Tenho lido e ouvido muitas explicações para a ascensão do Chega: a forma como a comunicação social lidou com o fenómeno, o favorecimento nas redes sociais, o crescimento do racismo, o Tribunal Constitucional não o ter ilegalizado, o povo ser pouco esclarecido — enfim, a panóplia habitual. A mim, parece-me que a razão é bastante mais simples: as pessoas estão fartas.

Estão fartas de um país onde nada parece funcionar, onde tudo está mais caro e os salários estão estagnados. De um país onde uma família com dois ordenados mal consegue pagar as contas.

Nas últimas duas décadas, houve uma evidente degradação da qualidade de vida em Portugal. A saúde pública é hoje uma lotaria, sustentada apenas pelo sacrifício de milhares de profissionais que, apesar das péssimas condições, vão mantendo o SNS a funcionar. Ainda assim, qualquer pessoa que não tenha dinheiro para um bom seguro (ou seja, a maioria da população) sabe que, se tiver um problema de saúde — ainda que relativamente ligeiro —, estará sujeita a um calvário burocrático antes de o conseguir resolver. Desde a falta de profissionais até à escassez de material, o SNS hoje não consegue responder, em tempo útil, às necessidades mais básicas da população. E não estou a falar de serviços que são uma miragem, como o dentista ou o psicólogo. Refiro-me a situações urgentes, como partos ou cirurgias. Enquanto escrevo este artigo, aguardo notícias de um primo cuja operação a uma fratura foi adiada no maior hospital do país por falta de material esterilizado.

A educação, que esteve completamente ausente da campanha eleitoral, não está muito melhor. Rara é a semana em que os pais não tenham de arranjar uma solução para os filhos por causa de uma greve. Sem falar das escolas onde não há professores para todas as disciplinas. A isto soma-se a queda evidente no nível de ensino. Ainda assim, está melhor do que as creches, onde é praticamente impossível conseguir vaga — a não ser que se comece a procurar antes mesmo de conceber a criança.

Estes dois pilares da democracia — saúde e educação gratuitas — são hoje dois dos maiores fatores de divisão social. Quem tem dinheiro tem acesso a esses direitos. Quem não tem, sujeita-se à sorte. Por alguma razão, nunca houve tantas crianças em escolas privadas como agora, e nunca os portugueses recorreram tanto a seguros como hoje.

Mas saúde e educação são apenas dois dos muitos problemas graves do país (dos mais graves, sem dúvida, mas longe de serem os únicos). A habitação está a preços descontrolados, os tribunais demoram anos a resolver qualquer assunto, os transportes públicos nas grandes cidades funcionam mal e, no resto do país, mal existem. Os salários são baixos, a comida está cada vez mais cara, a insegurança tem aumentado, e o fim do SEF abriu as portas a redes de tráfico que trouxeram milhares de imigrantes, sem que o país tivesse condições para os acolher — e por aí fora.

Fazer uma lista exaustiva do que está mal em Portugal é impossível. O que parece evidente é que o regime falhou — e falhou sobretudo aos mais pobres e mais vulneráveis.

Mas será isto suficiente para explicar o crescimento do Chega? Não, não é. A isto é preciso somar uma classe política que vive em circuito fechado, em conjunto com a comunicação social, num mundo que é só seu.

No país dos partidos políticos e dos jornais, os problemas são a energia verde, a inclusão, o ódio nas redes sociais, a transfobia e um conjunto de temas que não encontra eco para além das sedes partidárias e dos salões da burguesia.

Há um divórcio total entre a população em geral e aqueles que vivem no mundo dos cargos nos gabinetes, das empresas públicas, das passagens das redações para os ministérios, ou das avenças com juntas de freguesia e câmaras municipais.

O poder político e mediático vive numa bolha, longe do país real (do qual, aliás, parece ter algum desprezo). Hoje, os partidos são agências de emprego que vão distribuindo cargos e avenças conforme a lealdade dos militantes. E cada vez que rebenta um escândalo — o presidente da junta que contratou o primo como assessor, o vereador que atribuiu um contrato público a um amigo, o ministro que contratou um militante do partido para um parecer milionário —, a descrença das pessoas no sistema aumenta.

Chegámos a um ponto em que as pessoas estão tão fartas — fartas de um país que não funciona, fartas de uma classe política que vive de favores, fartas de uma comunicação social enfeudada — que quem aparece a gritar que o rei vai nu, ganha contornos de justo.

E assim cresce o Chega. Não precisa de fazer grande coisa. Não precisa de apresentar soluções, nem de ser honesto, nem sequer de ser especialmente diferente dos outros partidos. Basta engrossar a voz e dizer que o sistema está podre — porque está. E as pessoas estão tão fartas que um bufão que grita contra tudo e todos lhes parece uma boa solução.

Só há uma forma de combater o Chega, e não é ilegalizá-lo, nem fazer campanhas contra ele na comunicação social. É a classe política regenerar-se, abandonar os maus hábitos que vem cultivando há décadas, sair da sua bolha e começar, de facto, a governar o país. Deixar de governar para grupos de pressão, de agradar à comunicação social, de pensar apenas nas próximas eleições — e começar a resolver os problemas reais. Aposto o que quiserem: se o Governo conseguir colocar a saúde e a educação a funcionar, em pouco tempo o Chega desaparece.

A democracia em Portugal vive uma crise. Mas o Chega não é a sua origem — é a sua consequência. A causa está numa classe política fechada sobre si mesma, que tem conduzido o país para o abismo. Por isso, para resolver a crise, a urgência não é tratar a consequência, mas a causa. O novo governo da AD tem agora essa possibilidade. E o PS tem a oportunidade de se renovar e fazer parte da solução. Ou então podem continuar a brincar às tricas partidárias, a distribuir tachos e tachinhos, a encher a boca com temas que só interessam à comunicação social — e assistir da primeira fila à chegada de André Ventura ao poder.