anos de vida futura. Estas são escolhas que cada um realiza segundo preferências individuais e estimativas pessoais sobre o preço da sua vida.

A Saúde é provavelmente a área onde este exercício é realizado de forma mais regular. Suponhamos que existe um medicamento que permite reduzir a sua mortalidade em 1% (resultados garantidos) e que custa €25 por mês. Assumindo que tem este montante disponível (ou que o podia reduzir em gastos supérfluos), estaria disposto a comprar o produto? A conta é simples: se começasse a tomar o medicamento desde o seu primeiro ano, a sua esperança média de vida (81,5 anos, ou seja, 978 meses) aumentaria em ~10 meses. Durante a sua vida pagaria um total de ~€25.000 (€25 * 12 meses * 81,5 anos), o que significa que cada ano de vida adicional implicaria um custo de ~€30.000. Sendo assim, uma vida média de 81,5 anos estaria associada a uma “avaliação” de ~€2,5 MM (milhões de euros). Portanto, se a sua resposta foi “sim”, para si a sua vida vale este preço (ou mais); se pelo contrário disse que “não”, a sua avaliação da vida é menor do que €2.5 MM.

Naturalmente o leitor poderá argumentar que esta é uma análise demasiado simplista: um ano de vida aos 80 não tem a mesma qualidade do que aos 30, dado o número de doenças associadas. Ou ainda, poderá dizer que o valor presente e certo da vida atual (ou do rendimento) não pode ter a mesma ponderação do que o valor futuro e incerto da nossa condição (por exemplo, quem nos pode garantir que existirá planeta Terra daqui a 50 anos?). Essa é toda uma discussão legítima, que por limitação de espaço não pode ser aqui abordada (caso tenha interesse, pode ler sobre o cálculo do valor da vida em Economia da Saúde neste artigo ou analisar estimativas reais nesta tabela). Para este efeito teremos de nos contentar com a simplificação da realidade.

A avaliação do preço da vida humana é particularmente importante no contexto de uma pandemia. É relativamente óbvio que medidas sanitárias de contenção têm um impacto negativo na economia e, portanto, no dia-a-dia de cada cidadão. No entanto, não é consensual a definição dos limites de até onde podemos ir — é legítimo fechar a economia de forma abrupta para salvar centenas de vidas, mas com isso prejudicar diretamente a vida de milhões de pessoas? Naturalmente que a resposta será sempre “depende”. Depende do resultado e depende do esforço (ou seja, de uma análise custo-benefício), como vários economistas têm recentemente tentado estimar (caso do estudo de março publicado por Sérgio Rebelo). Tal como escrevi no início, é tudo uma questão de escolhas.

Para avaliar esta questão proponho um exercício teórico: qual terá sido o custo-benefício das medidas restritivas aplicadas em Portugal? Esta é uma pergunta à qual provavelmente nunca vamos ter uma resposta certa. No entanto, os nossos decisores precisam de fazer escolhas concretas num contexto de informação imperfeita. Dada a dificuldade em avaliar um contrafactual (jargão de economista para a “hipótese alternativa”) sugiro que analisemos a experiência de outros países. A Suécia é um caso particularmente interessante: por um lado, o confinamento obrigatório nunca foi imposto; por outro, a população é de cerca de 10 milhões, aproximadamente o mesmo número que Portugal.

Para efetuar a comparação entre os dois países precisamos de alguns dados adicionais. Primeiro, de acordo com informação de agosto, a Suécia sofreu um total de 5821 mortos, enquanto Portugal se ficou pelos 1819 — ou seja, uma diferença de 4000 vidas. Segundo, nas previsões de julho da Comissão Europeia é prevista uma recessão de 5,3% na Suécia, enquanto que em Portugal esta pode vir a atingir 9,8% — ou seja, uma diferença de 4,5% do PIB. Por fim, note-se que um estudo de agosto realizado pela Capital Economics estima que caso a Suécia tivesse adotado restrições com uma severidade semelhante à dos restantes países europeus, ter-se-ia observado aproximadamente o dobro da quebra económica.

Assim, caso o leitor considere legítima esta simplificação, os dados sugerem que Portugal, ao contrário da Suécia, esteve disposto a “sacrificar” ~4.5% da economia para “salvar” 4000 vidas. Uma conta simples leva-nos a concluir que o “preço da vida humana” nacional terá andado à volta dos €2.5 MM (€212.000 MM PIB * 4.5% recessão / 4000 vidas) — este foi o custo da ‘escolha coletiva’ que decidimos suportar enquanto sociedade (e que equivale precisamente ao preço implícito da ‘escolha individual’ de um potencial medicamento, que mencionei no início do artigo). Esta conclusão assume naturalmente, uma série de pressupostos que não é possível ultrapassar num artigo de opinião — a estrutura económica dos dois países é diferente, a capacidade de resposta dos serviços de saúde é distinta, a prevalência de lares de idosos não é semelhante, entre muitos outros aspetos.

Os próximos meses serão marcados muito provavelmente por uma segunda vaga da Covid-19, tal como previsto por vários modelos epidemiológicos (por exemplo, pode consultar o Pandemic Navigator da Oliver Wyman). Portanto, até que uma vacina seja aprovada e aplicada em grande parte da população, a questão fundamental que os nossos decisores terão de resolver vai ser: quanto é que coletivamente estamos dispostos a pagar enquanto sociedade para salvar o maior número de vidas? Isso implica que o leitor comece por calcular o seu valor, e depois aceitar que os outros possam fazer uma avaliação semelhante. A vida humana tem mesmo um preço. Qual é o seu?

Tiago Espinhaço Gomes tem 33 anos e é consultor de serviços financeiros na Oliver Wyman desde 2016. Anteriormente foi economista no Conselho das Finanças Públicas (2013-2016), assessor do ministro das Finanças durante o programa de ajustamento económico (2011-2013), e consultor de gestão na McKinsey & Company (2009-2011). É licenciado em Economia pela Faculdade de Economia do Porto.

O Observador associa-se ao Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial, para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. O artigo representa a opinião pessoal do autor, enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.