A escola mudou. Os tempos mudaram. A sociedade mudou. Não há volta atrás.
Escreveu o poeta maior, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…”, e tal como a água limpa de nascente, esta é uma verdade dos sistemas educacionais dos países desenvolvidos.
Do pouco que permanece inalterado nas escolas é a vontade em ensinar por parte dos docentes; esta sim, mantém-se verdade absoluta.
Como ator em ação numa escola portuguesa, não posso negar o desligamento que existe entre a mudança e a vontade. Se uns querem ensinar, há poucos que querem aprender, enquanto noutras ocasiões há quem queira aprender e são poucos os que estão dispostos a diferenciar e otimizar o processo de ensino-aprendizagem.
Pais, alunos, assistentes, professores e diretores deparam-se todos os dias com incontáveis situações onde por vezes apenas algum senso comum e resiliência superam muros construídos ao longo de anos onde as políticas educativas trabalharam para indicadores e não para o miolo da escola, a sala de aula.
Currículos extensos nuns casos, simplistas e vagos noutros, as aprendizagens essenciais não parecem ter trazido o pragmatismo e foco desejado aquando da sua chegada às escolas. A flexibilidade parece ter tornado as escolas numa espécie de bolas terapêuticas de relaxamento, sendo boas para treinar movimentos, mas não curando os problemas do doente, que neste caso, é o tempo escasso para a articulação horizontal e vertical.
No fundo, torna-se mais complexo e burocrático uma qualquer ideia de trabalho colaborativo entre docentes e turmas, que é preferível encolher e desistir, qual pangolim escudado na sua capa de escamas.
A temática da escola em Portugal, muito politizada e base de armas de arremesso ao longo de várias décadas deve ser olhada de forma estrutural, como um pilar de sustentação da sociedade e economia de futuro. Em termos comparativos com gerações anteriores, conquistamos a escolaridade obrigatória, a universalidade geográfica da escola no país, mas perdeu-se a identidade de uma escola de referência que ensina o que deve ser aprendido numa cada vez mais complexo mundo em mudança e determinadas situações alunos terminam seus percursos sem realmente terem apreendido os conhecimentos devidos. Temáticas como a literacia financeira, conhecimentos básicos de culinária, conceitos básicos de segurança informática e rodoviária são tão ou mais importantes que saber resolver uma equação de 2ºgrau ou os past continuous do verbo To Be. Na verdade, a escola tem de permitir que o essencial seja o realmente apreendido e não apenas o planificado.
Vemos em vários países da Europa Liberal que a confiança na escola é de tal forma inabalável que as barreiras físicas que separam o mundo escolar da sociedade em geral são apenas jardins. As escolas gracejam com toda a autonomia curricular e financeira, que lhes permite escolher os melhores professores, comprar os materiais que necessitam e adequar o currículo ao seu universo de alunos e famílias.
Qual cerca que separa muros, a escola portuguesa está impregnada de burocracias e encapsulada numa autonomia vaga e meramente discricionária. Professores e diretores vêem-se incapacitados de decidir o mais adequado para as suas realidades dado o pendor centralista da máquina ministerial em matérias de diversa natureza.
Pensemos global, planifiquemos no central, atuemos no local, e coloquemos em prioridade um ensino-aprendizagem mais focado na realidade atual, tendo como cenário uma sociedade mais inclusiva, humanista, globalista e conectada.