Os europeus ocidentais desabituaram-se da guerra. Em certo sentido é normal: vivemos, desde 1945, sem grandes guerras convencionais na Europa Ocidental. O problema é que nos convencemos de que a paz é natural, não tem custos, não exige meios de defesa e dissuasão de ameaças. Um texto de opinião recente ajuda a ilustrar o ponto a que chegou o nosso desarmamento intelectual e os disparates a que isso conduz.
Vão combater, malandros
Há um sofisma muito popular nas redes sociais: o de que só tem legitimidade para analisar e defender algum envolvimento num conflito armado quem estiver no terreno a combater. Lamento desapontar os muitos anónimos das redes, mas não preciso da licença deles para analisar ou opinar sobre guerras. Tirei essa licença quando me doutorei em estudos de guerra pelo King’s College. A ideia de que só um combatente pode analisar guerras apenas faz sentido para quem desconhece o básico desse tipo de estudo. Teremos de parar de escrever sobre a eficácia de desembarques anfíbios na Segunda Guerra Mundial porque não temos uma máquina do tempo para ir combater na Normandia? No presente, existem 66 conflitos armados em todo o mundo; temos de combater em todos eles, e ao lado de que beligerante? Este espécie de machismo analítico – “não és homem para ires lá dar uns tiros” – é especialmente risível porque estes autonomeados especialistas naturalmente não praticam o que defendem. Uma variante que pode parecer mais razoável deste argumento é a ideia de que quem defende algum tipo de apoio a um país invadido devia ir lá combater. No entanto, seguindo a mesma lógica, se defendermos a ajuda ao combate aos incêndios em Espanha, às vítimas das cheias em Moçambique ou do Ébola no Quénia – situações que envolvem algum risco de vida – em vez de mandarmos bombeiros ou médicos qualificados, deveríamos ir em pessoa? Ridículo.
Os nossos filhos não
O cronista citado mostra-se muito preocupado com a falta de rigor alheio. É verdade que é preciso cuidado com a desinformação e a propaganda numa guerra. Resolve então apostar num processo de intenções abusivo, numa manipulação grosseira, ou, na demonstração superpoderes psíquicos na leitura de mentes alheias. Afirma que o verdadeiro objetivo dos analistas ou governos que defendem que a Europa tem de se rearmar e ajudar a Ucrânia a defender-se é preparar o terreno para arrancar os jovens europeus dos seus lares pacíficos – com base num serviço militar obrigatório que nem sequer existe na maioria dos países – para os forçar a ir combater na frente ucraniana.
A ideia de que enviar armas e dinheiro para a Ucrânia conduz inevitavelmente ao envio de tropas é desmentida pelos últimos cinco anos e pela história. Temos centenas de conflitos desde 1945 em que um dos lados foi armado por potências externas sem envolvimento de tropas próprias. Mais, na maioria dos casos em que forças expedicionárias foram enviadas, tratou-se de tropas profissionais, de soldados voluntários. Os EUA no Vietname e a União Soviética no Afeganistão são exceções, tal como as guerras coloniais tardias, mas tornaram-se casos exemplares do que se quer evitar.
O título da coluna citada afirma que Portugal “não deve filhos à Ucrânia”. Realmente não estamos obrigados a isso por nenhum acordo formal, ao contrário dos EUA e da Rússia que, em 1994, no memorando de Budapeste, se comprometeram a garantir a segurança e integridade territorial da Ucrânia em troca do governo de Kiev ceder a Moscovo as armas nucleares soviéticas que tinha herdado. No entanto, Portugal apoiou esse processo de desnuclearização da Ucrânia, que até se iniciou com negociações em Lisboa. É um excelente exemplo dos riscos do desarmamento unilateral. Isso significa que não devemos nenhum apoio à Ucrânia? E não se combate uma invasão sem armas e dinheiro.
Os “mecânicos” da Oficina da Liberdade acham que a liberdade foi construída e mantida sem luta? Devemos evitar qualquer risco de desagradar a uma Rússia que, dizem-nos, não é sequer uma ameaça séria? Devemos deixar uma grande potência com declarados objetivos expansionistas tentar invadir quem quiser na Europa, desde que não sejamos nós? Vamos esperar até que o alvo seja membro da NATO para fazermos alguma coisa? Já se tentou essa lógica de apaziguamento amoral, na década de 1930, e o resultado não foi grande coisa do ponto de vista da defesa da paz.
Orgulhosamente sós?
É legítimo discutir o que Portugal deve fazer num mundo cada vez mais propenso a conflitos armados, que atingiram um número recorde no ano passado. Por exemplo, devemos voltar a ter um serviço militar obrigatório? Do meu ponto de vista essa opção é cara e militarmente pouco eficaz, mas o que fazemos se deixarmos de ter voluntários suficientes? Também me parece evidente que – tal como já acontece hoje – só devem ser enviados para combater no exterior soldados profissionais e, de preferência, voluntários para essas missões. Aliás, já temos jovens portuguesas em zonas de guerra, por exemplo, na força destacada na missão da ONU na República Centro-Africana.
Num contexto em que um aliado-chave como os EUA se mostra pouco de fiar devemos ser capazes de pensar fora da caixa estratégica habitual. O que não faz sentido é fingir que a Europa decidiu rearmar-se por capricho, ou que qualquer apoio à Ucrânia levará à Terceira Guerra Mundial, como nos dizem há cinco anos. A Ucrânia está numa situação muito difícil com uma nova aproximação de Trump a Putin. Eu não faço da Rússia uma potência imbatível – isso não existe – mas mesmo um regime muito ineficiente, quando está armado até aos dentes, pode causar grandes estragos na vizinhança. Há sinais de cansaço em setores importantes na Europa com o apoio à Ucrânia. Não me espanta que haja quem esteja a procurar alibis para se livrar de incómodos. Podemos em breve testar a tese de que uma paz a qualquer preço na Ucrânia irá contribuir para a segurança da Europa livre.
Se não quisermos mandar armas ou tropas para lado nenhum, então estamos a defender que Portugal deve abandonar as suas alianças e adotar uma estrita neutralidade. É legítimo, mas convém perceber que isso não nos livra dos impactos negativos de conflitos armados ou da necessidade de investimento em defesa. Grande parte do Mundo não está em guerra com o Irão, mas todos pagam o preço na bomba de gasolina. Essa opção também significa que, se formos atacados ou ameaçados, estaremos por nossa conta. É o que querem? Querem ir mais longe e defender o desarmamento unilateral? Digam-no abertamente, e expliquem onde é que isso correu bem. Na Ucrânia não foi certamente. Existem alguns exemplos bem-sucedidos de neutralidade, como a Suíça ou a Suécia, todos casos de neutralidade armada e de forte investimento na indústria de defesa nacional. Também há alguns poucos Estados que, abdicaram de ter Forças Armadas, com isso aceitam ser protetorados de outra potência, limitando as suas opções externas. É isso que defendem e quem seria o protetor?
Há também muitos fracassos da aposta na neutralidade como forma de evitar envolvimento em guerras, como a Bélgica, a Dinamarca ou a Noruega na Segunda Guerra Mundial. A história ensina muito, mas não dá respostas simples. Uma das coisas que mostra é que pensar que se pode viver sem riscos ou defender a liberdade sem armas nunca foi realista. Resta-nos escolher que riscos vale a pena correr, que valores queremos defender e como, desde logo, se sozinhos, se com outros.