A violência doméstica não escolhe classe social, profissão ou posição política. Ela  atravessa fronteiras que deveriam ser intransponíveis, afetando desde o cidadão comum  até os que ocupam as mais altas esferas do poder. O que tem vindo a acontecer, tanto  nos casos quotidianos como nos mais visíveis e escandalosos envolvendo figuras  públicas, revela uma verdade desconfortante: a violência doméstica é um problema  sistémico, e as suas raízes estão profundamente entranhadas na nossa cultura, nas nossas  instituições e nas nossas normas sociais.

Nos casos que envolvem cidadãos comuns, a dor é muitas vezes invisível. Vítimas de  todas as idades, géneros e origens são deixadas à margem, no silêncio, com medo de  denunciar ou de pedir ajuda. As agressões podem começar subtilmente, com palavras  que ferem mais que qualquer soco, mas à medida que o tempo passa, a violência torna-se física, emocional e psicológica. E a sociedade, por vezes, assiste impotente,  normalizando o abuso por detrás das portas fechadas. O estigma social, o medo da  retaliação e a dependência económica são barreiras que tornam o ciclo ainda mais difícil  de quebrar.

Mas o que acontece quando o agressor é alguém em posição de poder? Quando, uma  pessoa pública, alguém que deveria ser exemplo, se torna protagonista de um episódio  de violência doméstica? Os casos que vieram à tona nos últimos anos são um reflexo  assustador de como a impunidade e a desvalorização do problema podem ter um  impacto devastador. Quando um político é acusado de violência doméstica, a situação  torna-se ainda mais complexa. Não se trata apenas de uma questão pessoal ou privada  — trata-se de um desrespeito pelos valores democráticos, pelos direitos humanos e,  acima de tudo, pela confiança que a sociedade deposita nos seus representantes.

Os casos de figuras públicas envolvidas em violência doméstica colocam uma questão  ética e política muito séria. Afinal, quem tem o poder de legislar, de definir políticas  públicas, deve ser também um modelo de comportamentos que promova a dignidade  humana, a igualdade e o respeito. Quando esses valores são quebrados no espaço  privado, a confiança pública é fragilizada. E o que é ainda mais alarmante: muitas  vezes, os políticos envolvidos em tais escândalos não enfrentam as consequências  adequadas. A impunidade prevalece, seja devido à sua posição, seja pela falta de  coragem das instituições em agir de forma exemplar.

Esta realidade só reforça a necessidade de uma abordagem multifacetada ao problema.  A violência doméstica não deve ser apenas uma questão de sensibilização ou de apoio  psicológico para as vítimas — ela deve ser tratada com a gravidade que exige no campo  da justiça. Nenhum agressor, seja ele um cidadão comum ou um político, deve escapar  às consequências de seus atos. As leis devem ser aplicadas de forma rigorosa, sem  qualquer exceção ou perdão. É inadmissível que um agressor se esconda atrás de  privilégios ou da sua posição social.

Enquanto isso, a psicologia deve continuar a desempenhar um papel vital, mas não  suficiente por si só. O trabalho de intervenção, de apoio psicológico e de educação nas  escolas, nas famílias e nas comunidades precisa ser intensificado para evitar que o ciclo  de violência se perpetue. Mas a sociedade precisa ser clara sobre uma coisa: a violência  doméstica é crime, e como tal, deve ser tratada. Da vítima silenciosa ao político de  renome, não há lugar para tolerância ou complacência.

A mudança passa por uma revolução cultural, onde a vítima é sempre a prioridade, e  onde os agressores enfrentam a punição devida, sem qualquer tipo de desculpa ou  manipulação. O combate à violência doméstica precisa de uma resposta firme, imparcial  e de zero tolerância, para que, no futuro, possamos olhar para trás e ver que, finalmente,  a justiça foi feita para todos — sem exceções, sem distinções.