Nas férias da Páscoa levei a minha família a África. Os meus filhos nunca tinham viajado para nenhum sítio tão exótico e achei que o convívio com uma cultura diferente lhes ia fazer bem, habituados que estão à moleza da civilização europeia. Não me enganei. O choque foi imediato. Logo no aeroporto de Joanesburgo, onde apanhámos o voo de ligação para o Zimbabué, foram confrontados com uma forma diferente de fazer as coisas.

No controlo de segurança do aeroporto, ao passarmos os nossos pertences no raio X, a mochila do meu filho mais novo ficou retida. A funcionária perguntou se podia abri-la e eu tive de concordar, enquanto pensava receosamente “queres ver que o sacana do puto trouxe uma tesoura ou assim?” Mas, não, eram só os brinquedos de animais dele. A senhora foi esvaziando a mochila, enquanto dizia: “Este elefante passa. A cobra, não. O búfalo, sim. O crocodilo, não. A zebra, sim. O dinossauro, não”. No fim, tinha retido todos os répteis, impedidos de entrar no avião, e liberado os mamíferos, autorizados a viajar. Não só para calar o choro do meu filho, cujas lágrimas se aproximavam perigosamente do limite permitido de líquidos, mas também com curiosidade genuína, perguntei: “Porque é que estes não podem?” Ao que a segurança, com o tom mecânico de quem recita um regulamento memorizado, respondeu: “São animais assustadores. Impossível”. A fila de passageiros irritados atrás de nós fez com que não tivesse oportunidade de contra-argumentar, esclarecendo que me assusta mais um elefante do que um triceratops roxo.

De maneira que passei a meia-hora seguinte a explicar ao meu filho, com sobranceria colonialista, que os africanos são mais supersticiosos que nós, que somos mais racionais. Daí considerarem que aqueles bonecos específicos, mas não outros, podem comprometer a segurança do avião. Por nenhuma razão científica, apenas por pensamento mágico. Como o meu filho ainda dorme com uma luz de presença, com medo da caveira do navio pirata que brilha no escuro, não foi difícil fazê-lo perceber o cagaço que um animal de borracha pode exercer sobre quem não aprecia seres rastejantes. Também ajudou termos comprado logo dois ou três brinquedos no Free Shop, que amenizaram a perda. O resto da viagem correu sem sobressaltos, tirando um ou outro encontro com animais (verdadeiros) de grande porte, que se aproximaram de mais do nosso carro. O medo que a senhora do aeroporto tinha dos bichos pequenos não encontrou correspondência no à vontade que o guia do safari tinha com os de tamanho real.

O meu filho lá acabou por esquecer o trauma de ficar sem os brinquedos por causa de uma decisão aleatória e não justificada. Até ao dia em que voltámos. Mais uma vez, tivemos de apanhar um voo de ligação, agora em Londres, já em solo europeu. Desta vez, foi a minha mochila a ser seleccionada para inspecção. Preocupado, o meu filho perguntou se eu tinha trazido alguma cobra. Sorri e disse paternalisticamente: “Calma, filho, aqui na Europa não fazemos disso. É óbvio que haverá uma razão lógica para eu ter de abrir a mochila”.

Mas não havia. Sucede que tinha uma garrafa com um resto de água e não ia ser possível passá-la. “Repare: tem menos de 100 ml”, retorqui, confiante que a apresentação de um argumento coerente iria desbloquear o impasse. “Pois, mas o recipiente tem capacidade para 250 ml”. “Verdade”, concordei, ainda a sorrir. “Mas as regras falam em menos de 100 ml”. “Recipientes com menos de 100 ml. Não é o caso desta garrafa”. O meu filho acompanhava a conversa, fascinado.

“Se o problema é a quantidade, então e se eu trouxesse um líquido perigoso, mas em dois recipientes com 75 ml?” “Podia passar”. “E 25 ml do mesmo líquido perigoso, mas num recipiente de litro e meio?” “Não podia”. “Não faz qualquer sentido”. “Acha? Então tire também os sapatos, por favor” “Porquê? A minha mulher acaba de passar com uns ténis iguais e não teve de os tirar!” E foi nessa altura que senti o meu filho a puxar a camisola. “Deixa estar, pai. É superstição. Nem o meio de transporte tecnologicamente mais avançado está imune à crendice”.

O leitor sabe quando entraram em vigor as proibições de transportar líquidos na bagagem de mão? Pois, eu também pensava que tinha sido logo após o 11 de Setembro de 2001. Na realidade, foram instituídas em 2006, depois das autoridades britânicas terem prendido uma série de paquistaneses que planeavam detonar bombas em voos transatlânticos, com explosivos líquidos preparados no avião. Depois dos atentados de Londres, em 2005, os líderes da Al Qaeda tinham receio que grandes compras de peróxido de hidrogénio (a vulgar água oxigenada) em Inglaterra levantassem suspeitas e descobriram que conseguiam trazê-la do Paquistão em embalagens de água de rosas, dando todo um novo sentido à expressão “e o rabinho lavado com água de rosas, queres?” Foi então que bolaram um plano para utilizar líquidos desses e similares para grandes espectáculos de luz e cor. Desmantelado o esquema, nasceram as regras dos frasquinhos e dos sacos de plástico transparentes. Portanto, se um bombista precisa de meio litro de água oxigenada para explodir um avião, não vai poder contrabandeá-la em 4 garrafas de 125 ml. Vai precisar de 5 garrafas de 100 ml. Ou 7 de 75 ml, que sobeja, o que até acautela possível entornanços devido à turbulência. Está visto que a proibição não impede o fabrico do explosivo, dá é mais trabalho ao terrorista. Atrapalha-o duplamente: por ter de levar mais recipientes; e por ter mais dificuldade em usar a casa de banho para o preparar, porque vai estar permanentemente ocupada por pessoas que foram obrigadas a beber as suas águas de penalty.

Outra incongruência no sistema de segurança dos aeroportos, que mostra bem a natureza ritualística de algumas acções, tem a ver com os sapatos. Desde que, no fim de 2001, houve uma tentativa falhada de fazer explodir um par de ténis num voo Paris-Miami, alguns passageiros são obrigados a descalçar-se e a passar os sapatos pelo raio X. Com que critério? Aparentemente, nenhum. Mas, se tiver de adivinhar, aposto que os seguranças escolhem as pessoas com ar mais asseado. É que o bombista dos sapatos não conseguiu acender a bomba porque o rastilho estava húmido com o suor dos pés. Portanto, pessoas que cheiram a chulé não são uma ameaça.

A prova de que as regras são aleatórias é eu ter de tirar os sapatos porque uma vez alguém levou uma bomba nos ténis, mas, apesar de em 2009 um terrorista ter transportado explosivos na roupa interior, nunca me mandarem tirar as cuecas.