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“São as nossas origens agrícolas, que, infelizmente, estão tão esquecidas. A agricultura urbana deveria ter integração obrigatória no planeamento urbano, e o gado e a pastorícia são peças fundamentais nesse processo.”
Gonçalo Ribeiro Teles

Há ovelhas a pastar em Lisboa!

A utilização de pequenos ruminantes para controlar o crescimento de vegetação não é propriamente uma novidade: há cinco anos, a Google anunciava no seu blogue que havia trocado os cortadores de relva na sede da companhia por um rebanho de 200 animais (cabras), alugados à empresa California Grazing. Também em Paris, a empresa EcoMouton começou a colocar ovelhas em espaços verdes para controlar as ervas. Entretanto, a empresa cresceu e já aluga centenas de ovelhas por toda a França, incluindo empresas como a fornecedora de eletricidade do Estado ou o fabricante de automóveis Renault. Em entrevista, a diretora de espaços verdes de Paris antecipou que outras grandes capitais inovadoras em temas ambientais seguiriam o exemplo da capital francesa: afinal de contas, a solução é mais económica, menos poluente e com externalidades positivas para solos ou biodiversidade.

Há poucos meses, em resultado do projeto Life Lunggs – o primeiro projeto Life ganho pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), em 2019, e um instrumento de financiamento da União Europeia para o ambiente e ação climática – concretizou-se aquele que era um sonho antigo do arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles. Vinte ovelhas formam o rebanho que deu início a esta iniciativa, no Parque da Belavista, e que, nas palavras de José Sá Fernandes, vereador do Ambiente, Clima e Energia e Estrutura Verde da CML, tem como propósito “associar o pastoreio de animais à manutenção dos prados biodiversos da infraestrutura verde da cidade, e assim as ovelhas alimentam-se, fertilizam o solo e contribuem para a paisagem”.

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Entretanto, há um mês estalou a polémica: Sofia Ferreira, candidata à Câmara pelo Nós Cidadãos!, usou as redes sociais para denunciar o que chamou de Ovelhagate: os gastos municipais de 115 mil euros com a iniciativa. Embora explicando os valores em causa – por exemplo, os 75 mil para o Ovil ou 19 mil para vigilância – salta para um custo de mais de 5 mil euros por ovelha. Se o leitor for beber um café, mas antes dele comer um croissant e beber um leite com chocolate, também pode dizer que lhe estão a levar 5 euros por um café. É isto sério? Não é. Mais, conforme já explicado por Duarte Mata, técnico responsável pela candidatura lisboeta aos fundos destinados pela União Europeia para ações de mitigação do aquecimento global, “é importante, entretanto, lembrar que o Life Lungs é um cofinanciamento com a UE, cujos números envolvidos são públicos, e que as fases de execução obedecem a um rigoroso caderno de encargos”. Inês Freire, gestora do projeto acrescentou: A ideia é justamente perceber quais os recursos financeiros e humanos necessários e, a partir daí, concluir se este modelo faz sentido.”

Também os conflitos com pastores, cabras e ovelhas não são novos. Caim, agricultor, matou o seu irmão Abel, pastor. O reconhecimento recente da importância ecológica desta atividade reavivou velhos conflitos, sob a forma de politiquice, chacota ou mesmo indignação. Lembremo-nos, por exemplo, da indignação da Associação Nacional de Bombeiros, quando, há três anos, foi anunciado o projeto-piloto das cabras-sapadoras para a prevenção de incêndios: “Nunca na história, nem no tempo em que o Rei D.João I criou os bombeiros profissionais, nem no tempo do Salazar, os bombeiros foram alvo de um tratamento tão pouco digno” com tal designação – Sapadoras – ,“infeliz e desrespeitosa”.

O crescimento da vegetação é um problema sério, tanto no campo, onde potencia incêndios devastadores, como na cidade, onde estraga passeios, deixa uma imagem inestética e de desleixo, acumula lixo, potencia pragas e resulta em abundantes queixas aos executivos autárquicos. O uso de herbicidas, uma solução económica e eficaz, é rejeitado pela maioria dos cidadãos. A alternativa adotada tem sido maioritariamente o corte de ervas com recurso a maquinaria, da qual resultam não só gastos elevados, quer em máquinas quer em funcionários, como poluição provocada por motores continuamente a queimar gasolina. O uso de animais, como tudo, tem vantagens e constrangimentos. Sim, as escolhas entre alternativas com certeza merecem discussão. Mas discussão contextualizada, não visões preconceituosas regadas a demagogia e propaganda.

Interessado em erva e não em cartazes eleitorais, o primeiro rebanho urbano já pasta. E para muitos, quer miúdos quer graúdos, vê-lo a trabalhar tem sido uma curiosidade e um gosto.