Médio Oriente

Armagedão /premium

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A decisão sobre Jerusalém aumenta a tensão na Cidade Santa e torna mais difíceis as condições de vida dos palestinianos, 37% da sua população, cidadãos de Lugar nenhum.

Analisar o sucedido em Israel nas últimas 48 horas não é fácil. Não é fácil para o comentador, não é fácil para o analista, não é fácil para os decisores, políticos em geral, para ninguém.

O sucedido no Médio Oriente nestes dois dias não devia ter acontecido. Não faz sentido sob nenhuma perspectiva, salvo a unilateral defesa dos ultras de Israel. Ora numa região tão sensível, qualquer tomada de posição unilateral que fosse, neste caso o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, teria necessariamente como efeito o efeito que teve.

Houve avisos. Não serviram para nada.

A decisão norte-americana é má para toda a gente, para a região, para o Mundo. É má até para os israelitas, pois viver sob a espada de Dâmocles da guerra ou de atentados terroristas, viver com medo, contraria a natureza humana. É mesmo desumano.

A instalação da embaixada em Jerusalém Oeste é na prática desnecessária – já há um consulado americano na cidade. É pois uma mera, mas não simples, tomada de posição política. Com que consequências? De imediato, dezenas de mortos e centenas de feridos. Violência e ódio entre judeus e palestinianos, com alguns cristãos de permeio. Quando a decisão foi anunciada há alguns meses, o Presidente da Câmara de Jerusalém, Nir Barkat, disse à CNN estar “deliciado”, pois Jerusalém é a capital do povo judeu e de Israel há 3 mil anos.

Viajemos pela História: entre o Jordão e o Mediterrâneo, a Palestina é sagrada para cristãos, judeus e muçulmanos. Em finais do século XIX pertencia ao Império Otomano. Em Jerusalém, sob a autoridade directa de Istambul, viviam 404 mil árabes, 44 mil cristãos e 15 mil judeus. O primeiro movimento migratório judeu significativo ocorreu em 1882. Ospogromsna Rússia, na transição do século e, mais tarde, o genocídio nazi, estimularam o projecto do “Eretz Israel”, a ideia de uma pátria judaica protegida pelo direito público: inicialmente religioso, o movimento veio a ser influenciado pelo nacionalismo crescente na Europa e no Mundo.

No início da 1ª guerra mundial, a população judaica na Palestina subira para 60 mil, havendo 683 mil árabes. Durante a guerra, McMahon, Alto-comissário britânico para o Egipto, prometeu ao governador de Meca e Medina, o hashemita Husayn ibn ‘Ali, criar um Estado na região ocupada pelo Império Otomano, se os árabes se revoltassem. Sob o comando de Lawrence da Arábia e do filho de Husayn, os otomanos foram derrotados. Mas no final da guerra, britânicos e franceses dividiram os antigos territórios otomanos e proclamaram, em 2017, o direito dos judeus criarem uma Pátria na região. O direito ao estabelecimento de um Estado judeu assentava em argumentos baseados em fontes bíblicas e históricas.

Sob a égide da Liga das Nações, o Reino Unido manteve um mandato sobre a Palestina; os confrontos entre judeus e árabes sucederam-se. Com o êxodo de judeus da Europa, a recomposição demográfica da Palestina alterou-se: em 1946, havia já 1.270 mil árabes e 608 mil judeus a viver no território palestiniano sob mandato britânico. Com a retirada do Reino Unido, as Nações Unidas, por resolução Novembro de 1947, adoptaram a solução dos dois Estados, fazendo de Jerusalém e Belém zona internacional. O resto é História recente.

Na sequência das guerras judeo-árabes, em 1948, 1956, 1967 (guerra dos seis dias), 1973 (Yom Kippur), cerca de 700 mil árabes abandonaram a Palestina e refugiram-se nos países vizinhos, maioritariamente na Jordânia (onde vivem hoje cerca de 1,3 milhões, muitos em campos de refugiados). Acordos de paz com os vizinhos árabes levaram ao fim das guerras generalizadas na região, mas não à paz interna. Há muito que a comunidade internacional tenta resolver, ou ajudar a resolver, o diferendo sobre Jerusalém. No final da guerra que levou à criação de Israel, em 1948, a proposta da ONU previa que Jerusalém Oriental fosse a capital de um Estado palestino. Essa possibilidade só foi reconhecida em 1994, com os Acordos de Oslo, que proclamaram um Estado Palestino na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Mas Israel nunca deixou de reivindicar uma Jerusalém indivisa como a sua capital histórica. E em Março deste ano, face às reacções dos palestinianos, o parlamento israelita autorizou a retirada do direito de residência a qualquer palestiniano de Jerusalém “desleal” ao Estado de Israel; na prática, a qualquer um que seja considerado uma ameaça na perspectiva israelita.

Há hoje 420 mil palestinianos em Jerusalém Oriental. Têm cartões de identidade de residência permanente de Israel e passaportes precários emitidos pela Jordânia para efeitos de viagem. São gente sem Pátria, cidadãos de nenhum Lugar. Somam-se aos milhões a viver fora de Israel.

Nir Barkat, nas declarações que refiro acima, foi revelador: “ponham uma pá no chão e encontrarão raízes judias”. E disse que quem se mostrar violento “pagará um preço elevado”. Ora esta decisão de Donald Trump é má para todos, até para os israelitas, que têm o direito a um Estado próprio sem ter de viver sob a espada de Dâmocles da guerra ou de atentados terroristas, com medo, um estado contrário à natureza humano. É mesmo desumano.

Já ao denunciar o acordo com o Irão, Trump voltou a mostrar como encara as relações internacionais: uma questão bilateral, EUA contra o Mundo. O que é bom para a América deve ser prosseguido, mesmo com custos elevados para outros, sejam eles Estados párias, perigosos terroristas, a comunidade internacional, indefesos cidadãos de outros países ou os aliados mais chegados dos norte-americanos.

A decisão sobre Jerusalém aumenta a tensão na Cidade Santa e torna mais difíceis as condições de vida dos palestinianos, 37% da sua população, cidadãos de Lugar nenhum.

Aliena ainda mais os aliados europeus, fieis à ideia de uma civilização de valores livre e justa, união antiga com a potência norte-americana de raízes europeias, ocidentais e liberais.

Ameaça os cristãos da Terra Santa. Em Dezembro de 2017, o Patriarca de Jerusalém Theophilos III e uma dúzia de líderes espirituais da Igreja cristã alertaram Trump para as consequências: uma divisão destrutiva em vez da unidade conciliadora, um dano irreparável.

Lança gasolina à fogueira que arde no Médio Oriente. Reforça a convicção dos colonatos israelitas do seu direito divino a permanecer em Jerusalém Oriental e na Transjordânia e consola a convicção, contrária ao direito internacional e à exigência da paz, da indivisibilidade de Jerusalém. Acresce a ambiguidade perante aliados como a Turquia, membro da Nato: Erdogan disse que os EUA são parte do problema e não da solução, anunciando que abrirá uma Embaixada em Jerusalém “capital da Palestina”, prevendo uma nova guerra na região.

E compromete em definitivo o papel de mediador no conflito dos Estados Unidos, que não podem sê-lo assumindo-se como defensores de uma das partes num aspecto tão sensível.

E há as grandes vítimas: homens e mulheres comuns, palestinianos e israelitas, sacrificados no altar de decisões que não controlam, sacrificiais vítimas indefesas. A prazo, como escrevi, esta decisão é má até para os israelitas, pois aumenta o risco de guerra, de violência e de ataques terroristas. É contrário à natureza humana viver sob a égide do medo. É mesmo desumano.

“Pedimos-lhe senhor Presidente, que nos ajude a todos a caminhar em direcção a mais amor e a uma paz definitiva, que não pode ser alcançada se Jerusalém não for de todos”, escreveram em 2017 os Patriarcas e Líderes das Igrejas Locais Cristãs de Jerusalém. “Jerusalém, a cidade de Deus, é uma cidade de paz para nós e para o Mundo”, escreveram ainda.

Ouvindo a sua consciência e fé, que nada lhe disseram, Donald Trump optou por ignorá-los.

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