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Empreendedorismo

Arriscar a pele

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Em Portugal não se trabalha ou empreende por gozo, por espírito competitivo, simplesmente para fazer algo bem feito, para ter sucesso. Trabalha-se e empreende-se, por regra, apenas para ganhar a vida.

Os portugueses, de um modo geral, não gostam de arriscar. Nem fazenda, nem pele. Isso percebe-se quando se fala quer com um empresário, quer com um sindicalista. E percebe-se também nos resultados disponibilizados pelo Hofstede Insights: numa escala de 0 a 100, os portugueses atingem 99 em aversão ao risco, sendo dos povos que, à face da Terra, mais avessos são à incerteza. Portanto, é provável que os seguintes diálogos, tirados de uma crónica estrangeira e antiga, não pareçam, para muitos leitores, mais que conversas entre doidos.

Depois de Kinokuniya Bunzaemon 紀伊国屋文左衛門 (1669—1734) propor a Kichidayu que navegasse de Kumano a Edo durante a tempestade, “como o velho marinheiro se mantivesse calado, Bunzaemon prosseguiu: ‘Quanto ao barco, pedirei ao Mestre da Daikokuya para que me ceda um dos seus, o maior que tenha. Será que posso contar convosco para o capitanear por mim? É minha intenção levar o maior carregamento possível de laranjas até Edo enquanto este vento tempestuoso continuar.’

“Kichidayu cruzou os braços e contemplou o mar como se estivesse em meditação. Depois, voltando-se para Bunzaemon, disse: ‘Por vós farei esta viagem. Que me interessa conservar ou perder a minha vida? Nada me importa. E se o navio se afundar? Que me importa? Mas vós, estais a pensar em vir a bordo?’

“Respondeu Bunzaemon: ‘Evidentemente! Se eu não for, o negócio não pode ser efetuado. O comércio é como a guerra. Nas batalhas de antigamente o valoroso Minamoto no Yoshitsune [源義経 (1159—1189)] deu-nos o exemplo ao atacar o exército dos Taira levando os seus navios de guerra a Shikoku numa noite tempestuosa. Se não tivermos coragem para enfrentar este tempo agreste nunca conseguiremos alcançar nada de valoroso. Temos de aproveitar resolutamente esta oportunidade; se morrermos, morramos juntos. Se eu alcançar o meu objetivo não deixarei de vos recompensar generosamente.’

“E continuou: ‘Pagaremos também aos marinheiros dez vezes a jorna normal, de modo que possais encontrar alguém que aceite vir connosco. Posso vos pedir para que os contrateis?’

“E, dizendo isto, entregou ao capitão o montante necessário. Depois dirigiu-se para casa com o fito de falar com o seu patrono, o proprietário da Daikokuya. Ao o encontrar disse-lhe de chofre, omitindo mesmo as saudações habituais: ‘Mestre, de entre os vossos navios o mais velho é o Tenjin-maru, com capacidade de dez mil koku, não é verdade?’

“O mestre, espantado com o abrupto da pergunta, gaguejou: ‘Sim, … de facto é o meu navio mais velho, e estou mesmo a pensar em o desmantelar.’

“‘Me o vendereis?’

“Ao que o Mestre respondeu: ‘Se o queres, fica com ele, que te o dou de presente. Mas que uso lhe queres dar?’

“Replicou-lhe Bunzaemon: ‘Estou a pensar em levar um carregamento de laranjas até Edo.’

“‘Suponho que quando esta tempestade passar…?’

“‘Não, enquanto a tempestade durar.’

“O Mestre ficou surpreso, mas olhando para o seu protegido, apenas observou: ‘Que ideia extraordinária!’

“Após uma pequena hesitação Bunzaemon aproximou-se mais dele e insistiu: ‘“Por favor, honorável Mestre, vendei-mo; preciso dele para uma batalha comercial.’

“O homem mais rico de Kumano que, não tendo filho varão, desejava adotar Bunzaemon para lhe suceder à frente de Daikokuya, ficou imóvel a meditar longa e pausadamente. Por fim disse: ‘Bem, se estás mesmo decidido em avançar com essa aventura, desejo-te boa sorte. Mas o Tenjin-maru não é um navio apropriado para este tempo; assim, prefiro emprestar-te um mais capaz de aguentar o mar.’

“Bunzaemon recusou: ‘Muito obrigado, mas não, Meu Senhor. Não tenho intenção de levar emprestado aquilo que não sei se poderei devolver. O resultado desta ventura será decidido pelo destino. Se soçobrar na ida não poderei vos devolver o vosso navio. Não quero levar nada de emprestado, nem quero investir capital de outrem.’

“O Mestre, que conhecia bem a natureza determinada do discípulo não levantou mais objeções, mas apenas acrescentou: ‘Muito bem, eu te o vendo. Com certeza que conseguirás o que queres. Vai e regressa carregado de tesouro.’

Para um típico luso-empresário contemporâneo este episódio não fará sentido, nem Bunzaemon deveria estar no seu juízo: “para quê arriscar capital próprio, se se pode investir o alheio?” é o mote de qualquer entrepreneur nacional que se preze. E onde estão os subsídios? E, para cúmulo, que ganharia Bunzaemon em insistir arriscar a pele e ir no navio, se pode mandar o empregado?

A posição da CGTP também se advinha: as condições expectáveis de trabalho no Tenjin-maru não asseguram a segurança mínima dos marinheiros; a proposta de pagar dez vezes mais que o corrente salário de miséria, mais não é que uma manobra divisionista; e a conversa de Kichidayu de arriscar a vida pelo patrão, soa a fanatismo religioso, tipo Jo 15, 13. Razões suficientes para exigir uma inspeção e fazer abortar este negócio especulativo que pretende explorar a crassa estupidez e religiosidade de trabalhadores sem consciência de classe.

Em Portugal, em geral, não se trabalha nem se empreende por gozo, por espírito competitivo, ou simplesmente para fazer algo bem feito, ou para se ter sucesso. Trabalha-se e empreende-se, quase sempre, apenas para se ganhar a vida: esta é a conclusão que se pode tirar do índice de masculinidade do nosso país (muito baixo: 31) no Hofstede Insights. Português típico não arrisca o seu. Petisca o alheio…

Professor de Finanças, AESE Business School

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