1 Descobri que as lojas grandes, sobretudo com tempo agreste, se podem reinventar. Não há esperas na rua e a lotação é maior mantendo espaçamento de segurança. Um modelo aparentemente obsoleto, o dos hipermercados, pode inusitadamente ganhar nova vida por causa de uma simples questão: distanciamento social. Mais, a senhora de trás não se chega ao meu guarda chuva para fugir a uma molha e o senhor da frente não tem tendência a recuar para ficar à sombra do “meu próprio” espaço. Eu agradeço.

2 Descobri que um cão dá imenso jeito. Ajuda a sair e a completar o que ficou por fazer de exercício físico durante o dia. Mais, permite, se passeado de noite, sair à rua quando não há justificação e apenas para esticar as pernas ao fim de um dia de trabalho longo. E porque é de noite e o cão grande, e dá jeito ser grande e com ar ofensivo (nunca percebi bem porque as pessoas ainda têm mais medo dele quando açaimado), vai contribuindo para afastar qualquer alma que tenha intuitos menos bem intencionados ou vagueie pelas ruas vazias de Lisboa à procura de “rendimento extra”. Obrigado ao meu ridgeback pelas imensas caminhadas.

3 Descobri que o ginásio pode ser reinventado, e transposto, nada mais nada menos, que para a escada do prédio. Uma aula de step trocada por uns lanços de escada subidos a correr torna-se um bálsamo. E se se subir a correr e, ao mesmo tempo, tiver música e parar em alguns patamares para fazer alguns exercícios acompanhando aulas pré-gravadas e disponíveis no telemóvel, torna-se quase tão gratificante como cheirar o suor dos outros numa aula normal de ginásio. Aos 1.000 degraus estou outro. Agradeço o facto de viver num prédio com 10 andares.

4 Descobri que genericamente o e-commerce em Portugal não tem capacidade instalada e a resposta é lenta e sempre com output aquém do encomendado. Falta isto, aquilo e mais aquilo. Descobri também que as trocas face ao pedido são mais que muitas. Mas, enfim, quando a fome é negra ou a necessidade de resposta é alta perdoamos a ausência de qualidade de serviço e de tempo de resposta se trocados por qualquer coisa útil. É uma espécie de descida aos básicos na pirâmide de Maslow, se ela ainda existe. Refiro-me à original. E sim, agradeço a Maslow a associação do e-commerce aos níveis mais baixos das necessidades fisiológicas.

5 Descobri que em last mile, e nas entregas em casa, há coisas que funcionam e há outras que não funcionam de todo. Há uma curva de aprendizagem gigante a fazer em Portugal. Há inúmeros aspetos a serem endereçados e não vos vou maçar com eles agora. O mínimo, o mínimo dos mínimos, bom, é que a motinha, perdida, não me venha perguntar se o meu próprio endereço existe. Mas pronto. À primeira é aceitável. Mas quando é a mesma motinha, coincidência das coincidências, a perguntar-me duas vezes a mesma coisa com um espaçamento de dois dias, algum problema de queijo a mais e referências ou histórico a menos existe. No entanto, estou profundamente agradecido às inúmeras motinhas que surgiram.

6 Descobri que ter um jardim próximo de casa é um bálsamo para a alma. Ajuda a respirar e a descontrair. Antes, e raramente, podia sentar-me num banco de jardim dos muitos que por ali há. Hoje, vedados e retirados à minha liberdade de me sentar, por causa de um bicho invisível que nem se sabe se gosta de se sentar nos bancos, permitem-me aguçar a curiosidade. Observo a sua degradação dia-após-dia e a sua não limpeza. No final da quarentena e agora pseudo-confinamento estarão mais sujos e mais inapropriados do que podendo receber vários rabos – ou mesmo pés – em cima. Agradeço penhoradamente o jardim. Os bancos terão de ficar para depois.

7 Descobri que ter um terraço em casa é providencial. Sobretudo naquela hora do dia em que apetece um café, sair ao terraço e apanhar uma lufada de ar fresco ou um raio de sol é quase essencial. Inspira-se, expira-se e agradece-se o facto de o terraço ser o primeiro andar a contar vindo do céu. Eu agradeço.

8 Descobri que em casa se come por vezes bastante melhor que no restaurante. Não porque o restaurante venha a casa mas porque alguém teve a paciência de se dedicar um bocadinho e dar o melhor de si. Ou porque abriu um livro de receitas ou porque se lembrou de, por magia (ou experiência desconhecida), colocar qualquer coisa na mesa que nunca tinha entrado em casa. Na Páscoa, por exemplo, descobri que um dos meus filhos cozinhava bem melhor que muitos restaurantes a que já fui. Agradeço, sentido, estas dádivas.

9 Descobri que há pessoas que são fantásticas em crise. E descobri que há pessoas que não são capazes de dar resposta, de todo. À pergunta “confirma-se uma correlação entre a capacidade de resposta em regime normal e em remoto?” responderia tendencialmente que sim. Mas há boas e más exceções. Portanto, recrutamentos futuros – e isto é um aviso sério aos Recursos Humanos –  deverão ter em atenção que se devem fechar pessoas em salas por períodos de mais de 24 horas, privando-os de liberdade, para saber se continuam capazes de responder. Importante avaliar-lhes as reações e o sentido de humor findo o processo. Fico agradecido ao processo por ter passado a conhecer melhor algumas das pessoas com quem trabalho.

10 Finalmente, descobri que a ciência está viva (não sei se é a palavra mais correta) mas que o “achismo” em ciência, e os egos pela posse da razão, são muito mais importantes do que a razão. Há verdadeiras estrelas em aparição e que se desvanecem para terem os seus 10 minutos de fama com uma montanha de barbaridades. Há os teimosos que nunca dão o braço a torcer e nunca desarmam. Há os alarmistas. Há os super otimistas. Há os pessimistas mais empedernidos. Há híper medrosos. Há tudo. E de tanto haver há até quem mande lavar pulmões a detergente. Se não fosse pelo facto risível de ver a ciência nas ruas da amargura eu até era capaz de me rir. Mas, confesso, apesar de tudo isto tenho-me rido. E muito.

Vejam lá se não é muito mais ciência fazer como fazia em engenharia, antes de entregar a alma à gestão: depois de mil cálculos feitos e a coisa estar mais que segura, just-in-case, multiplicava o resultado por 1,5. No Técnico chamávamos-lhe coeficiente de cagaço. Era a nossa ciência e, em boa verdade e em matéria de construção, não vejo nada mais científico. E agradeço profundamente o princípio do 1,5 que me tem ajudado reiteradamente e em várias dimensões ao longo da vida.

Mesmo se depois do fim, até porque são 10 e não 11 as descobertas, descobri também que, tal como eu, ninguém está muito capaz de planear, prever, escrever e pensar sem levar a toda a hora com um banho de realidade que o faz mudar de direção. Por isso, esquecer muito do aprendido e viver o dia-a-dia e “logo se verá” é um princípio que vejo em África, por exemplo, e que aprecio e saboreio quando lá vou mas que nunca consegui compreender na sua verdadeira essência. Porém, por tudo isto, por tudo o que vivo, e por todas as vezes – e foram muitas, acreditem – que me ri de mim próprio e do que não sei, nunca me senti tão africano na forma de pensar. Hoje é hoje. Amanhã logo se verá. Isto, vá lá, não descobri. Mas isto mesmo não vou querer esquecer nunca mais.